sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Minicrônicas Discográficas



O ritmo das audições e o da escrita não são os mesmos. A audiofilia, do ponto de vista da organização temática e dos formatos, se pulverizou. Alguns discos convidam à audição contínua e contumaz: Let England Shake, Room(s), Passed Me By, Cine Privê. Outros, podem ser recortados pela sensibilidade do momento, pelos interesses localizados e pontuais: Black Sun, Demolished Thoughts, Goblin. Sem contar Eps, singles, edições especiais, cassetes, vinis, álbuns digitais, e um sem número de possibilidades. E 2011 corre como uma enxurrada difícil de dar conta. Por isso, volta e meia, trarei aqui uma espécie de apanhado das minhas audições, concentrando-me basicamente nos trabalhos mais recentes e relevantes.

Nicolas Jaar (como Nico) – Nico's Bluewave Edits
Delícia de EP, com três “picardias” deste talento improvável que é Nicolas Jaar. Desta vez ele reduziu o pitch da voz de Missy Elliott e reinventou o clássico “Work It” (os tambores, os tambores!); conferiu outra entonação para “Hey Boy”, da dupla de adoráveis lambisgóias The Blow; e, por fim, trouxe o soul pop de Mike & The Censations para o século XXI, com “Theres Nothing I Can Do About It”. Se valendo de procedimentos extremamente simples e bem sacados – como reduzir pitch, baixar volumes e sobrepôr batidas – Nicolas Jaar demonstra mais uma vez o porquê do seu êxito: uma sensibilidade extraordinária para o pop invulgar.

Alva Noto – Univrs (2011; Raster-Noton, Alemanha)
Fazendo eco com os dois volumes de Xerrox (2007 e 2009) e Unitxt (2008) (ouça trechos aqui), Univrs traz quatorze faixas produzidas com a habitual meticulosidade, através de “manipulação em tempo real de imagens-testes geradas por software através de sinais de áudio”. Univrs segue o pressuposto de muitos trabalhos de Carstein Nicolai, particularmente como Alva Noto: a exploração e organização de sonoridades ocasionadas pela conversão de dados não-sonoros em sons. No mínimo intrigante.

Dj Diamond – Flight Muzik (2011; Planet Mu, Reino Unido [EUA])
Chrissy Murderbot – Women’s Studies (2011; Planet Mu, Reino Unido [EUA])
VA – Ectsasy Boom (2011; s/g, Reino Unido [EUA])
E o juke vem se misturando bem antes do que se esperava. Quero dizer: para além da brutalidade heróica de DJ Nate, um grupo de artistas vem inserindo as estratégias rítmicas do gênero em outras searas musicais. Diamond e Murderbot assinaram com a Planet Mu, o selo inglês que vem bancando a onda do juke. O primeiro é mais radical, operando sobre o ritmo por redução de elementos: menos grave, e maior exploração da utilização percussiva das repetições. Murderbot aposta na aceleração de um trecho de fusion jazz, e no clipe divertido de “Bussin Down”, conferindo um toque de mainstream a um gênero que desafia os nervos do ouvinte. Completando a sacola, Ecstasy Boom, um epzinho digital que vem de brinde para quem adquire a versão física do genial Room(s), de Machinedrum (resenhado aqui). O EP traz versões juke de clássicos do jungle hardcore, com destaque para o “juke edit” de “Jungle Squirrel”, com Secret Squirrel.

Roman Flügel – Fatty Folders (2011; Dial, Alemanha)
Já não soa como novidade a apropriação experimental do techno e do house, mas ainda assim alguns artistas conseguem criar faixas surpreendentes a partir do andamento contínuo que caracteriza o gênero. Recentemente, o produtor alemão Roman Flügel lançou um EP com Villalobos, como RiRom. Mas em Fatty Folders condensa aspectos mais interessantes de seu trabalho, como o ambiente festivo de “The Improviser” ou a harmonia evasiva de “How To Spread Lies”.

 

Omar Souleyman – Haflat Gharbia: The Western Concerts (2011; Sublime Frequencies, EUA [Síria])

Recentemente, um DJ americano foi acusado de antiamericanismo por tocar as músicas do cantor sírio Omar Souleyman. Para além das questões políticas que este fato envolve, uma coisa pode explicar a atitude absurda do reclamão: a música, propriamente dita. Mistura acachapante de dabke e choubi iraquiano, com sonoridades eletrônicas e canto árabe “mawal”, a música de Souleyman se caracteriza pela profusão de arabescos melódicos com timbre de teclado velho, e uma percussão digital desvairada. Haflat Gharbia documenta as turnês que Souleyman fez nos últimos dois anos, por lugares como Austrália, Europa e EUA. 

Chinese Cookie Poets – Dragonfly Catchers and Yellow Dog (2011; s/g, Brasil)
Lançado em junho desse ano, Dragonfly Catchers and Yellow Dog é o segundo trabalho da banda de rock instrumental Chinese Cookie Poets. O grupo editou um EP homônimo em 2010, esbanjando técnica, virtuosismo e uma certa ironia, em seis faixas instrumentais difíceis de definir. Especializados em deixar os ouvintes atordoados, não economizaram nos climas, convenções e longos improvisos, o que resultou em quatro faixas poderosas, retiradas de uma gravação ao vivo. Entre elas, uma versão espetacular de “Vuelta Abajo”, composição do saudoso baterista americano Tony Williams.

The Field – Looping State Of Mind (2011; Kompakt, Alemanha [Suécia])
Que importa definir o techno house do The Field? Pelo menos um elemento em especial ele introduziu no universo do gênero. E sem seguidores. Me refiro à acentuação meio desigual, meio descarrilhada, que, aos poucos, ele vai introduzindo à sequência impiedosa de compassos que se repetem. Looping State of Mind traz essa característica, desta vez de forma mais fluida, menos presa ao jugo da marcação forte do 4/4. Destaque para a estranhíssima faixa de encerramento (“Sweet Slow Baby”) e “Burned Out”, com sotaque DFA.

Bernardo Oliveira

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