sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Melhores de 2011, por Antonio Marcos Pereira

Eu, que tantas vezes malhei as listas de dez mais que lia, acusando seus autores de irremediáveis pecados de grotesca omissão e rematada incompetência na hora de ajuizar o que importa no presente, e tantas vezes refiz as listas alheias em mesa de bar, apresentando argumentos de toda ordem para me justificar, eu, que tudo isso já fiz, agora provo de meu próprio veneno, pois posso dizer com conhecimento de causa que dá um trabalho do cão fazer isso. 

Seu editor lhe pede uma lista de melhores discos e melhores faixas, você pensa que é barbada, você ouviu disco pacas lançados esse ano, vários formidáveis: sua única preocupação é que a lista deve fazer algum sentido, deve dizer algo que seja mais que a coleção de itens, deve expor um lugar de observação. Mas isso não é fácil de fazer e, em particular, não é possível evitar o deslize, o esquecimento, a omissão. Borges disse com propriedade que em qualquer antologia o que se nota antes de mais nada é que falta nelas – e ele também observou que a organização de bibliotecas é um exercício modesto da arte da crítica. Assim, me escorando em Borges, avisando de saída que a omissão é esperada, apresento esses meus dez mais do ano aqui com a consciência tranquila, sabendo que todos são discos que achei o bicho, todos me interessaram, me perturbaram, me fizeram desejar ouvir mais. E o lucro a posteriori para o crítico foi que, depois de feita a lista, de mil tentativas e ajustes, tira esse e põe aquele, ao chegar ao resultado final vejo que não foi o que eu achava que seria – e, justamente por isso, saiu melhor que a encomenda.

10 Discos

Dirty Beaches, Badlands

O melhor disco que David Lynch poderia fazer, e que põe no bolso ao mesmo tempo Julee Cruise, Chris Isaak e as próprias tentativas manqué de Lynch como “músico” (sobre as quais comento mais adiante). Disco retro sem nostalgia, é Elvis, punk, e noise e mais uma pimenta cabulosa que nem sei identificar: o bicho, o china mandou bem pacas. Provavelmente o disco que mais ouvi no ano. 

The Caretaker, An Empty Bliss Beyond this World

Meu favorito desse moniker do Leyland Kirby, vintage pra calar quem se diz vintage: é um episódio de Boardwalk Empire com o uso de estupefacientes de efeito moderado porém duradouro. Formidável, faz parecer que os discos anteriores são ensaios pro ajuste perfeito de propriedades desse aqui. Show de bola.

Pete Swanson, Man with potential

Resenhei, e não há mais a dizer, salvo talvez reiterar que Swanson chuta bundas.

Grouper, Alien Observer

Fiquei na dúvida entre esse e o da Barwick, que coloco no mesmo balaio. Mas, no final, Liz Harris levou a melhor: mais sinistro, menos new-agey. Logo, pra mim, melhor. Música de assombração pra quem gosta de um clima Família Addams 2.0, mas tem medo de ouvir Merzbow de noite.

The Black Keys, El Camino

Ouvi esse disco duas vezes e já estava cantando junto: quando eu vou me queixar de uma coisa dessas? Quem falou mal esperava o quê? Influências de Ligeti? Uso de afinações microtonais? A praia é essa, e o disco cumpre o que promete. Será, provavelmente, logo esquecido, e é bom que seja assim, pois não se pode lembrar de tudo. Mas não vejo a hora de ir no show e cantar junto com Tio Auerbach e mais uns cinco mil eufóricos o refrão de “Lonely Boy”

Nicolas Jaar, Space is only noise

Filho” de Ricardo Villalobos, Jaar faz jus à dinastia, honra a dinastia mostrando a semelhança de família mas também inventando o babado dele. Que não funciona pra dançar pouco me importa: boa parte do que o Villalobos faz também não funciona, a não ser que os aditivos químicos sejam muito caprichados mesmo (mas com os devidos aditivos há quem dance até ouvindo Ivete Sangalo). O disco me dá a impressão simultânea de que já ouvi tudo antes, mas há uma aditivada geral produzida com muita tranquilidade, sem qualquer sofreguidão ou desejo de provar que faz xixi mais longe. Isso poderia ser trivial, mas esse sacana tem 21 anos? Putzgrila. Vida longa e próspera pra esse filadaputa.

Andy Stott, Passed me By

Sinistro, podraço, perturbador: em um ano sem Burial (salvo essas palhinhas que rolaram aí), foi uma dádiva. Gostei um pouco mais desse que do We stay together, mas essa comparação é irrelevante e frau: os dois são excelentes, ouça os dois.

Shabazz Palaces, Black Up

Onde se prova que na cultura também pode funcionar como na natureza, a la Lavoisier: que do monte de esterco dos Digable Planets isso possa ter surgido mais de dez anos depois é, realmente, um negócio que dá esperança. “Recollections of the wrath” é um bom exemplo, pois tem um negócio ali que é Digable Planets – mas, por essas coisas mágicas e inexplicáveis que a gente resume falando de “talento” e “arte”, é também muito mais. Show de bola.

Panda Bear, Tomboy

OOPS! HE DID IT AGAIN! 

Omar S, It can be done but only I can do it

Que esse disco não tenha tido o menor ibope é prova de que, desgraçadamente, confinaram o techno a um nicho e esse nicho foi colonizado por Djs feitos de baba e com forma de smurf. Aqui talvez se apresente uma evidência de que um jeito de fazer música associado inextricavelmente à peculiaridades de Detroit ainda existe, e ainda é fértil e relevante.  


10 Menções Honrosas: 

David Lynch, Crazy Clown Time

Disco horrendo, que mostra que se pode ser muito relevante em um campo da arte e um néscio em outro, e que nos leva a celebrar mais ainda o efeito de Lynch como produtor de cenas cujo magnetismo foi fundamental para pessoas de minha geração – e que resultou em pérolas como o formidável Badlands, do Dirty Beaches.

The Field, Looping state of mind

É mais do mesmo, mas já não é mais o mesmo – e isso, nesse caso, foi bom. 

Psilosamples, Homem do Rá Sound Tracks

Zé Rolê, discretamente, mas com muita alegria e nenhuma pretensão, fez o único disco brasileiro que ouvi também com alegria, e sem nenhuma justificativa a não ser que a música é bacana. Good vibes, low profile, show de bola.


Radiohead, The King of Limbs

Eu tinha esquecido que esse disco era desse ano, e fui lembrado pelas outras listas que estão rolando aí e que já li. Disco frau, mas que teve o efeito positivo de, pelo contraste, mostrar como discos anteriores da banda são o bicho mesmo. Poderia aventar que o disco marca a virada para o perigeu, mas isso só o tempo dirá.

Tim Hecker, Dropped Piano 

Gostei bem mais desse que do Ravedeath 1972 – a razão é misteriosa pra mim também, mas talvez algo se esclareça se pensarmos que o disco anterior de Hecker que mais ouvi é o low profile e intimista Radio Amor.

Julianna Barwick, The Magic Place

O que me leva a gostar desse disco é exatamente o mesmo que me leva a cansar dele: é Enya, com alguma respeitabilidade adicionada. Isso não é trivial, o disco é bom pra se ouvir enquanto se faz outra coisa – ou seja, é esquecível, e isso às vezes é tudo o que se quer.

Kate Bush, 50 words for snow

Tia Kate, ainda em plena forma: faixas longuíssimas, mas porque assim deve ser; uso comedido de recursos, porque assim deve ser dessa vez; voz justíssima, porque assim deve ser. A insuportável Joanna Newson teria algo a aprender aqui.

Kanye e Jay-Z, Watch the throne

Me diverti muitíssimo com esse disco: fazer o que eles fazem com um sample de Nina Simone, por si só já merece aplauso. Mas, além disso, eles fazem bem – e devem ter se divertido fazendo. O ponto é polêmico, mas julgo esse disco melhor que os trabalhos mais recentes de cada um dos autores.   

Ricardo Villalobos & Max Loderbauer, Re: ECM

Não é o caso de dizer o que se disse quando o Madlib teve carta branca no arquivo da Blue Note (algo como “Assim fica fácil”): isso aqui reinventa o catálogo da ECM, não faz a menor concessão a melodias ligeiras ou ao newageismo latente em várias produções de Eicher. É um disco que honra seu ilustre predecessor, Selected Ambient Works, Vol II, de Aphex Twin – e isso não é pouco.

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