segunda-feira, 17 de outubro de 2011

(crítica - disco) Theo Parrish – Ugly Edits (2011; Ugly Edits, EUA)
























Não haveria um ano mais propício para a compilação dos “ugly edits” do DJ e produtor americano Theo Parrish. 2011 já nos brindou com a belíssima colaboração entre Max Loderbauer e Ricardo Villalobos, “recompondo” faixas do renomado catálogo da ECM. O excepcional álbum de PJ Harvey, Let England Shake, também se utiliza do expediente de citar gravações originais, inseridas no corpo do arranjo – como, por exemplo, o arranjo que Harvey fez para “Written On The Forehead”, que reproduz de forma criativa o sampler de “Blood and Fire”, do Niney the Observer. A lista é longa, mas vale notar que Nicolas Jaar, Dj Diamond, Burro Morto e Clams Casino se inscrevem no movimento de ampliação da noção e da utilização do sampler.

Vendidos e pirateados a peso de ouro mundo afora, os chamados “ugly edits” constituem um capítulo à parte nesta história. Primeiramente, pelo sopro de informalidade: cada um dos escassos e disputadíssimo exemplares vinham assinados pelas mãos do próprio Parrish, o que aumentava a aura do objeto. Em cada um deles, intervenções estético-cirúrgicas sobre clássicos assinados por Jill Scott, Sylvester, James Brown, Harold Melvin & The Bluenotes, Freddie Hubbard, Etta James, entre outros. Compilados, remixados e editados em CD, através do selo homônimo pelo qual lançou os vinis durante oito anos, Ugly Edits atesta a peculiaridade do trabalho deste que é um dos produtores musicais mais importantes dos últimos 20 anos.

Espero que o leitor não tome a expressão estético-cirúrgica como um artifício retórico. Pois me pareceu a metáfora perfeita para o procedimento utilizado por Parrish. Primeiramente, ele afirma que a palavra “ugly” (feio em inglês) significa que os “ugly edits” não serão gravados em alta fidelidade, não serão cortados com precisão, muito menos serão alinhados no 4/4 característico da vertente funk-soul-disco. Nas palavras do autor, trata-se uma reinterpretação, cujo método consiste em “pegar o disco, gravá-lo, equalizá-lo, cortar as partes e inseri-las no Akai MPC 2000.” E ele prossegue, elucidando seu método com a clarividência e a simplicidade de um mestre: “tenho toda a canção, quebrada e distribuída em sessões sobre os pads, e simplesmente aciono todos os trechos em conjunto, ao mesmo tempo.”

Como se cada uma dessas faixas fosse um cadáver, e com seu bisturi Parrish produzisse intervenções no corpo da obra, esquartejando seus membros para dar vida a outra composição. Sim, Parrish promove a “frankensteinização” de clássicos da disco music, equilibrando-se elegantemente entre a referência e a recriação, mantendo a faixa por longo tempo em sua integridade estrutural, tal como a dupla Loderbauer/Villalobos.

Através de Ugly Edits tomamos contato, não mais com as faixas avulsas que volta e meia apareciam através de blogs e redes P2P, mas com um corpus inteiriço, conceitualmente forte o suficiente para sustentar as duas horas e quarenta de audição. E não são poucos os momentos que compensam tamanha dedicação. A começar pelas repetições obsessivas no final da alegre “Love I Lost”, a recomposição com toques ambient em “Slowly Surely”, a sequenciação de texturas rítmicas do clássico “Got a Match”, os minutos finais de “Little Flower” e “Slick”. Destaque também para a orgia rítmica de “Shave Mister” e a estranhíssima versão para o funkão “Never Seen a Tree” – notem no início como Parrish se utiliza das estáticas do vinil com intenções "percussivas"...

Claro, John Oswald, Public Enemy, Avalanches e DJ Shadow permanecem pioneiros, mas o artista que se utiliza criativamente dos excertos de outra faixa, dispõem hoje de um campo realmente aberto de possibilidades, que escapam, sobretudo, à própria noção de “citação”. O refix, por exemplo, é apenas um capítulo desta série de fenômenos a meio caminho (e, às vezes, além) da citação e da recriação. Mas os "ugly edits" remontam a algo que fica entre uma coisa e outra: nem a experimentação selvagem dos primórdios, nem a volatilização dos métodos alusivos que marcam a música atual. Curto e grosso, escasso de elementos, essas faixas se destacam pela elegância do método e, sobretudo, pela generosidade do resultado.

Bernardo Oliveira

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