quinta-feira, 20 de outubro de 2011

(crítica - disco) Æthenor – En Form For Blå (2011; VHF, EUA)

























Não parece mero adereço a inclusão do nome dos músicos do Æthenor na capa de En Form for Blå. Nos discos anteriores, estas faziam alusão discreta ao “geometrismo” estilizado das capas de death metal, mas desta vez uma nuvem azul (Blå, em sueco) cobre o rosto levemente desfocado de uma mulher. Sua boca entreaberta faz supor uma certo estado de excitação e desconforto. Sobre esta imagem discreta, uma lista com o nome do grupo, do álbum e dos instrumentistas, em um procedimento muito semelhante ao que marcou os anos dourados do jazz americano. Este hábito possui um sentido que, me parece, pode ser estendido ao Æthenor: ele sublinha a identidade, a personalidade musical de cada um dos instrumentistas.

Gravado e editado em duas apresentações na casa de shows sueca Blå, En form for Blå se afigura como um salto extraordinário no pensamento musical da banda. A inclusão de Steve Noble, baterista que acompanhou Derek Bailey, e a permanência de Kristoffer Rygg, abriu a paleta de sons, antes de alguma forma comprometidas com formas do drone e do dark ambient, pela via do metal que tanto apraz O’Malley e marca seu trabalho. A bateria de Steve Noble, a profusão de timbragens e climas que ela emana, garantem o aspecto multifário das faixas, que eram antes batizadas por números, como movimentos de uma composição, mas agora possuem nomes e, de fato, parecem responder a questões diferentes.

“Jocasta” e “One Number Of Destiny In Ninety Nine” formam o primeiro bloco, as faixas mais longas, que tomam mais de cinquenta por cento do álbum. Repletas de reviravoltas, alternando a exploração de massas sonoras com texturas acidentadas, elas se caracterizam por um diálogo intenso entre todos os integrantes. Mas a intensidade toma ares exploratórios incomuns, quando nos vemos entre as cinco faixas finais. “Vyomagami Plume”, por exemplo, com seus teclados jazzísticos e a proliferação de desenhos rítmicos; o aspecto etéreo, quase gracioso, de “Dream Tassels”, além da aparente retomada das modulações características da primeira parte em “Something To Sleep Is Still”.

Nestas faixas, fica evidente a contribuição do diálogo entre Noble e Rygg, ao que parece, o trunfo do álbum, responsável por sua inclusão entre o que de melhor produziu este projeto aparentemente lateral, capitaneado por dois estetas do Metal, Sullivan e O’Malley. Mas a forma final, esta me parece de alguma forma distante do que seria comum esperar de seus nomes. Mas por que?

Talvez aí resida o parentesco mais próximo de En Form for Blå: o jazz como conceito, isto é, como criação de estruturas de improviso, de modulações improvisadas que, no entanto, é composto por habilidades individuais em franca relação. Os nomes na capa expõem a individualidade, mas o azul cobre tudo, unificando as partes num todo incrivelmente coerente. O que faz deste álbum uma das audições indispensáveis de 2011.

Bernardo Oliveira

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