quarta-feira, 14 de setembro de 2011

(crítica – disco) Vários Artistas - Contemporary Afro Beat: A Fine Selection Of Some Of Today's Most Exciting Afro Beat Bands From All Over The World (2011; Tramp Records, Alemanha)


Há de se convir que o afrobeat, gênero ditado pelo compasso afrodiaspórico das lutas de emancipação no contexto dos 1960/70, vem ganhando, ultimamente, um muito tardio reconhecimento mundial. Fato explicável pelo êxito de público e crítica de FELA!, musical biográfico com o qual o padrão Broadway de espetáculos se incumbiu de apresentar ao senso comum a legenda nigeriana denominada Fela Anikulapo Kuti. De uns anos para cá, a evocação deste nome já não mais provoca ausência de culpa em quem demonstre ignorá-lo. E, curiosamente, por mais que não se vislumbre uma massificação anacrônica da sua música – o que parece mesmo improvável –, o artista africano mais afamado do globo está realmente na ordem do dia, apesar do seu ingresso no Eterno datar de 1997. (Inclusive, seu prestígio junto aos círculos mais potencialmente patrulheiros segue incólume.) De Fela, é-se cada vez mais informado que: a) se julgava um messias panafricano; b) fundou uma “sociedade alternativa” incrustada no coração de Lagos (a Kalakuta Republic, declarada território livre de uma Nigéria então – e quase sempre – sob uma ditadura militar) e uma casa de shows cujo palco era um espécie de palanque/púlpito para a sua pregação político-religiosa (o Shrine); c) esposou de uma só tacada 27 mulheres – suas dançarinas e backing vocals – num tradicional ritual iorubá; d) legou ao mundo dois continuadores dos seus sangue e balanço: Femi (o varão) e Seun (o caçula) – este último, o legítimo herdeiro da Egypt 80, sua derradeira banda (atualmente, em parte reformulada); e) e, finalmente, foi vitimado pela AIDS em 1997, após anos de uma cientificamente inexplicável resistência ao vírus – o que só lhe engrandece a aura mí(s)tica. De todas essas informações e comentários que se vêm acumulando sobre o mestre de cerimônias do Shrine, uma lamentável curiosidade emerge: a quase total ausência de crédito à outra pedra fundamental do afrobeat, o baterista Tony Allen, mestre inventor da sua batida singular. A comprovar a atualidade do seu beat, Allen segue na ativa com sua carreira solo, em projetos paralelos e como convidado em gravações com novas bandas.

O resgate do afrobeat, catalisado pela repercussão do espetáculo musical, tem feito a música e a biografia de Fela Kuti ocupar um espaço que nunca antes lhe fora reservado nos meios de comunicação. O gênero – uma fusão de jazz, soulfunky e a versão nigeriana do highlife (ritmo original de Gana) –, nem mesmo no auge de sua produção e veiculação, foi tão comentado. Mas, teria havido mesmo um auge do afrobeat? O fato é que foi um fenômeno de relativa duração, ao longo dos anos 1970 e restringido, sobretudo, ao mercado africano. (Fela é que transcenderia a década e se manteria fiel a sua própria obra, até o fim da vida.) Inúmeros artistas e bandas, principalmente os da costa oeste do continente-mãe, passaram a incorporar aos seus sons a mesma “impureza” da mescla da “ancestral” percussividade iorubá com os ritmos considerados “cosmopolitas”, “urbanos” e “modernos” da cultura musical negra dos Estados Unidos. (Talvez se possa dizer que muito do seu êxito esteja na receptividade quase que universal da batida funk.) Exceções fora d’África foram poucas, como, por exemplo, no início dos 1970, a parceria entre Fela Kuti e o então recém ex-baterista do Cream, Ginger Baker, que rendeu a gravação de dois álbuns, Live! e Stratavarious, e o antifilme etnográfico em média-metragem Ginger Baker in Africa, a rigor, um misto de documentário musical e freak road movie. O entusiasmo de Baker foi tamanho com a cena musical nigeriana (Segun Bucknor, Joni Haastrup, Lijadu Sisters, The Sweet Things etc) que chegou a construir um estúdio em Lagos. Também digna de nota é a parceria de Fela com Roy Ayers no disco Music of Many Colors, de 1980.

À exceção do caso do seu filho, Seun, a quem, quando contava 14 anos, passou a responsabilidade, no leito de morte, de prosseguir com a Egypt 80, não podemos precisar o quanto Fela Kuti era cioso quanto ao seu legado. Bem antes disso, mais precisamente, em 1973, o percussionista Pax Nicholas, do Africa 70, banda que o acompanhou ao longo dos anos 1970, gravou clandestinamente o álbum Na Teef Know de Road of Teef, imediatamente retirado de circulação por toda a Nigéria quando uma cópia sua caiu inadvertidamente nas mãos de Fela. Lekan “Baba Ani” Animashaun, seu fiel escudeiro, único remanescente do Africa 70 após sua dissolução, e atualmente o maestro do Egypt 80, teve mais sorte: gravou, sem entrar em conflito com seu chefe, Low Profile, em 1978. E Tony Allen pôde iniciar sua carreira solo sem pedir autorização a Fela, graças a sua condição de único músico residente da Kalakuta que gozava de prestígio junto ao seu soberano chefe “tribal”. Mas, fora essas iniciativas sob seu relativo controle, nenhum minucioso plano estratégico de divulgação do afrobeat foi traçado pelo seu mais consagrado baluarte, íntegro guardião da sua mensagem política e incapaz de quaisquer concessões estéticas às pressões da indústria musical. Muito do não reconhecimento em vida da obra de Fela se deve ao fato de não querer moldá-la conforme o padrão hit maker imposto pelas gravadoras e rádios, tal como é praticado na vasta totalidade da indústria musical. E, claro, às mais distintas formas de censura que sofria em seu próprio país – sendo a prisão com direito à tortura uma das mais recorrentes.

Neste ano, saiu, pela alemã Tramp Records, dirigida pelo DJ Tobias Kirmayer, Contemporary Afro Beat: A Fine Selection Of Some Of Today's Most Exciting Afro Beat Bands From All Over The World. De uma breve audição desta coletânea (que é a terceira de uma série – antes dela vieram Contemporary Funk (2009) e Contemporary Jazz (2010), pode-se concluir: as lições básicas do síndico da Kalakuta Republic foram, sem dúvida, assimiladas por quase todas as orquestras e bandas que integram o álbum – muito provavelmente, suas recém conhecedoras. Que a diversidade de propostas, que inclui o inevitável permeio com outros ritmos, faça parte desse apanhado de músicas, não é de surpreender nem de se recriminar – lembremos que, também, por natureza, o afrobeat é híbrido. É algo que confirma, apenas, o pertencimento desta geração à contemporaneidade cultural, em geral. Portanto, esboçar uma crítica da adoção desse sincretismo rítmico seria atentar contra o que ela apresenta de mais característico, estrutural, até. Mas os cacoetes do gênero comparecem nessa seleção de repertório de forma um tanto pontual: a demarcação entre o que é, ou soa, como afrobeat, e aquilo que são as referências da cultura musical da diáspora negra, é de uma notável evidência em praticamente todas as faixas. Não se exige, ou se espera, aqui, uma fidelidade integral aos pressupostos do idioma musical fundado por Fela Kuti. A versão atualizada do seu legado traz, fatalmente, o testemunho da permanência ou, mesmo, da suposta atemporalidade de um ritmo não devidamente valorizado e/ou consumido em seu tempo, numa escala maior. Ritmo este que sofreu uma evolução na própria carreira do seu principal criador (como afirmamos antes, seu outro artesão sonoro atende por Tony Oladipo Allen). O afrobeat teve um início tímido, particularmente mais audível no singular peso percussivo e vocal do highlife de tintas jazzísticas dos Koola Lobitos (segundo Fela, seu marco zero é “My Lady’s Frustration”), e, então, após curto espaço de tempo, tomou a forma que o consagraria, para, afinal, passar a assumir uma cadência mais lenta, sincopada, reflexo das inclinações místicas que viriam a acompanhar sua retórica panafricanista anticolonial na virada dos 1970 para os 80. (“Government Chicken Boy”, por exemplo, é uma orquestração cuja estrutura é, em algum grau, afim a Tom Zé, Arrigo Barnabé ou, até, a alguns momentos de Tom Waits, o que parece um indicador eloquente dos rumos que o seu estilo musical tomaria.)

Contemporary Afro Beat é aberto pela banda francesa Fanga (a grande maioria, no álbum, provém dos Estados Unidos), com a acelerada “Crache La Douler”, numa versão diferente daquela do seu último trabalho, Natural Juice, de 2007. Nesta, ouvimos uma introdução de teclado e, aparentemente, nela não consta a participação do mestre Tony Allen na bateria, como no registro de quatro anos atrás. “Afrobeat Principles 1” da Odu Afrobeat Orchestra, tem instrumental que lembra o finado Daktaris, renascido sob o nome de Antibalas Afrobeat Orchestra – a qual é a banda de apoio de FELA! na Broadway, e que está imperdoavelmente ausente da coletânea. A Kokolo Afrobeat Orchestra poderia ter em Contemporary Afro Beat outro cartão de apresentação que não “Donkey”, mas isso não chega a comprometer. “P.D.P.”, a faixa selecionada da Akoya Afrobeat Ensemble, uma das melhores bandas da atual geração, sofre do mesmo mal – azar dos não iniciados. A melhor do disco é “Theme for Isaac Kirya”, do The Boogoos, banda não exatamente de afrobeat – como também não o são a Budos Band ou a Soul Jazz Orchestra, suas congêneres, e, também, sentidamente ausentes no álbum –, mas que, nesta faixa, conta com uma levada funky de guitarra no rigor da cartilha kutiana. A baloiçante “Jing Bong Wah”, do grupo Albino, é também muito recomendável. A fanfarra “Radio Kabul”, da alemã Express Brass Band, apesar de excelente, é, aqui, um corpo absolutamente estranho – sua presença seria muito mais pertinente numa compilação de música balcânica contemporânea. Aphrodesia, com membros femininos no frontline – fato inverificável na escalação das outras bandas e orquestras selecionadas –, apresenta “Special Girl” com ênfase na percussão, que é mesmo a qualidade maior do grupo.

Dizer que Contemporary Afro Beat faz jus ao nome por reunir uma amostra ilustrativa do que se produz, atualmente, no gênero, é certo (apesar de “Radio Kabul”). Mas, quanto a dizer que o faz com larga propriedade, é melhor responder que não.

Lucio Branco

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