quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Fire! with Jim O’Rourke – Unreleased? (2011; Rune Grammofon, Noruega [Suécia/Japão])


























Duas carreiras fascinantes, dispostas em um mesmo curso improvisado. Dois instrumentistas e experimentadores assumidos, fulcrando suas respectivas carreiras na incansável exploração dos confins da experiência sonora. De um lado, Jim O’Rourke, "um homem do Renascimento", multitalentoso, autor de uma das mais extensas e consistentes biografias da música atual. De outro, Mats Gustafsson, oriundo da peculiar cena jazzística norueguesa, que emprestar seu saxofone a muitas das sonoridades mais interessante do momento. Com o Fire!, um de seus muitos projetos, Gustafsson se uniu a O’Rourke para dois dias de improvisação em Tóquio, 2010. E o resultado, meus camaradas…

…não surpreende tanto se observarmos os últimos desenvolvimentos de Mats Gustafsson, Jim O’Rourke e, particularmente, do jazz nórdico. Nada mais apropriado do que, para fins de comparação, revisitar as colaborações anteriores, como os longínquos Parrot Fish Eye (o primeiro Gustafsson solo) e a obra-prima pontilhista Xylophonen Virtuosen, ou os mais recentes, como o acachapante One Bird Two Bird. Isto para verificar como Unreleased? inscreve e confirma O’Rourke nesta leva de álbuns irreverentes e poderosos, mais próximos de uma improvisação roqueira, psicodélica e “paródica”, do que propriamente jazzística – como no excelente álbum do Lean Left (com a colaboração dos guitarristas do Ex) e o último disco do The Thing, também com O’Rourke.

Em Unreleased? cabem alguns momentos que rememoram o tal disco do Lean Left, talvez pelo sax barítono timbrado com o grito rouco dos anos 50, uma certa inconsequência juvenil na condução do improviso… Mas há nas quatro faixas uma acentuada diversificação interna, como nas duas primeiras, “Are You Both Still Unreleased?” e “Please, I Am Released”, que constituem poderosos “crescendos”, justapondo a habilidade em criar texturas surpreendentes com sonoridades convencionais – como o sax barítono, o baixo marcado ou a bateria marcial e implacável.

Já “By Whom And Why Am I Previously Unreleased?” retoma alguns argumentos de colaborações anteriores, ao operar a partir dos elementos, e não das texturas, resultando em uma dinâmica de baixo volume e alta tensão. Mas o final me pareceu surpreendente, por conjugar os oito primeiros minutos de noise trabalhado, com mais nove minutos de um blues histérico. A coisa chega ao ponto de assemelhar-se a um doom metal, ou algo bem arrastado, pesado e barulhento. E Unreleased? termina quieto, com o saxofone arranhando seus últimos sopros e o contrabaixo intermitente, repetitivo e super grave – um dos destaques do disco. Uma audição vigorosa para quem gosta de jazz e de experiências com estrutura de improvisação, mas também para quem curte o hard rock viajandão dos anos 70.

Bernardo Oliveira

2 comentários:

Kao disse...

Felicito-me muito em ver que alguém se dispôs a escrever sobre esse excelente álbum...

Bernardo Oliveira disse...

Muito obrigado!