terça-feira, 27 de setembro de 2011

(crítica - disco) Radiohead – The King of Limbs (2011; Ticker Tape/XL)

 
A despeito das referências a uma árvore milenar, que se encontra no caminho para o estúdio onde a banda gravou In Rainbows, e também a uma passagem do Alcorão, o título do oitavo álbum do Radiohead me soa como uma desbragada piada. O processo de autoisolamento da banda, pelo menos em relação ao mercado industrial, casa perfeitamente com a ideia de uma realeza heróica, e mesmo com a possibilidade de que haja heroísmo nos dias de hoje. Ok, sem excessos: eles já eram uma banda consagrada, quando compraram briga com a gravadora e dispuseram In Rainbows ao preço do ouvinte. Mas o argumento demolidor é: quem mais se habilita? Jay-Z? Rihanna? Silêncio sepulcral…

É inegável que em pouco mais de 37 minutos, o Radiohead mais uma vez conseguiu confundir seus fãs e admiradores. O caminho escolhido pela banda para promover esta confusão, é perceptível desde a primeira audição, e remete apenas alusivamente às experiências pregressas. Pode-se notar que eles retomam um argumento destilado em Hail to The Thief e In Rainbows: a mistura de bases acústicas e eletrônicas para a composição não só dos ritmos, mas também para conferir um aspecto rítmico às canções. Neste sentido percebe-se em The King of Limbs uma preocupação em centrar o processo de composição sobre a percussão, e conduzir as canções nesse sentido.

The King of Limbs pode até ser considerado um trabalho de transição, no sentido de que a banda se prepara para posicionar sua dinâmica criativa em uma esfera inacessível para as exigências do grande mercado. Mas isso não significa que a pesquisa por novas sonoridades indique a ausência de um percurso e uma meta clara e distinta. Lapidando as formas melódicas em diálogo constante com as formas percussivas, mas também reforçando o aspecto rítmico até mesmo das faixas mais lentas: é assim que vejo o processo de composição em The King of Limbs, um disco que tem força suficiente para indicar os possíveis caminhos de uma das bandas mais importantes dos últimos 30 anos.

Tal inclinação para trabalhar os ritmos e as percussões opera em dois sentidos no álbum. Em algumas faixas, em favor de uma sonoridade mais suingada e acessível, como em “Little By Little” – um “baiãozinho” com direito a toque de triângulo –, e “Lotus Flower”, a música de trabalho, alvo de um cortejo de baboseiras por parte dos que não entenderam que aquela pantomina no clipe tem justamente a função de sublinhar o aspecto difuso do ritmo. Em outras, para confundir o ouvinte com justaposições inusitadas, como na incrível “Bloom”, composta em 3/4, que conta com o sampler de “Territory” do Sepultura e remete às polirritmias de Captain Beefheart; ou em “Feral”, uma das mais estranhas do disco, na qual até mesmo a voz é utilizada como pontuação para o andamento frenético.

O aspecto comercial, no entanto, não sobressai sem que se note também o aspecto anticomercial. O Radiohead permanece na estrada, procurando, pesquisando, testando, novas possibilidades para sua música, e nem toda a besteira que a internet é capaz de produzir a respeito de qualquer assunto – inclusive sobre “internet” – pode obnubilar as tendências predominantes no trabalho do grupo. The King of Limbs – que, de fato, eles são ou pretendem ser – traz um outro Radiohead, que acima de tudo, ilumina e remete ao percurso surpreendente que leva de Ok Computer até In Rainbows. Cabe ao ouvinte preparar-se para fruir este Radiohead que está aí, presente, experiência sem igual na música de hoje.

Bernardo Oliveira

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