segunda-feira, 19 de setembro de 2011

(crítica – disco) Cut Hands – Cut Hands (2011; Very Friendly/Susan Lawly; Reino Unido) | Red Horse – Red Horse (2011; Type, Reino Unido [EUA])

 
“O ‘barulho’ não é um fato objetivo. Ocorre em relação à percepção – tanto diretamente (sensorial) como de acordo com presunções subjetivas. Varia de acordo com a localização histórica, geográfica e cultural. Se o 'ruído' acontece ou não, isso dependerá também da fonte do que está sendo chamado de ruído…”

Com esta frase categórica – praticamente um postulado filosófico – o escritor e professor inglês Paul Hegarty, abre alas para seu estudo intitulado Noise/Music: A History. A percepção acerca de categorias como “música”, “barulho”, “som”, etc, está submetida a condições históricas, sejam técnicas, políticas, sociais ou filosóficas. Porém, da reação amparada sobre a “presunção subjetiva” – que de alguma forma remete aos hábitos do corpo social – derivam não somente as ideias, mas também certas atitudes e ações que exprimem o quão nocivo é o som relegado ao plano do “ruído”, especialmente para os indivíduos que compartilham os mesmos códigos estéticos.

Não é à toa que os amantes de músicas mais estridente, mesmo entre jazzistas e eruditos, se reconhecem pelos grupos e eventos relacionados a este tipo de música. Que dirá os que apreciam o noise, esta experiência-limite, este ambiente sonoro inóspito, que cheira a hospital, mas que também ostenta niilismo e descontrole entre seus atributos. E, no entanto, as notícias dão conta de uma leve, porém significativa guinada no universo de interesses dos artistas que operam com o noise.

Merzbient, o box com as experiências “ambient” de Merzbow, junto à parceria com Jim O’Rourke e Mats Gustafsson, já indicavam a necessidade deste que é o maior artífice do gênero, em criar outras dinâmicas de criação e interpretação a partir de uma noção específica do barulho. O que pode ser interpretado como um aliviada, ou um desinteresse por parte do autor em operar com sonoridades indigestas, indica na verdade que os deslocamentos da escuta contemporânea obedecem a fatores cada vez mais cambiantes, o que não só altera o grau de tolerância a certas sonoridades, como também estimula os artistas a procurarem outras possibilidades de explorar a própria noção de “barulho” – nesta trilha, inclui-se o Death Grips de Zach Hill, mas este é assunto para um outro post…

Lançado em maio deste ano, Cut Hands é o projeto homônimo de um dos mestres do noise, William Bennett. À frente do Whitehouse, Bennett aterrorizou a Londres do início dos anos 80 com apetrechos analógicos, temas bizarros e microfones saturados de distorção, servindo de antídoto à altura para a política conservadora do período Tatcher. O novo projeto, Cut Hands, retoma alguns dos argumentos musicais mais interessantes que marcaram a virada no trabalho do Whitehouse, dos anos 90 para a primeira década deste século: o envolvimento com a música africana e a batucada “vudu” do Haiti.

A influência é perceptível nos três últimos discos do grupo, Bird Seeds, Ascetiscists 2006 e, sobretudo, Racket, mas em Cut Hands, o elemento rítmico é como que iluminado, bem como as alusões diretas à língua e à cultura africana, através do título das faixas, geralmente nas línguas bantas swahili ou congo (“Nzambi ia Lufua”, ou “deus da morte”, em congo). Mesmo quando se trata de um estudo “ambient”, tal como se pode escutar nas modulações sinuosas de “Impassion” e “Bia Mintatu”, este elemento rítmico sobressai, ainda que infiltrado pelas habituais ranhuras sonoras. Aqui, o conceito de “noise” é trabalhado não no sentido da brutalidade gratuita que marca a aventura dos pioneiros, mas a partir de manipulações de volume e cadência, que permitem a aparição de outras sonoridades, como a sinfonia de esmeris em “Nzambi Ia Lufua” e as estruturas rítmicas responsáveis pelo temperamento acirrado de “Stabbers Conspiracy”.

Em paralelo, ainda que de uma forma mais convencional, correm os dados da dupla americana Red Horse, formada pelo baterista/percussionista Eli Keszler e o cientista (sério!) e multiinstrumentista Steve Pyne. No segundo lançamento homônimo, inteiramente baseado em improvisações multiinstrumentais, o duo optou por um formato mais conciso para as cinco faixas de seu novo elepê, o primeiro lançado pelo selo Type, casa de Machinefabriek e Yellow Swans. É noise mesmo, que investe na produção de uma cacofonia que desafia o ouvinte e que oscila ao sabor do improviso, das dinâmicas mais cruas, passando por momentos de improvável sutileza – sobretudo nas passagens em que a percussão sobressai, como na quinta parte. O trabalho do Red Horse promove o diálogo entre o delírio característico da “fire music” dos anos 60 com as fibrilações sonoras do shoegaze e do improviso abstrato de Derek Bailey e Tony Oxley.

Cut Hands e Red Horse, me parece, constituem dois exemplares de uma produção noise curiosamente mais preocupada em sublinhar nuances e diálogos, do que em promover impacto sonoro. Se o postulado de Hegarty procede, a própria noção de noise music é passível de alterações, na medida em que deve responder a questões que a própria época coloca. E não somente à “questões”, como se nos referíssemos exclusivamente à ideias, mas a sonoridades específicas, como foi com a música concreta, ou com as experiências de Russolo, Stockhausen, Merzbow: para além do raio de tolerância da escuta da época, buscaram explorar as possibilidades de um espaço sonoro descodificado, vazio. Talvez agora as questões sejam outras, e o escopo da “noise music” tenha necessariamente se alterado. Deste modo, a generalização do "ruído", e, eventualmente, sua vulgarização – perceptível por exemplo nos glitches e estridências que habitam o mainstream da música eletrônica – estaria convidando os artesãos do noise a uma atitude mais parcimoniosa?

Bernardo Oliveira

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