quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Minicrônicas Discográficas #3





Esta semana, além dos discos eleitos para nossas minicrônicas, me aprofundei na audição de alguns trabalhos que possivelmente se transformarão em resenha no Matéria: a compilação genial dos “ugly edits” de Theo Parrish; o petardo do Ekoplekz, Intrusive Incidentalz; a colaboração de Akira Sakata com – adivinhem?! – Jim O'Rourke e o Chikamorachi, And that's the Story of Jazz...; o surpreendente Aftertime de Roly Porter; a poderosa coletânea do gênio malinês Sorry Bamba, lançada pelo selo Thrill Jockey; e o estranhíssimo Pan Tone, com Hauschka & Hildur Gudnadottir. 

Ainda não escutei o Tim Hecker novo, Dropped Pianos. Nem Pan Am Stories, do Rangers, nem Plus, do Luomo de Vladislav Delay, nem Space Cadet: Original Still Picture Score, do Kid Koala. Ainda me aproximo também da colaboração de Scanner com David Rothenberg, tentando entender se tomo o disco por uma faixa como o dub “As Air Moves In” ou por besteiras como “Compounding Daydream”… Por outro lado, tive uma grande decepção com o primeiro álbum do Blue Daisy, The Sunday Gift. Parece que há, entre os produtores ingleses, a tendência de encarar o "formato-álbum" com pretensão de seriedade, e de preencher esse requisito com melodias bobas e temas grandiloquentes… Aconteceu com James Blake e Rustie… Aliás, desapontamento geral com o novo single do Joker, a volta magriiinha de Andre 3000 e Ghost People, um tropeço considerável do produtor holandês Martyn.

Ah sim, escrevi crítica para a FACT sobre três álbuns que merecem destaque: a compilação dos remixes de The King of Limbs, intitulada TKOL 1234567, o Fabriclive 59, assinado pelo Four Tet de Kieran Hebden, e o novo (outro!) trabalho de Andy Stott, We Stay Together. Três trabalhos que variam da compilação à reinterpretação à criação, quase que de forma indistinta, precisamente uma das características marcantes deste ano de 2011...

Pole – Waldgeschichten (12”) (2011; Pole/Kompakt, Alemanha)
Após quatro anos de silêncio, o produtor alemão Stefan Betke, também conhecido pelo pseudônimo Pole, está volta com um 12” matador intitulado Waldgeschichten. Pole e Steingarten, de 2003 e 2007 respectivamente, concentravam-se em elaborar uma perspectiva mais palatável da combinação prodigiosa de glitches (erros de sistema convertidos em sons) com estrutura dub. Composto por três belíssimas faixas (“Wipfel”, “Wurzel” e “Wipfel Dub”), Waldgeschichten traz um trabalho novo e promissor, que se aproxima das levadas mais regulares do Rhythm & Sound, mas conservando a chiadeira que caractertizou seus três primeiros trabalhos – editados em conjunto no ano de 2008, resenhado aqui. Para escutar alto, muito alto…

Sei Miguel, Pedro Gomes – Turbina Anthem (2011; NoBusiness, Lituânia [Portugal])
Sei Miguel, veterano trumpetista francês, que viveu em São Paulo e se assentou em Portugal nos anos 80, se une ao guitarrista português Pedro Gomes para forjar um dos discos mais estranhos que escutei esse ano. Turbina Anthem é, precisamente, o que anuncia o título: uma série de hinos à cacofonia que a modernidade e seus apetrechos trouxeram para embalar nossas distopias mais caras. Porém, nas palavras do próprio Gomes, não se trata de “um disco gratuitamente freeform; é, aliás, obsessivo com melodia, frase, timbre e densidade.” Sim, estranho, mas gratificante para aqueles que adentram seu inóspito e intrigante universo.

Caldo de Piaba – Volume 3 (2011; s/g, Brasil)
Formado por Saulinho Machado na guitarra, Arthur Miúda no baixo, Eduardo Di Deus na bateria e João Gabriel na percussão, a banda acreana Caldo de Piaba chegou em maio deste ano ao terceiro volume de gravações, trazendo uma roupagem bastante peculiar de gêneros como a guitarrada, a lambada e o carimbó. Gravado em fevereiro deste ano nos estúdios de uma rádio em SP, o disco traz uma banda afiada, tocando os gêneros supracitados com pegada e andamento de rock’n’roll. O repertório mistura composições próprias (“Lambada Nova” e “Daimagem”), com a de grandes nomes da guitarrada como MestreVieira e Aldo Sena, além de uma cover empolgante de “I Want You”, dos Beatles. O álbum pode ser baixado aqui.

Fred McDowell - The Alan Lomax Recordings (2011; Mississippi Records, EUA)
“I Do Not Play No Rock 'N' Roll” é o título de um dos grandes discos de “Mississippi” Fred McDowell (1904-1972, Tennessee, EUA), uma das figuras ligadas ao blues mais geniais e controversas. Apesar de considerado entre os cantores de blues do Mississipi Delta, foi talvez um dos primeiros representantes do blues praticado ao norte, marcado pela semelhança evidente com o griot africano. Inclusive, o Tinariwen e os músicos malineses certamente se afiguram como uma entre tantas vertentes desta modalidade narrativa, distribuídas pelo mundo por força do colonialismo europeu.

Suas primeiras gravações de longo alcance foram produzidas pelo musicólogo americano Alan Lomax e pela musicista inglesa Shirley Collins. Mal comparando, a “descoberta” de McDowell corresponde na cultura americana ao aparecimento de Clementina de Jesus para nós brasileiros, isto é, uma espécie de testemunha ancestral das mudancas políticas, técnicas e culturais dos séculos XIX e XX. Gravado em Como, Mississippi, no ano de 1959, este registro se afigura como um dos mais importantes documentos sonoros do século passado.

Vários Artistas – Bridges (2011; Machinefabriek, Alemanha)
Ao prolífico Rutger Zuydervelt, mais conhecido como Machinefabriek, foi oferecida a oportunidade de criar a trilha-sonora para o trabalho do designer e fotógrafo holandês Gerco Hiddink. Hiddink desenvolveu uma série de colagens em espiral, criadas a partir de pedaços de fotografias tiradas de quatro pontes entre Sinderen e Nijmegen, na Holanda. Ao invés de aceitar, Zuydervelt visitou as pontes com a intenção de fazer gravações de campo, e propôs a quatro duplas de músicos e improvisadores que reagissem a essas gravações, munidos de seus respectivos instrumentos. São eles: Jim Denley & Espen Reinertsen; Burkhard Beins & Jon Mueller; Mats Gustafsson & Nate Wooley; Erik Carlsson & Steven Hess. O resultado pode ser irregular em alguns aspectos, mas vale não só pela proposta, como também por alguns momentos de simbiose entre os improvisadores e as gravações de campo – sobretudo na parceria entre Gustafsson e Wooley. Ouça aqui.

Bernardo Oliveira 

Ps.: Ao lado de uma dúzia de felizardos, presenciei ontem um dos melhores shows que vi esse ano. E olha que estamos falando de um ano que teve e terá de Stevie Wonder a Sonic Youth, de Vampire Weekend a Mulatu Astatke. Trata-se do carioca Chinese Cookie Poets, que apresentou novas faixas no estúdio Audio Rebel, no Rio de Janeiro. Em um dos momentos mais incríveis da apresentação, contaram com a participação do cantor Negro Léo, que com Marcos Lacerda, forma o A Pax. E, na boa, o cara encarnou todos os grandes exus da música em uma só performance! Sério! Vi ali o James Brown, o Fela Kuti e o Iggy Pop, tudo na mesma pessoa, acompanhado por uma das bandas mais avassaladoras do momento. Bota fé?

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