terça-feira, 20 de setembro de 2011

(crítica – disco) MarginalS – MarginalS (2011; s/g, Brasil)

Entre as presenças musicais mais interessantes de 2011, algumas delas se destacam não só pela expressão estética, como também pela produtividade – mais um indicativo dos benefícios inegáveis dos modos de produção digitais. Dentre os bons exemplos, estão o selo Not Not Fun, que trouxe à tona Maria Minerva, Peaking Lights, LA Vampires, entre outros nomes bacanas; Leyland Kirby, que lançou álbuns homônimos e como The Caretaker; os dez lançamentos de Jim O’Rourke e  Merzbow... Contem nesse grupo uma safra caudalosa de músicos paulistas, que em 2011 arregaçaram as mangas e encheram a rede com bons lançamentos.


Desta vez, trata-se da colaboração de Thiago França e Marcelo Cabral com o baterista Anthony Gordin, irmão do genial guitarrista Lanny Gordin. Com Kiko Dinucci e a cantora Juçara Marçal, França integra o Metá Metá e participa da banda de Romulo Fróes, enquanto Cabral, além de instrumentista requisitado, é produtor do último e polêmico álbum do rapper Criolo (junto com o também produtor Daniel Ganjaman). O nome do projeto é MarinalS, dedicado à improvisação solta e descompromissada: “a gente não tem produção nenhuma. Ligamos os instrumentos e começamos a tocar”, declarou Cabral em entrevista recente.

Composto por um prólogo, duas partes e duas intermissões, o primeiro trabalho do trio se orienta por uma sucessão de movimentos, criados conforme a intervenção dos músicos. A primeira parte pode ser considerada uma suíte composta em quatro movimentos, enquanto a segunda possui três. O prólogo anuncia o início do percurso, com solenidade fortemente influenciada pela fase “meditativa” de John Coltrane. Gordin não executa nenhum groove contínuo, enquanto Thiago França explora arpeggios coltranianos com forte teor emocional.

A primeira parte se inicia cautelosamente. Sax e contrabaixo tecem melodias, enquanto a bateria adentra aos poucos, trilhando o caminho até o auge, no fim do "segundo movimento". Então, se inicia um trecho inteiramente composto por efeitos obtidos do saxofone (ou de algum outro apetrecho eletrônico), que combina a estridência dos timbres eletrônicos com a pegada forte do contrabaixo acústico, retornando gradativamente para os improvisos mais densos. A chamada “intermissão”, em duas partes, retoma o aspecto climático do prólogo, mas com um acréscimo considerável de cores, tanto em virtude da flauta, quanto pelas pausas rítmicas com as quais o trio “organiza” o improviso.

A mudança de tessitura do sopro, ocasionada mais uma vez pela aplicação dos efeitos, se torna responsável por mudanças de temperamento ao longo da segunda parte. Bateria e contrabaixo pavimentam um caminho robusto para que o saxofone explore uma melodia bêbada e cambaleante, que seguirá até o fim do disco como leitimotiv.

Em seus pouco mais de quarenta minutos de duração, o primeiro disco do MarginalS é a mais descompromissada levação de som, que vai do jazz ao rock, do afrobeat ao funk, sem demarcações nem adesões muito nítidas. Porém, uma segunda audição revela que há mais do que interação e afinidade entre os músicos. Há também aquela ciência mediúnica do improviso, que equilibra as dinâmicas e os volumes, que propicia as “deixas”, a formação das texturas, e que fornece, enfim, todo o aparato para que a improvisação não se dissolva em argumentos vazios.

Bernardo Oliveira

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