quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

(crítica - disco) Pete Swanson - Man with Potential (2011; Type, EUA)



Um tema permanentemente controvertido é o do juízo de gosto e sua implicação pra atividade crítica. O que é bom para Chico pode não ser para Francisco, "one man's music is another man's noise", DE GUSTIBUS NON DISPUTANDUM EST. Mas, claro: se o tema se mantém na zona de controvérsia é porque vale a pena tê-lo como assunto de conversa.

Tomemos um exemplo. Acabou de sair mais um disco de Pete Swanson, Man with Potential. Não procuro ler nada a respeito antes de ouvir, não preciso de nenhuma preparação prévia: quero logo é baixar e ouvir. E, ouvindo, a primeira reação é a de reconhecimento: eu sei o que é isso, sei onde estou pisando, e o que estou ouvindo confirma e contribui com uma história que é a do meu gosto. A essa altura do campeonato, tendo ouvido mais de dez discos que envolvem esse artista de alguma maneira, não espero, nem quero, novidade: quero mais do mesmo, um tipo de excelência forjada pela manobra em torno de possibilidades que são especificadas pelo próprio artista. O que eu quero é que esse disco seja bom, e que no time que está ganhando ninguém mexa. Meu gosto é conservador, e talvez seja assim como todo gosto. 

Mas aí você ouve o disco e, lá pelos cinco minutos da primeira faixa, "Misery Man", que tem sete minutos, você ouve uma perturbação: um riffezinho subterrâneo vai tomando conta, parece um metal entusiástico regido por um maestro de Fellini, ou aqueles momentos em que Mingus incentivava os músicos que trabalhavam com ele a flertar com a distorção, a cortejar os limites de seus instrumentos para favorecer um ideal de clímax como delírio e expansão das possibilidades da música. Aqui, esse riff é coisa que você já ouviu antes: essa é a música que esse cara, Swanson, faz: uma parede de ruído de pouca abrasividade  mas de uma intensidade inclemente, feita de progressões miúdas que ele vai empilhando e descartando. Mas à medida que a faixa prossegue, por volta de 6:10 minutos, já na saída, quem aparece no centro do palco é um som anômalo e único, uma cuíca high-tech e diabólica, que lhe entrega uma sequência que você poderia continuar ouvindo indefinidamente: e você se imagina, noite adentro, um fim de noite, dançando ao som dessa sequência que não dura nem dez segundos, mas que fica impregnada na memória, lhe dizendo também que justamente ali, depois de ter preparado sua atenção por um tempão, o artista lhe apresenta a uma mescla formidável de engenho e artifício e depois o abandona à sua própria sorte, entregue à sua memória, às associações que você pode fazer, à consciência do que há de contagiante ali, a seu desejo de que aquilo perdure. 

Essa faixa é boa? Esse é um dos discos do ano? Esses esquemas de hierarquização que a gente usa o tempo todo tem a ver com consumo de cultura, e são momentos que explicitam bem que estamos em uma economia aqui: isso vale, isso não vale, aposte nisso, esqueça aquilo. Mas, se a crítica funciona, o que ela pode fazer de melhor é mudar nosso jeito de prestar atenção e, com isso, fazer um pouco de arte pela arte.  

Antonio Marcos Pereira
Ouça a faixa "Remote View"

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