sexta-feira, 7 de outubro de 2011

(crítica - disco) Vladislav Delay Quartet – s/t (2011; Honest Jon’s, Reino Unido [Finlândia])


As raias da improvisação parecem cada vez mais distantes de uma forma tradicional, um eixo sonoro que forneça um norte para a composição. Apesar de presente na grande maioria das manifestações musicais populares de todos os tempos, durante o século XX a improvisação foi explorada majoritariamente pelo jazz, o gênero que a abraçou como método e espírito.

E, no entanto, parece que hoje a forma foi descarnada dos maneirismos jazzísticos e incorporada a uma variedade de possibilidades, algumas beirando o inominável. Este ano, além do segundo trabalho do Moritz Von Oswald Trio, ainda tivemos a intrigante reformulação do Aethenor, a colaboração espetacular de Masami Akita com Jim O’Rourke e Mats Gustafsson e este registro poderoso do quarteto de Sasu Ripatti, sob a alcunha Vladislav Delay.

Não deixa de chamar atenção o fato de que as últimas empreitadas do músico finlandês tenham como elemento comum o trabalho de improvisação em conjunto. Porém, enganam-se aqueles que julgam apressadamente o Vladislav Delay Quartet à luz de sua participação no trio de Mortitz Von Oswald. A exceção da forma aberta, “jazzística”, com que pavimentam a composição, a sonoridade difere radicalmente, conservando-se apenas o elemento coletivo e improvisacional.

Emerge neste álbum uma concepção aberta, para além do ritmo, dos andamentos regulares e do colorido ocasionado pela síntese de elementos acústicos e eletrônicos. Aqui, é o noise, o barulho, o ruído, que fornece a direção. Neste percurso, sobressaem dois ambientes sonoros, unidos pelo caráter de improvisação livre.

Um primeiro, pronunciadamente rascante, compacto e volumoso, em pleno diálogo com o noise, como por exemplo na tensão industrial de “Hohtokivi” e na faixa de abertura, “Minus Degrees, Bare Feet, Tickles”. Outro, fragmentário, mais abstrato, espaçado e aberto à incursões minuciosas, como nas belíssimas “Santa Teresa” e “Das Abend”. Mas é na comunhão entre esses dois ambientes que este álbum alcança o seu ápice.

Me refiro à excepcional solução estética encontrada pelo quarteto na melhor faixa do trabalho, “Louhos”, uma combinação improvável de industrial, IDM, free-improv e jazz estrito sensu. Inclusive, podemos atribuir a tensão do crescendo que caracteriza a faixa ao equilíbrio perfeito entre as sonoridades compactas (provável cortesia de Vainio) e sinuosas (do sax soprano de Capece).

Em “Killing The Water Bed”, outro grande momento, este crescendo se apresenta de forma ainda mais acentuada, visto que, no início da faixa, a combinação da levada de prato de bateria com contrabaixo e saxofone aproxima a sonoridade consideravelmente do jazz tradicional, para culminar com uma pletora de ruídos, com ênfase na percussão diáfana de Ripatti.

O emprego de expressões como drone, IDM, noise, free-improv, etc, em busca de uma orientação, permite ao ouvinte tatear o espaço sonoro. Diante de um dos grandes exercícios de improvisação dos últimos anos, ele se encontra preso ao inominável, ao invisível, àquilo sobre o qual nada se pode dizer sem antes fruir. Portanto, Vladislav Delay Quartet convida o ouvinte a acompanhá-lo neste zigue-zague de possibilidades sonoras, aparentemente sem destino. Ao final, resta um zumbido no ouvido e uma sensação de uma experiência sonora sem precedentes.

Bernardo Oliveira

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