terça-feira, 27 de setembro de 2011

(ensaio) Sganzerla sobre Hendrix

Foto promocional de Abismu, com Jorge Loredo encarnando uma versão intergaláctica do seu clássico personagem, Zé Bonitinho. Clique de Ivan Cardoso.



Eis, aqui, o esboço de uma breve fuga da pauta musical africana. (Mas seria mesmo uma fuga? É de Jimi Hendrix que tratamos... Sob uma perspectiva panafricana, pode-se dizer que a chave é a mesma...)
A “Mostra deCinema Rock’n’Roll”, que acontecerá de 27 de setembro a 6 de outubro, no CentroCultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, é o mote para a publicação, aqui, de um texto de Rogério Sganzerla (1946-2004), cineasta cujas trilhas têm um papel invulgar. Sem contar que, não raro, a própria música e seus criadores são seu tema: Jimi Hendrix e Noel Rosa, por exemplo, são personagens centrais da sua obra. 
A edição de 9 de novembro de 1979 da Folha de São Paulo publicou um artigo de Sganzerla no qual buscava discorrer sobre seu então último filme, Abismu, após um período de inatividade na ficção em longa-metragem devido à política cinematográfica que se cometia no período. No geral, graças a EMBRAFILME, idealizada pela política cultural de um regime ditatorial e capitaneada pela influência de certa cooptação cinema-novista – o sistema de produção da época era refratário à experimentação formal, e, do ponto de vista temático – sob o permanente risco de interdição –, muito cauteloso. À margem dos meios e recursos oficiais, o diretor de O Bandido da Luz Vermelha se compensou (e nos compensou) refletindo criticamente nos jornais sobre o impasse criativo da Sétima Arte no Brasil, e o seu lugar no quadro maior da cultura mundial. 
Cartaz de Abismu. Reparar no destaque para o autor da trilha sonora.

Em Abismu, Rogério Sganzerla retomava Jimi Hendrix, a quem considerava “o maior pensador das Américas” (já havia registrado – e perdido a cópia do – seu show no Festival da Ilha de Wight, em 1970), além de, paralelamente, dirigir o ensaio músico-visual de curta-metragem Mudança de Hendrix (hoje, deteriorado). No artigo, Sganzerla, além de apresentar em linhas gerais o Canhoto de Seattle como protagonista do seu filme, pondera sobre as dimensões extra-musicais do seu legado. Aqui, as primeiras linhas do texto:
“Um trailer de minha futura obra sob a égide e proteção do gênio número um da América – se ainda não sabem, devem sabê-lo já – ele é o Xerife (Marshall), e se chama, feliz ou infelizmente, James Marshall Hendrix, ou seja Jimi Hendrix, ou seja, o mentor de toda minha obra a partir do rolo final, já em 1968, de O Bandido da Luz Vermelha.
“Tese do filme: o Egito é neto da América (e não o contrário, o que já é considerado pouco ortodoxo pelos arqueólogos acadêmicos que não querem saber de aliar a imaginação à ciência). Se não entendeu, problema seu, pois Abismu se passa na Atlântida e é só.
“Quem sou eu? Não sou alguém, sou ninguém, isto é, sou eu e Deus mais uma partícula do pensamento revolucionário que não se conforma com a simples ilustração das aparências (enganosas ou não). Não sei se você está me entendendo, mas Jimi Hendrix é um pensador e a ele dedico todos os meus travellings, panorâmicas e planos fixos. Com ele descobri a necessidade de tudo dizer de uma só vez não importa com quê.”
Esboço original de cartaz para Abismu: Jimi Hendrix no traço de Rogério Sganzerla, seu "pró-diretor". Ao fundo e no alto, a mítica e enigmática Pedra da Gávea, monolito de gnaisse que, na Antiguidade, deu tesmunho da presença fenícia em solo brasileiro (tese defendida pelo filme).

Este fragmento transcrito sobre Abismu é uma espécie de introdução do mítico perfil biográfico e artístico de Hendrix que Sganzerla viria a redigir mais detalhadamente em 11 de agosto de 1980, também pela Folha de São Paulo, e que publicamos aqui, na íntegra. Trata-se de uma dessas páginas cuja aura granítica de Referência põe à prova a ascendência do Tempo. Por suposto: que tenha sido escrita por um cineasta, é de um espanto para além de toda e qualquer iniciação em Música. Portanto, meditemos.

Lucio Branco

OBS: Abismu passa nos dias 29 de setembro (5ª feira, às 19h) e 6 de outubro (também uma 5ª feira, e também às 19h). O CCBB fica na R. Primeiro de Março, 66, Centro, RJ.

   
***
 
De 1965 a 1970, um gênio reinou sobre a Terra – Jimi Hendrix (27/11/45 – 18/9/70); mais uma vez, a Terra não soube coroar seu rei. E se assim não o foi mais porque por dentro de altas estruturas astrais (isto é, físicas, e seguindo do princípio único, a lei de encarnação), ele, como rei, sabia que iria partir em breve. "He’s not gone, is just dead", prediz Hendrix em 1965, numa gravação com Curtis Knight, de uma canção intitulada justamente "Ballad of Jimi", onde fala, com diferença de um dia, a exata data – mês e ano – da passagem deste para outro(s) mundo(s), onde, segundo ele, estará nos esperando para a próxima revoada de trovões que transformará a face da Terra, mas, até lá, ele voltará ("I’ll return" – repete em "Highway Chile", presciente de sua vida transitória e abissalmente genial, em péssimo estado como Noel que, por sua vez, desabafa: "... tenho passado tão mal/a minha cama é uma folha de jornal..."). Gênios ceifados na flor da idade não fazem senão rejeitar: "I don’t live today/maybe tomorrow". "Até amanhã, se Deus quiser". "I will return". Rejeição deste mundo, mente e sociedade do medo, não fazem senão recusar tudo que deve ser recusado – em nome do novo homem, nova sociedade e tudo que é de Deus.
Desvendo o véu de Ísis: tenho para mim que, antes de mais nada, é necessário pensar em Hendrix como uma divindade. Não uma "divindade do som", se assim posso exprimir, mas divindade do homem. Total mente gênio total – pois ele próprio é uma divindade que se alimenta de sua própria aura; um gênio encarnado suntuosamente num negro-índio; gênio da América e americano por dentro número um.
Hendrix já é século 21 e 23 – além de 20. Três séculos atravessam e informam com sua maneira típica de tocar, com a mão esquerda, cordas (12 na stringuitar) na posição invertida, por exemplo.
Suas letras devem ser ouvidas como um ideograma; com grande elegância e concisão de forma – referindo-se ao essencial – se fala do poder (e formas subalternas de usar o poder – dinheiro medo moeda repressão chicletes e metralhadora, por aí afora): "Sweet talks in vain".
Hendrix com Buddy Miles.

Já a música é uma explosão de luz (e cor; como a língua-raiz sânscrito e o tupi – or not to be); onde o som representa um valor tonal e é escrito sob uma pauta musical, novamente Hendrix reina sobre nossa mente. Não divaga sobre anedota ou deslumbramento menor: ele diz o essencial, isto é, o supérfluo: vinho, o uno, poder, tudo é possível. Fala sobre "quetzal", o poder de transformar tudo e a mente à medida positiva de desmedido negar. Sobretudo diz tudo sobre tudo com pouco ou quase nada: três homens – guitarra, baixo, bateria – soam como multidão em músicas escritas, cantadas e frequentemente mixadas por ele em seu estúdio "Electric Ladyland". Mal admitido, claro, pelos que tolhem o pensamento com medo, quem necessita de tal artigo (seu empresário fez questão de "apagá-lo" e só relançá-lo em sucessivas gravações dispersas, voluntariamente mal escolhidas entre as duas mil horas gravadas em dezesseis canais...).
Tocando "Red House" ou "Voodoo Chile", simplesmente varre do planeta toda perda de tempo, levando-nos até altura inalcançada por qualquer outro ingênuo ou gênio terrestre. Para todos e para ninguém: mente livre, homem superior, relação com divindade – eis o abc hendrixiano onde como em qualquer revolução tudo começa e termina na mente livre (sem esforço partido medo ou classe).
Jimi era um rei e ele sabia. O rei nasceu em Seattle, filho de índia e negro. Gostava de passar as férias em companhia da mãe alcoólatra (perdeu-se aos dez anos) em tendas de antepassados "cherokees" na reserva de Vancouver, Canadá. Segundo o pai, um jardineiro austero, "Jimi era um verdadeiro sagitário, obcecado com a justiça, com a ideia de fazer as coisas certo. Uma personalidade muito forte, difícil de curvar e individualista. Vivia interessado em coisas não comuns nos garotos; uma delas era a música. Em sua casa não faltavam discos de Robert Johnson, Muddy Waters e B.B. King; todo domingo, os amigos paternos após o serviço religioso iam tocar "blues" e beber cerveja. Aos quatro anos irrompeu sala adentro soprando uma gaita "como um maluco, mas dentro do ritmo", aos sete recebeu de uma tia um violino ("e eu cheguei a tocar mesmo, sempre curti os instrumentos de corda, foi aí que descobri que era canhoto para tocar também”).
(“Eu só dedilhava a vassoura com a mão esquerda! – tocava-a com a mão esquerda".) Ganhou um violão e uma guitarra usada ("ele ouvia um disco uma vez, e minutos depois, já tocava igualzinho"). Alistou-se no Exército como paraquedista. Desmobilizado vinte e seis saltos depois, com fraturas na costela e tornozelo – rolou dez anos pelas estradas no circuito de música negra americana, aprendendo ou ensinando (tocou com Little Richard, B.B. King, Sam Cooke, Solomon Burke e o grupo de "twist" Joey Dee e The Starlighters e o "Isley Brothers" até chegar só e desconhecido em Nova York, em 1965).
Mudou nome para Jimmy James com um grupo próprio, o "Blue Flames" – fracasso completo –, teve que empenhar e vender guitarra para continuar num hotel miserável no Greenwich Village. Aceitou gravar com Curtis Knight e salvou sua situação financeira. "Eu acho que nunca cheguei a conhecer Jimi, declara Curtis Knight. "Acho que nunca ninguém o conheceu. Ele não se deu a conhecer a ninguém. Era fechado, se guardava como quem guarda um segredo. Mas nós, nesses tempos em Nova York, nós conversávamos muito.”
Jimi na banda de Curtis Knight, o Squires.

“Jimi estava sempre intrigado, preocupado com coisas como a origem da vida, o problema da morte. Nunca curtiu uma de orgulho racial ou preconceito. Estava mais preocupado com a noção de humanidade e conceito de fraternidade". Lia muito, nunca soube o quê. Não conseguia acompanhar suas conversas. Certa vez me disse acreditar que os seres humanos devem passar por várias encarnações em nove diferentes planetas, cada um mais evoluído que o outro, até chegar à eternidade, à perfeição (Nirvana? Em sânscrito, significa extinção). Ele dizia também que esse mundo em que vivemos é apenas um imagem distorcida de um outro mundo, espiritual e perfeito".
Em 1969, apara o cabelo, reduz a quantidade de anéis e colares. Com a palavra, o rei: "Isso já foi importante para mim, agora não é mais.”
“O que é importante? Minha música e minha mente é o que conta. Quanto a elas, me sinto ilimitado. Tentei sempre fazer minha música honestamente e se as pessoas não me entendem, é porque não ouviram direito. Até "Electric Ladyland" eu queria basicamente pintar paisagens do céu e da terra com a guitarra para as pessoas se soltarem dentro delas. Sofri muitas mudanças, descobri muitas coisas que ainda não contei. Gostaria agora de pintar a realidade de uma forma simbólica capaz de levar as pessoas a pensar. Eu sou tantas raças... como poderia tocar uma música... como poderia trair uma dessas raças, se eu sou todas elas ao mesmo tempo? Tenho pensado muito sobre o futuro, sobre essa era em declínio. Mas não quero acabar, quero continuar, vá para onde for o futuro.”
“Talvez escrevendo mais para os outros, fazendo arranjos. Talvez com uma orquestra... não uma dúzia de harpas e violinos, mas uma banda de verdade para que eu possa reger músicos competentes... e talvez algo visual como filme ou slides que alarguem aquilo que a música quer dizer. Assim tudo poderia ser novo, excitante. Acho que é isso que virá. Música é tão importante agora. Política já teve sua importância e é a música e as artes que vão mudar o mundo. Aprecio Strauss e Wagner – eles são muito bons. Acho que servirão de base dessa minha nova música.”
“Mas acima de tudo, quero "blues" e um pouco de western, tudo misturado. Estamos tentando fazer um terceiro mundo acontecer, mas ainda há tanta coisa para aprender, tanta coisa nova para fazer. Como o mundo, a música está ficando pesada demais... quando, como o mundo, a música fica assim pesada eu simplesmente quero me chamar hélio, o gás mais leve que o homem conhece".
Foi sua última entrevista. Como uma fera do astral, parece ter vindo ao mundo para sacudir-nos de nosso terrestre e passageiro sono – grandeza, consciência e humildade –; saber-se bom é, para o bom demais, um limite ou uma tentação – como ele, prematuramente falecido ou desfalecido.
Não existe maldição, mas há sortilégios, sinas e sinais.

Rogério Sganzerla (11 de agosto de 1980, Folha de São Paulo) 

 

Nenhum comentário: