quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Melhores de 2011, por Bernardo Oliveira

















Venho repetindo este pequeno diálogo que travei com um amigo. Em tom de desabafo, ele se lamentava por não conseguir acompanhar a quantidade de informação por segundo, que sobrepuja até mesmo a personalidade mais dedicada. “Não consigo acompanhar tudo o que acontece hoje”, é o que ele diz, e eu completo: “Que bom! Você é saudável”. É humanamente impossível acompanhar a produção artística contemporânea sem traçar recortes pessoais e intransferíveis, sem escolher dentre um número irremediavelmente limitado de experiências, aquelas que mais impressionaram o gosto e a consciência do ouvinte.

Assim, meu balanço de fim de ano é mais a exposição de algumas ideias e recortes a respeito da produção que emergiu em 2011 do que um recenseamento absoluto. É produto do gosto particular, mas não se esgota nele. Também não anuncio boas novas, nem crises insolúveis: apenas trago à baila algumas características de 2011 que, naturalmente, são produto do grande quiprocó que se transformou a produção, difusão e fruição da arte e, particularmente, da música.

– Sendo assim, 2011 se caracterizou pela abundância. Advindos sobretudo da Europa e dos EUA, uma pá de artistas ignorou o compasso “um-disco-por-ano”. Como exemplo, tomamos o último investimento de Leyland Kirby, o selo History Always Favours the Winners, pelo qual foram lançados os quatro volumes da série Intrigue & Stuff; os dez lançamento de Jim O’Rourke entre colaborações e compilações de faixas antigas; os habitués Merzbow, Dominick Fernow e William Parker, entre outros. Mesmo em um registro menos abundante, mas ainda assim curioso, artistas como Radiohead, FaltyDL, Zomby, lançaram, além dos tradicionais EPs, remixes, singles, lançamentos digitais. No Brasil, além do forró, do brega e do tecnobrega, pioneiros na produtividade insubmissa aos padrões do grande mercado, esta tendência se mostrou abertamente em São Paulo, através de uma turma que se produziu pelo menos meia dúzia de trabalhos relevantes. Me refiro à Romulo Fróes, Marcelo Cabral, Kiko Dinucci, entre outros, através dos discos de Metá Metá, MarginalS, Passo Torto, Criolo e do próprio Romulo Fróes.

Porém, se 2011 reafirmou a tendência de alteração do padrão de produção, difusão e formato que se delineou nos últimos anos, não foi somente por obra das condições técnicas. Parece que as condições técnicas desreprimiram o ímpero criativo, eximindo o artista da obrigação de suprir as necessidades do “público consumidor”, mas isso também se deu pela própria inclinação do autor em produzir para além de uma dinâmica que se consolidou no período de ouro da indústria fonográfica.

2011 se caracterizou pela diversificação da produção, tanto em relação a contextos determinados, como também no que diz respeito às interseções culturais. Observamos a volatilização radical dos gêneros, mesmo quando se trata de reiterar escolhas sonoras datadas. Por exemplo, grandes nomes da música africana acertaram, como Ebo Taylor, enquanto outros erraram feio, como o Manu Dibango de Ballad Emotion. Isto para além do fato de que alguns desses discos poderiam ter saído da década de 70 ou 80 (“retromania”?). Ao mesmo tempo, a releitura poderosa do afrobeat criada por Seun Kuti, até os novos ritmos como o shangaan, o bubu o kuduro, etc, relativzaram o mesmo cenário, criando aberturas imprevistas, como a onda afrobeat que ainda repercute pela Europa e os EUA. No Brasil não foi diferente, com a aparição de outras tinturas instrumentais com o recifense Burro Morto e o surpreendente grupo carioca Sobre a Máquina, e o enfoque glam sobre o tecnobrega empregado pela Banda Uó e a Gang do Eletro.





















Esses exemplos somam-se a outros para demonstrar que os interesses se apresentam de forma descontínua. Das estranhezas cariocas, convém destacar o Dorgas, o já citado Sobre a Máquina, mas também Chinese Cookie Poets, Kassin, Domenico, a consolidação da venue Plano B, na Lapa e do Audio Rebel, como pólos de produção independente e experimental (no qual se destacam o evento Quintavant). Esse panorama demonstra que a diversificação sonora atinge até mesmo locais pouco dado a experimentações, como o Rio…

– Das diversificações externas, isto é, daquelas que nutrem um mesmo contexto com a contribuição de outros ritmos e sonoridades, um disco de “música eletrônica” chamou a atencão: Re:ECM, da dupla Ricardo Villalobos e Max Loderbauer. Propondo algo como “novas contextualizações para os espaços sonoros” criados por artistas do célebre selo de improvisação e experimentação ECM, RE:ECM indica o interesse na exploração de outras possibilidades de releitura. Ao lado de “reworks” e “revoices”, presentes nas remixagens de faixas do Radiohead e do King Midas Sound, entre outros, pudemos observar também PJ Harvey e Burro Morto utilizando samplers na íntegra sobre a estrutura de composição.

– Das diversificações internas, isto é, para além da possibilidade de “releitura” de obras pré-existentes, podemos também contar artistas que buscaram criar releituras dentro dos próprios gêneros, como o reggae/dub extremamente originais elaborados por Duppy Gun Productions (Cameron Stallones e M. Geddes Gengras, no sensacional 12” “Multiply/Earth”), Stefan Betke, mais conhecido como Pole em “Waldgeschichten” 1 e 2, e no delírio analógico rasgado criado por Ekoplekz em Memowrekz. Esta liberdade radical para com os gêneros, bem como a possibilidade de cogitarmos seu esfacelamento como uma espécie de procedimento conceitual, se ampliou consideravelmente em 2011.

– O “rap de quarto” que se consolidou em 2011 através de nomes como Clams Casino, Emicida, OFWGKTA etc., marca uma terceira característica do ano: o deslocamento do contexto de produção, e não me refiro somente em relação à grande indústria. Mesmo se considerarmos os home studios, houve um considerável redução do apetrecho técnico e consequente guinada para os “room studios” – em uma epifania desqualificada, também cogito os “bathroom studios”, onde a voz pode ser gravada com mais qualidade… 

Brincadeiras à parte, vale perguntar pelo impacto de uma produção musical completamente amadora, no sentido de que não faz jus nem às condições antes consideradas mínimas para gravar e mixar, nem às exigências do grande mercado, tanto estéticas quanto logísticas (distribuição) e práticas (produção). Boa parte da relevância de um dos selos mais prolíficos do ano, o Not Not Fun, bem como do trabalho de Hype Williams e Run DMT, é tornar pop e palatável a sonoridade de ferro-velho, abafada, analógica, deteriorada, decorrente tanto da utilização de equipamentos analógicos, como também do emprego de técnicas de gravação que combinam procedimentos rudimentares com alta tecnologia.
















Ressoam nessa questão, o aparecimento das tias da música eletrônica experimental, Ursula Bogner e Daphne Oram, bem como o White Noise, comandado por Delia Derbyshire. De alguma forma, a revalorização desse trabalho pioneiro evoca as condições abertas e experimentais de que gozaram essas artistas durante um período que compreende as décadas de 50 e 80, em contraste com a situação contemporânea, na qual as mais diversas configurações técnicas se tornam possíveis. 

Há um cenário se delineando que manifesta nuances imprevisíveis, mas vale notar que: a) produz-se com qualidade técnica e estética no âmbito amador; b) distribui-se com eficácia no âmbito das redes; c) mas, como afirma Leyland Kirby na revista Wire de Janeiro de 2012, “encontrar um público e se conectar com ele está cada vez mais difícil.” Por outro lado, produzir no âmbito particularíssimo dos quartos ou na independência dos selos, leva à experiências sonoras igualmente imprevistas. Apesar da quantidade massacrante de arquivos comprimidos que fazem parte da nossa vida, nunca se deu tanta bola para a retomada de processos analógicos e outras sonoridades que só agora puderam emergir democraticamente.

E o samba, hein?

– Por fim, se observa a familiariade remota, que se deu de forma bastante acentuada em 2011. Explico: “Consiste no fato de contrairmos familiaridade com manifestações culturais absolutamente distantes das nossas. Evidentemente que não me refiro somente à música feita em 2011, mas a uma forma específica com a qual escutamos a música de todos os tempos e lugares, segundo as técnicas de gravação, reprodução e distribuição disponíveis na praça” (citado daqui). Em outras palavras, a difusão em rede permite a visualização e familiarização com extratos culturais que antes eram apenas identificadas sob a chancela do “outro”. Não que o suposto abismo que separa ocidente e oriente tenha se apagado, mas não me parece irrelevante o fato de que tenha se reduzido consideravelmente. 

Nesse sentido, um caso interessante (e difícil) é o do Mali: como dar conta de um manancial que inclui nomes como o de Sidi Touré, Vieux Farka, Tinariwen, Boubacar Traoré, Bombino e Oumou Sangaré (que fez talvez o maior show do ano, pelo menos no Rio) sem ter um pano de fundo histórico e experiencial consistente? Pois bem, a questão da familiaridade sonora já foi resolvida pelo advento dos selos dedicados à música africana e pelo MP3, e a música do Mali está longe de ser algo alienígena, como era no início da década passada. E no entanto, como bem observou nosso colunista Lucio Branco, ainda ouvimos os gritos mal-educados de fãs da Macy Gray durante o show do sensacional Tinariwen… 

















Dito isto, apresento 20 discos e 40 faixas de 2011, com toda aquela dúvida pertinente de quem deseja permanecer saudável diante do turbilhão. Isso não implica, de forma alguma, em virar as costas para a grande onda, mas surfá-la na medida do possível. E do aprazível… Talvez alguns álbuns e faixas não devessem entrar, como o deslumbrante Recanto, de Gal Costa ou Três Cabeças Loucuras, a guinada espetacular do São Paulo Underground (comparável à do Æthenor), por conta das poucas audições. Mas como resistir diante de momentos tão diferentes de tudo o que se faz hoje em território nacional. Consciente de que pelo menos 50% dessa lista poderia ser substituída por outros títulos tão ou mais representativos, e que o modo "esquecimento saudável" está acionado, adiciono, pelo menos em relação aos álbuns, uma lista complementar – e incluo compilações e relançamentos. 


































20 Discos (os dez primeiros, em ordem)
Eliane Radigue – Transamorem, Transmortem
São Paulo Underground – Três Cabeças Loucuras 
Gal Costa – Recanto 

E mais:
King Midas Sound – Without You, Peaking Lights – 936, Micachu & The Shapes – Chopped & ScrewedPrefuse 73 – The Only She Chapters, Orchestre Poly-Rythmo – Cotonu Club, Colin Stetson – New History Warfare Vol. 2: Judges, Thruston Moore – Demolished Thoughts, Akron/Family – s/t II: The Cosmic Birth and Journey of Shinju TNT, Meredith Monk – Songs Of Ascension, Joe McPhee & Chris Corsano – Under a Double Moon, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Thiago França – Metá Metá, Nicolas Jaar – Space Is Only Noise, Seefeel – Seefeel, DeepChord Hash–Bar Loops, Hecker Speculative Solution, Kate Bush – 50 Words for Snow, Satanique Samba Trio – Bad Trip Simulator #1, Tom Waits – Bad as Me, Sonic Youth – Simon Werner a Disparu, Red Noise - Red Noise, FaltyDL – You Stand Uncertain, Julia Holter – Tragedy, Bombino – Agadez, Conrad Schnitzler & Borngräber & Strüver – Con–Struct, Fire! With Jim O'Rourke – Unreleased?, Shabazz Palaces – Black Up, Burro Morto – Baptista virou máquina, Death Grips – Exmilitary , Grutronic And Evan Parker – Together In Zero Space, 2562 – Fever, Vladislav delay quartet – Vladislav Delay Quartet, Leyland Kirby – Intrigue & Stuff (Vol. 1), Aube – Variable Ambit, Anne–James Chaton – Événements 09, Panda Bear – Tomboy, Andy Stott – We Stay Together, Peter Evans Quintet – Ghosts, Ekundayo, Hype Williams – One Nation, Liturgy – Aesthethica, Daniel Menche & Anla Courtis – Yaguá Ovy, Black Pus – Primordial Pus, Zomby – Dedication, Tinariwen – Tassili, Radiohead – TKOL RMX 1234567, Ekoplekz - Memowrekz, Rene Hell – The Terminal Symphony, Sobre a Máquina – Areia, Reinhold Friedl – Inside Piano, Tyler, The Creator – Goblin, Sun Araw – Ancient Romans, Soema Montenegro – Pasionaria, Africa Hitech – 93 Million Miles, Chris Watson – El Tren Fantasma, Earth – Angels of Darkness, Demons of Light 1, Prurient – Bermuda Drain, Arrington De Dionyso Suara Naga, Demdike Stare – Tryptich, Africa Hitech 93 Million Miles, Akira Sakata & Jim O'Rourke with Chikamorachi – And that's the Story of Jazz..., Nate Young – Stay Asleep, Bellows – Handcut, Cyclo. – Id, Brian Eno – Drums Between The Bells , Caldo de Piaba Volume 3, Charalambides – Exile, Chinese Cookie Poets – Dragonfly Catchers and Yellow Dog EP, Clams Casino Rainforest EP, CoH – IIRON, Fennesz – Seven Stars, Leykand Kirby – Eager to tear apart the stars, Cut Hands – Cut Hands, Gui Borato – III, Omar Souleyman – Haflat Garbia – The Western Concerts, Kassin – Sonhando Devagar, Blu – NoYork!, Four Tet – FabricLive 59.




40 Faixas (sem ordem)

“Far Out” – Pete Swanson (ouça "Misery Beat")
“E.F.M–M in concert” – Satanique Samba Trio (assista)
“Artianat” – Sidi Touré (ouça "Bon Koum")

Uma faixa antiga, mas que só apareceu agora: "Gambari" – Sorry Bamba




























Coletâneas e Relançamentos
Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou – The 1st Album
Rob – Funky Rob Way
El Rego – El Rego
Erkin Koray – Meçhul: Singles & Rarites
John Fahey – Your Past Comes Back to Haunt You
Vários – Bangs And Works Vol 2: The Best Of Chicago Footwork.
This Mortal Coil – This Mortal Coil (Box Set)
Beach Boys – The Smile Sessions
Jürgen Müller – Science of the Sea
Nahawa Doumbia – La Grande Cantatrice malienne
This May Be My Last Time Singing: Raw African-American Gospel on 45 RPM 1957-1982
Black Truth Rhythm Band – Ifetayo
Ursula Bogner – Sonne = Blackbox

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