sábado, 1 de outubro de 2011

Minicrônicas Discográficas 2

Conrad Schnitzler & Borngräber & Strüver – Con-Struct (2011; M=minimal, Alemanha) | Roedelius/Schneider – Stunden (2011; Bureau B, Alemanha)
O krautrock… Ahhh o krautrock!… Nascido no seio de uma sociedade ainda convalescente, o krautrock catalisou uma experiência libertária dentro da sociedade alemã, egressa de uma experiência política autoritária e traumática. Tão pungente e libertador foi o krautrock para alguns alemães, que essa força se traduziu em um leque de nuances artísticas as mais variadas, não só na música, como no cinema, nas artes plásticas, etc. Depois, o kraut foi “assaltado” por David Bowie, confundido com o rock progressivo inglês, sonegado nos livros de história do rock, e outras resistências que só vieram a aumentar sua força e poder de influência. Hoje, se olharmos o panorama como um todo (como?), veremos impassível sua influência no drone, no post-rock, no dubstep, e até na música brasileira e africana.

Isto para apresentar dois novos trabalhos de dois dos mais influentes nomes da cena krautrock. O primeiro é o conflituoso Con-Struct, parceria do saudoso Conrad Schnitzler, falecido este ano, com Christian Borngräber e Jens Strüver (que formam a dupla Borngräber & Strüver). O segundo é Stunden, parceria de Hans-Joachim Roedelius com Stefan Schneider, 50% da dupla berlinense To Rococo Rot. Enquanto Schnitzler (na minha modesta opinião, o grande nome do movimento) imprime um tom rascante e sombrio nas esculturas sonoras de Con-Struct, Roedelius e Schneider investem em delicadas texturas ambient, semelhante a Cendre, a obra-prima de Fennesz e Sakamoto.

Fanafody: A Collection Of Recordings And Photography From Madagasikara, Volume II (2011; Mississipi Records, EUA [Madagascar])
Colhidas ao longo das diversas viagens que fez para Madagascar, as gravações do arquivista canadense Charlie Brooks constituem um valioso testemunho da música que se faz hoje naquele país. Em 2010, o selo Mississipi Records editou os vinis Fanajana e Fihavanana, ambos dedicados ao registro da música do país, caracterizada pelo canto gutural e a utilização prodigiosa da rabeca. O volume dois, batizado Fanafody, foi lançado em julho deste ano, trazendo basicamente gravações de campo. A espontaneidade dos artistas garante a beleza profunda de faixas como “Ravoro III”, executada pelo cantor (cantora?) Tanka Eliasi, ou ainda o suingue intrincado de “Fahoriana Be”, por Guy Raberivelo. Simplesmente indispensável.

Blue Daisy – 3rd Degree EP (2011; Black Acre, Reino Unido)
Reza a lenda que o produtor inglês Kwesi Darko, mais conhecido como Blue Daisy, lançará seu primeiro álbum, The Sunday Gift, na semana que vem. O disco virá pela mesma Black Acre pela qual Darko editou seus excelentes trabalhos até então: o 10” Space Ex (2009), Strings Detached EP (2009) e a parceria com a cantora Anneka no Raindrops EP (2010). Lançado em maio deste ano, este 3rd Degree EP não acrescenta grandes inflexões ao trabalho do produtor: melodias imersas em um ambiente enevoado, cacofonia controlada entre o onírico e o urbano. Destaque para a batida letárgica de “Kill a DJ”.

Parahyba Art Ensemble – Ao Vivo - Festival MIMO (2011; s/g, Brasil)
Sinceramente, nunca tinha ouvido falar do Parahyba Art Ensemble. À primeira vista, julguei trata-se de um conjunto brasileiro, mas na verdade trata-se de um ensemble multinacional, capitaneado pelo guitarrista paraibano Chico Corrêa. Geralmente acompanhado de sua Electronic Band, inscrito no contexto do manguebeat e além, aqui Corrêa tece longas sessões de improvisação, acompanhado pelo baterista americano Gregg Mervine, o multiinstrumentista belga Henry Krutzen, o francês Didier Guigue nos sintetizadores e flauta baixo, O DJ Guirraiz, o trompetista alemão Burgo, o baixista Mateus Alves (que lança este mês o CD Mateus Alves - Música de câmara e orquestral) e o VJ Spencer. Baixe aqui.

VA – ModernismuseuM / Mmegaplekz (2011; Mordant Music, Reino Unido)
Um museu “moderno” soa como uma contradição: a experiência artística autofágica do século XX, “preservada” pela fixação no tempo produzida pelo museu. Este pensamento me veio com relação a esta coletânea de extras (remixes, faixas não-lançadas), anexada a uma mixtape assinada por Ekoplekz, na qual ocorre o mais improvável: trata-se de verdadeiras sobras, faixas medianas de artistas como Shackleton, Mordant Music e Vindicatrix. Se por um lado vale pela curiosidade, ao menos você pode ter a certeza de que este é o mais desinteressado caça-níquel de 2011.

Ricardo Villalobos, Max Loderbauer / Peverelist – Shangaan Shake (2011, Honest Jon's, Reino Unido/Alemanha [África do Sul])
Na ponta dos pés, insinua-se um movimento de revalorização do sapateado, seja através do shangaan sulafricano, do footwork de Chicago (que pode ser visto aqui e ouvido aqui), ou ainda dos “passinhos” no Rio de Janeiro. Para cada uma dessa joviais modalidades, uma sonoridade diferente, sempre em bpms altíssimos, sem os quais os jovens não conseguem desempenhar sua “podo-pirotecnia” – sim, porque em alguns momentos seus passos incendeiam o ambiente, como mostram as imagens.

Pois bem, o selo Honest Jon’s, responsável pela divulgação do shangaan, convidou produtores e djs para remixarem algumas faixas do principal nome desta cena: o Tshetsha Boys. Um desses 12” de remixes chama-se Shangaan Shake, e conta nada mais nada menos que com a dupla Ricardo Villalobos, Max Loderbauer (responsável pelo acachapante Re:Ecm) de um lado, e com dubstep-mais-dub-que-step de Peverelist, parceiro de Shackleton. O resultado vai de encontro à velocidade necessária para o leitor arriscar seus passinhos, mas pode tranquilamente embalar os movimentos corporais desconexos de balzaquianos desavisados.

Bernardo Oliveira

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