terça-feira, 13 de setembro de 2011

(crítica – disco) Reinhold Friedl – Inside Piano (2011; Zeitkratzer Records/ Hronir/Metamkine, Alemanha)

 
Em 1997, o alemão Reinhold Friedl fundou o Zeitkratzer, ensemble de repertório contemporâneo, selo e associação artística sem fins lucrativos. Desde então, o coletivo vem mesclando técnicas de composição eruditas e populares, enfatizando a experimentação com sons que não se inscrevem na tábua de valores da música corrente. Para isso, trabalharam com ícones da música erudita (Stockhausen), da cultura pop (Lou Reed) e do noise mais intrincado (William Bennett, Keiji Haino); se dedicaram a improvisações intermináveis, concederam suas composições para o remix de Underworld e Dub Me Crazy, elaboraram a programação visual, entre outras práticas outrora inaceitáveis na seara da música erudita moderna.

Por seu turno, Friedl já gravou alguns álbuns como intérprete, e suas opções também não deixam dúvida. Além dos discos de improvisação, com parceiros como Bernhard Günter, Michael Vorfeld e Elliott Sharp, e um tributo à obra do compositor greco-romeno Iannis Xenakis, com a participação do Zeitkratzer, Friedl lança Inside Piano, por incrível que pareça, seu primeiro trabalho realmente solo. O músico alemão desenvolveu uma abordagem própria do “Piano preparado”, técnica celebrizada pelo compositor americano John Cage, que consiste em utilizar diversos objetos (vidro, pedra, molas, parafusos, fios, etc) sobre as cordas do piano. Porém, sua pesquisa resultou em uma gama sonora peculiar, garantindo o interesse durante mais de duas horas de duração.

Em doze faixas intituladas em francês, distribuídas por um CD duplo e um LP de vinil, Friedl empreendeu no mínimo duas façanhas. Primeiro, economizemos o eufemismo de classificar as composições de Inside Piano como um flerte com o noise. Friedl substituiu o pontilhismo percussivo e silencioso das sonatas de John Cage, por grossas camadas de timbres feéricos, a manifestar um grau cortante de abstração. Cada faixa do álbum apresenta uma incursão a este território musical tão fascinante quanto inóspito, constituindo uma prolongada declaração de amor ao trabalho de parceiros e mestres do gênero, como Merzbow e Bennett. Utilizando-se do piano preparado, Friedl erigiu uma paisagem sonora marcada por sopros, espirros, faíscas, rangidos e uma sensação constante de que pulsa toda uma orquestra bizarra por trás da aparência de recital – registrada na capa com o humor habitual do coletivo.

Friedl absteve-se de investir na construção das composições, preferindo deter-se na exploração de suas invenções técnicas, e alternando cacofonia fulminante e tramas sonoras mais delicadas. Por este motivo, a audição se torna às vezes repetitiva, sensação experimentada, por exemplo, no deslumbrante O, último disco do Oval de Markus Popp. Mas esta sensação corresponde à repetição dos timbres ásperos e agudos elaborados por Friedl, que tal como a “kora eletrônica” de Popp, constituem o elemento central de Inside Piano.

O resultado, no entanto, permite entrever as nuvens harmônicas dos simbolistas e os rompantes radicais de Xenakis. É obra de vanguarda, mas que não se prende nem mesmo a este rótulo. De certo modo, uma composição com as variedade de climas de “L'horizon des Ballons”, ou a tensão controlada de “La Grimace du Soleil”, por mais que soem segundo a brutalidade noise, comportam alterações de andamento e humor capazes de evocar a composição, mas que são produzidas pela excelência da performance e a sensibilidade atenta do autor. Inside Piano é o resultado do trabalho de um artista que opera entre a técnica e a espontaneidade, o ruído e os sons musicais, a composição e o improviso, cujo pensamento musical, porém, está muito além dessas categorias.

Bernardo Oliveira


Ouça trechos de Inside Piano aqui.

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