quarta-feira, 9 de novembro de 2011

(crítica - disco) Andy Stott - Passed Me By (2011; Modern Love, Reino Unido)

Apesar de relativamente curta, a obra do inglês Andy Stott indica um consciência criativa que não tem medo de experimentar e muito menos de errar. Seus singles e EPs passeiam com descontração do tecno minimal de “Replace EP” (2005), à desajeitada aproximação com o wonky em “Drippin” (2009). Os dois álbuns de sua autoria diferem consideravelmente um do outro, sendo que o primeiro, “Merciless” (2006), continha “Choke”, um dubstep anômalo em andamento largo. Personificando Andrea no projeto Millie & Andrea, junto ao prolífico produtor inglês Miles Whittaker (cinquenta por centro do Demdike Stare), assumiu sua faceta “critical beats”.

Em todos esses momentos, soube equacionar a variedade de interesses junto a um comércio igualmente variado de timbres e texturas, retirados ora da electrónica abstracta dos anos 90, ora das variações mais recentes do garage e do dubstep. E no entanto, algo que projetasse seu nome no patamar de artesãos como Shackleton, Kode9, Villalobos, Burial? Belas faixas como “Choke”, “Temper tantrum”, “Come to me”, mas um forte traço distintivo, uma marca, uma assinatura? Penso que não. Mas é de se notar que experimentando, acertando e errando, Stott demonstra que a versatilidade não lhe parece um problema.

Este é um trabalho exigente. Mais do que esforçar-se para apreender os detalhes ou o significado da obra, o ouvinte deve primeiro ambientar-se ao clima nublado e soturno que emana das linhas de baixo, dos timbres graves, dos ritmos paquidérmicos, desconjuntados. Todo um ambiente pesado, desacelerado, que pode remeter à saturação de Karem Mosse, às oscilações de volume em Actress, ao ferro velho sonoro de Hype Willians e James Ferraro. É um grande trabalho de Stott – não me parece um acaso que a vinheta de abertura se chame “Signature”…

A coesão sonora impressiona, mas é possível detectar nuances. Por exemplo, algumas faixas apresentam uma interpretação do R&B que passa ao largo tanto do Wonky, do Witch House, e até mesmo da aproximação feita por Falty DL, entre outros. É como se sobre a massaroca multiplicada de graves do dub-tecno, desenhasse algumas poucas linhas melódicas do canto R&B. Como em “Intermittent”, uma fantasmagoria soul, na qual o autor opera a desintegração do sampler, para revelá-lo íntegro ao final da faixa. Ou na levada desaticulada de “New ground”, com seu andamento lentíssimo e ritmo marcado no contratempo, salpicado pela sensualidade de canto feminino no melhor estilo R&B.

Na sequência, o sotaque afro e indecifrável de “Dark details”, as pancadas dub-tecno gravíssimas de “North to south” e “Execution”, e o final anticlímax da faixa-título completam o serviço. De uma forma geral, o que mais chama a atenção é a forma como essa sonoridade grave, pesada e arenosa se apresenta. Antes de ser um elemento como tantos outros, opera como a força de um princípio, imanente às harmonias, percussões, etc, dentro de um universo próprio. E aqui vai um termo que pode ser compreendido de diversas formas: sonoridade.

O termo “sonoridade” em uma faixa gravada não corresponde somente ao timbre de um instrumento, mas à harmonização decorrente das eventuais ressonâncias entre eles, somado ao modo e ao ambiente de gravação. Essa teoria é ainda desdobrada não só pelo aprimoramento das tecnologias de gravação e reprodução digitais, como também pela própria concepção musical que passa a dialogar com as possibilidades que esses novos equipamentos propiciam. Em “Passed Me By” podemos afirmar que há toda uma preocupação em conceber uma “sonoridade” que se apresenta não como uma forma inevitável, mas sobretudo como mais um elemento criativo.

O álbum foi masterizado por um dos mais prolíficos engenheiros de som, presentes na passagem do tecno minimal para o dubstep, Loop O, responsável pela sonoridade de trabalhos tão diversos quanto os de Echoplex, Claro Intelecto, Ricardo Villalobos, Xela, e alguns singles e EPs do mesmo Stott. Talvez aí resida mais um elemento responsável pela associação íntima entre as faixas, de modo a criar uma obra coesa e diferente de tudo o que Stott produziu até hoje. Se este disco representa um novo momento em seu trabalho, não se pode afirmar. Mas desta vez se percebe uma assinatura própria e surpreendente.

Bernardo Oliveira
(Publicado na FACT Magazine PT, 30/05/2011: http://www.factmag.com/pt/2011/05/30/andy-stott-passed-me-by/)

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