quinta-feira, 29 de setembro de 2011

(crítica – 12") Farben – Xango (2011; Faitiche, Alemanha)

 
Da arte da metáfora: o que se quer dizer precisamente quando nos referimos a uma música como “colorida”? Geralmente que sua harmonia e roupagem comportam muitos elementos (como Zappa), ou ainda que ela evoca um forte sentimento imaginativo (como Coltrane). A música do produtor alemão Jan Jelinek, através de seu projeto batizado Farben, consegue obter um efeito semelhante, ainda que seu trabalho encerre a estranha característica de remeter a um retrato em branco e preto. Privilégio de quem aposta no 4/4 maciço do techno como meio para a experimentação.

Entre 1998 e 2004, Farben foi responsável por alguns 12” devotados à seara do techno e do minimal, com um forte sotaque lo-fi. As quatro faixas de Xango constituem seu segundo lançamento desde que retomou o projeto em 2010. Não há propriamente uma distância estética entre os primeiros trabalhos e Xango, mas é possível perceber que Jelinek se esforçou para trazer à tona uma concepção muito particular do que ele entende por techno. Suas referências são Moondog e Wolfgang Voigt, o que nos permite compreender Xango como um trabalho devotado à seara do techno, mas que não se orienta para a pista. Aqui, o alvo é a composição.

Evocativo e imaginativo, Xango traz quatro momentos distintos. “LesssseN” conta com uma textura prodigiosa formada por efeitos percussivos, semelhantes a um xilofone. De forma similar se orienta a faixa-título, “Xango”, talvez a mais emblemática do disco: ambiência de geladeira velha, percussão desprovida de graves, soando como estalos ritmados, e sons sintetizados inseridos paulatinamente. “Parada” é talvez a faixa mais techno do trabalho, e lembra os primeiros 12” de Jelinek, ao passo que “Eroten reiten auf eineN Delphin” remete ao synthpop de Soft Cell, ainda que com a mesma aridez das faixas anteriores.

Farben carrega consigo aquela percepção da música contemporânea que justapõe elementos técnicos e estéticos, com a intenção de obter uma paisagem sonora árida e estratificada. No fim das contas, Xango reporta a uma criativa erupção individual, que é, ao mesmo tempo, despersonalizada por redução, indicando que o artista regulou o volume de elementos para privilegiar a variedade e a estrutura das composições.

Bernardo Oliveira

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