segunda-feira, 10 de outubro de 2011

(crítica - disco) Akita/Gustafsson/O’Rourke – One Bird Two Bird (2010; eMego, Áustria [Japão])


Existiriam limites para a exploração sonora e, para além dela, o próprio gosto por explorar esses limites? A aparente contradição pode fornecer um parâmetro razoável para definir a associação que assina este álbum. Masami Akita, mais conhecido como Merzbow, lida direta e intensamente com a borda: como um operário dos ruídos que se esmera em milhares de artífícios, de modo a extrair sentido dos sons que não partilham do rótulo “música”, Akita é o maior e mais contundente exemplo de artista que tem gosto por esgarçar limites. Ele não é construtivo, não possui seguidores, não abre correntes: seu trabalho pode excitar, mas não empolga. Força bruta, pressão e depredação sonora: seu ofício é destruir sem destino, nem amanhã. O niilismo de Akita é político, mas não é “cultural”: seu trabalho é contracultural. Ao passo que o de seus companheiros, Mats Gustafsson e Jim O’Rourke, se encontra a meio caminho entre a diversas vertentes musicais e a utilização pontual de ruídos e sons “não-musicais”. É possível, porém, combinar essas duas prerrogativas aparentemente complementares, mas que no frigir dos ovos, se afiguram absolutamente distanciadas? Não se negocia com o noise, certo? Ele recobre a tudo como a noite recobre o dia. Enquanto os dois últimos podem criar mediações, dificilmente Merzbow será o tipo de autor que regulará seu trabalho com sonoridades mais acessíves, mesmo que estejam circunscritas ao raio sonoro do free-improv.

Mas em One Bird Two Bird o improvável acontece. Na verdade, já havia me surpreendido com a riqueza de Merzbient, na sensibilidade com que Akita traduziu o universo desafiante do noise para uma estrutura econômica, para uma sonoridade que incorpora outras possibilidades de “barulho”. Pois esta capacidade de produzir sons com economia, e de compor de forma mais espaçada, favorece o encontro com as particularidades dos dois grandes improvisadores que estão ao seu lado. Nas duas faixas, Merzbow não opta pelo excesso, mas pelo diálogo. Gustafsson e O’Rourke, cada um à sua maneira, promovem interações admiráveis com o arsenal de Akita. Em “Two Bird”, por exemplo, lá pelo nono minuto, Akita equaliza o volume de suas explosões para desenhar um momento de improvisação intensa, realizado pelo saxofone descontrolado de Gustafsson. Eles prosseguem em um crescendo, entretanto, sem que “a noite” paire sobre tudo. Pelo contrário, o que sobressai na improvisação do trio é a capacidade de tornar equânimes as intervenções improvisadas, criando diálogos que seriam impensáveis em se tratando da virulência sonora de Akita. Nos quarenta e poucos minutos de One Bird Two Bird, muitos são os momentos em que se percebe a coerência do trio.

Alguns poderão dizer que Merzbow foi como que domado pelo instinto de produção de O’Rourke, mas não é por aí: assim como em Merzbient, a radicalidade aqui reside na capacidade de mediar os volumes e fazer seus sons dialogarem. A intensidade fica resguardada, portanto, nas modulações e diversos momentos, e não na pressão e na saturação. Logo, não estamos diante somente de um exemplar raro ou de um momento brilhante de improvisação contemporânea. Mas frente a um outro momento da música barulhenta e asfixiante de Masami Akita – o que, diga-se de passagem, não é pouco.

Bernardo Oliveira

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