quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

(crítica - disco) Richard Youngs - Sapphie (1998; Jagjaguwar, EUA)

Quando me mudei para Belo Horizonte pra fazer o mestrado passei inúmeras horas folheando discos que não tinha dinheiro pra comprar na Motor Music. Eu não tinha grana, tinha outras obrigações mais urgentes (estudar Pascal, por exemplo), mas também tinha alguma possibilidade de ócio e, dos lugares que eu conheci logo que cheguei, esse era um dos que mais me agradava. Havia lá a turminha dos conhecidos, dos habitués, e eu não pertencia a nada - era só um ninguém, um ignorável, mas os caras me deixavam em paz, e a música era boa.

Seria o caso talvez de tentar inventariar o tanto de música que descobri apenas estando nessa loja e ouvindo o que os caras punham pra tocar. Um incidente desses rolou um dia que chegou uma moça e o cara do balcão, que devia ser um dos donos, disse "Ouça isso aqui, você vai adorar isso". Era um gesto interessante, pois parecia misturar azaração e inteligência de vendas: o cara cortejava a moça ao demonstrar conhecer suas predileções estéticas; caso acertasse, ganhava pontos e, talvez, mais chance de receber um investimento afetivo por parte da moça e, quase certo, ganhava também a compra do disco, ou pelo menos a instalação do desejo de comprar na cliente. Astuto o sacana.

Então vem o disco, eu estava manipulando as camisetas e aos pouquinhos fui parando de mexer nos cabides, fui deixando aquilo de lado e me concentrando em olhar um ponto cego, um lugar qualquer pra fora da loja, as pessoas passando na rua agora com a trilha sonora da primeira faixa de Sapphie, de Richard Youngs. Claro: naquele momento eu não sabia o nome do disco, o nome do cara nunca tinha ouvido, a faixa me pareceu muito, muito longa - mas também pareceu perfeita, tão cheia de nostalgia, tão pungente e frágil, toda a força eventual das coisas frágeis ali resumida, todas as hesitações, carências e cada temor arrecadado, exposto e perdoado ao mesmo tempo. Nunca tinha ouvido aquilo, ouvi uma vez, fui fisgado e nunca me esqueci - e estou aqui escrevendo esse texto, dez anos depois, pra falar ao mesmo tempo de várias coisas, como quase sempre acontece quando você entra nesses esquemas memorialísticos para construir um argumento de apreciação estética.

Quero falar de uma música que passou no teste do tempo: estou ouvindo o disco agora, enquanto escrevo, são apenas três faixas, longas, quase que só violão e voz e vazio, letras que em certa medida estão ali para ser gentilmente inferidas e advinhadas, pois entender aqui não é sinônimo de “entender tudo”. Quero falar também de uma coisa que fazíamos não faz nem tanto tempo, que construiu tanto em meu gosto e meu entendimento de música que nem sei por onde começar: trata-se da prática moribunda de frequentar lojas de discos, passar o tempo nesses lugar de comércio de produtos musicais que terminavam fatalmente virando lugares de convivência, onde você fazia amizades, aprendia e, para alguns, como se vê no caso contado, podiam ainda ser espaço de azaração. E, por fim, quero falar também da maneira sempre enigmática, mas muitíssimo ordinária, que faz com que certas canções se inscrevam de tal maneira em sua memória, atreladas a um momento específico, revisitado por você em audições posteriores, que não dá pra separar o conhecimento dessa música de sua ideia de quem você é. 

Obviamente, nesse sentido, esse texto só pode falhar: é muita coisa pra um textinho só. Mas tem algo aqui que talvez possa funcionar, que é a remissão a esse disco excepcional perdido no escolho indie, um disco que passou no teste do tempo, que honra seu antecessor mais óbvio (o Nick Drake seco e enigmático de Pink Moon) e que certamente estimulou pelo menos um sucessor à altura (o Young Prayer, do Panda Bear). Assim, imagino, talvez o texto sirva para que você ouça, ou ouça de novo, esse disco - e isso já vai estar de bom tamanho.

Antonio Marcos Pereira
Ouça "Soon It Will Be Fire".

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