sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Minicrônicas Discográficas #4

Esta minicrônica, a de número quatro, marca a chegada ao Matéria de dois novos colaboradores. Além dos textos de Lucio Branco (que nos brindou recentemente com o GENIAL Sorry Bamba) e de Bernardo Oliveira, esse que vos fala, o Matéria contará com os textos de Thiago Miazzo e Antonio Marcos Pereira. Miazzo é de São Paulo, estreou escrevendo sobre Just Once, o ep “acústico” do How To Dress Well, e esta semana se dedicou a um dos discos mais celebrados do ano: Bermuda Drain, do Prurient. Antonio Marcos é de Salvador, nos trouxe Man With Potential, o último rebento de Pete Swanson (ex-Yellow Swans) e uma crônica memorialista sobre Sapphie, do guitarrista britânico Richard Youngs. A julgar pela seleção de álbuns e artistas, os novos autores chegam para somar, de modo que a proposta do Matéria continua de pé: música e adjacências (siga-nos no Twitter, @MateriaBlog).


Três notas:

- Em dezembro, o Rio de Janeiro foi palco do Festival Novas Frequências, produzido pelo Chico Dub e que aconteceu no Oi Futuro Ipanema, com apoio da FACT Magazine PT. O festival trouxe à cidade um time peso pesado de música eletrônica híbrida, com enfoque em novos gêneros e tendência sonoras. Por conta do festival, tivemos a oportunidade de escutar os graves de Andy Stott ao vivo, as viagens canábicas de Sun Araw, o cubismo digital de Murcof e o surpreendente Com Truise mostrando que é mais do que um trocadilho histriônico. No lugar de Mark Mcguire, cancelado por questões de visto, duas escalações nacionais: o brasiliense Pazes e o mineiro Psilosamples. Com o envolvimento da FACT, tiver a oportunidade de entrevistar o Cameron Stallones (Sun Araw) e o Fernando Corona (Murcof), e ainda tem uma do Andy Stott na rebarba, vamos ver se rola…

- Ontem chegaram notícias sobre o racha na Abrafin, durante o congresso Fora do Eixo. Treze festivais, entre eles o Goiânia Noise Festival e o Abril Pro Rock, alegam “que não se sentem à vontade com o atual estado de coisas”, sugerindo relações problemáticas entre a entidade e o circuito/rede de trabalho Fora do Eixo. Gustavo Mini, do blog Conector, compilou parte dos artigos de uma polêmica que já se arrasta há alguns meses, mas possui raízes profundas na cultura que orienta a produção musical brasileira. Na sequência, a entrevista do China, a resposta do Bruno Kayapy, do Macaco Bong, e a polêmica Elma/Mombojó/Studio SP. Evito me posicionar nesse debate, porque percebo que ambos erram e acertam, mas um detalhe deve ser observado: a salutar, ainda que por vezes destemperada, inclinação para o debate. Que isso aconteça em âmbito nacional, com a contribuição decisiva de capitais como Cuiabá já me parece digno de nota. 

- Para finalizar, textos sobre Without You, coletâneas de reworks e revoices do King Midas Sound, o último de Gui Boratto, dois dos discos mais importantes do ano, os geniais patten: GLAQJO XAACSSO e Pinch & Shackleton, a volta de Tom Waits, com Bad As Me e um álbum que já foi minicrônica, mas sobre o qual escrevi mais longamente: Omar Souleyman, Haflat Gharbia – The Western Concert. De resto, escutando o maravilhoso disco do São Paulo Underground, do Satanique Samba Trio, Anomia, mais um EP surpreendente do trio carioca Sobre A Máquina, a Kate Bush renovada de 50 words for Snow, o disco alienígena de Julia Holter, Teebs, Dimlite, Meredith Monk, a última loucura de Weasel Walter, Electric Fruit, o volume 2 da série Bangs & Works, dedicado ao juke, a impressionante (tripla!) coletânea This May Be My Last Time Singing, parceria do selo americano Tompkins Square com o colecionador Mike McGonigal, o bandcamp do trabalho solo de Nick Zammuto (do The Books), mais novidades surpreendentes do Pole, Oval novo (ainda não escutei direito, mas parece mais uma loucura), Gal reinventando-se (deixando-se reinventar) por Caetano, Kassin, Moreno Veloso, Rabotnik… 

Semana que vem, hora de botar a listomania reprimida para fora: melhores do ano, lista dos críticos e convidados. Aguardem!


Rrose x Bob Ostertag – Motormouth Variations (2011; Sandwell District, Reino Unido)
“Pense Seurat e pense impressionista”: o pontilhismo é uma declaração de guerra à firmeza apolínea do traço, da linha reta. Filho dileto do impressionismo, constitui o tipo de técnica que favorece à poética por transfiguração, como Joyce, como Stravinsky… Este álbum, que combina o talento do anônimo Rrose com o veterano Bob Ostertag, parece se orientar rigorosamente pelos preceitos pontilhistas: os timbres esfarelados que Ostertag destilou em seu Motormouth, de 2011, servem como peça num quebra-cabeça rítmico dos mais intrigantes deste ano. São oito faixas, duas assinadas por Ostertag, as restantes por Rrose. O pontilhismo de Ostertag é mais radical, seco, enquanto o de Rrose é mais abstrato, e se desenvolve através de formas menos rígidas. Vale notar que Rrose lançou mais dois 12” pelo selo Sandwell District, “Merchant Of Salt” e “Primary Evidence”, infelizmente menos interessantes que Motormouth Variations.

Liturgy – Aesthethica (2011; Thrill Jockey, EUA)
Liturgy é a banda do guitarrista e compositor Hunter Hunt Hendrix, com seus chapas Tyler Dusenbury (baixo), Greg Fox (bateria) e Bernard Gann (guitarra). Segundo Hendrix, o Liturgy é uma experiência de “black metal transcendental”, expressão cujo significado ele tentou explicar no paper acadêmico homônimo (“Black Metal é o metal no modo Sacrifício”), e que em virtude de sua concepção arrojada, vem atraindo críticas negativas por parte dos especialistas do gênero. A julgar por este belo álbum que é Aesthethica, trata-se da implantação de timbres e harmonias que não são propriamente do universo do gênero, como exemplifica o Bathory e o Immortal. Para além dos ritmos velozes e texturas concentradas, o Liturgy confere uma forma mais solta às composições, incluindo viradas de bateria, convenções minimalistas, harmonias oitavadas e timbragem diferenciada – na caixa de “Generation”, por exemplo, ou na introdução intrigante de “High Gold” (aqui em ótima versão ao vivo, pois não encontrei a versão do disco com a introdução).

Erkin Koray - Meçhul: Singles & Rarities (2011; Sublime Frequencies, EUA [Turquia])
Desde a década de 50, quando fazia imitações de Fats Dominos e Elvis Presley, Erkin Koray é o grande nome do rock turco. Líder não de uma geração, mas de pelo menos quatro gerações do rock turco, Koray teve influência sobre outros expoentes relevantes da música turca, como o Mogollar e Selda Bagcan (sampleada à beça). Sua vasta contribuição compreende o psych rock dos anos 60, o rock progressivo dos anos 70, cobrindo praticamente 50 anos de atividade. Este ano, após o lançamento em 2006 de uma coletânea pelo selo World Psychedelia Ltd., a Sublime Frequencies editou uma saborisíssima compilação de singles e raridades. Faixas como “Cümbür Cemaat” e “Had Hadi Ordan” trazem melodias engenhosas e cativantes, que demonstram o talento de Koray em mesclar o cancioneiro com trejeitos ocidentais aos arabescos melódicos da música turca.
Ps.: consta que além de músico, compositor, etc., Koray criou a baglama.

S.T.A.B. Electronics – The Non Alliant I (2011; Unsound Recordings, Reino Unido)
Que a música Industrial é um gênero que trabalha o lado mais escroto do ser humano, todo mundo sabe, mas poucos são capazes de lapidar a perversão do homem e transformá-la em arte, destacando-se dos demais artistas. Junte o fascínio pela morte, presente nos trabalhos do Atrax Morgue, com a perversão sexual do Whitehouse e você vai ter uma idéia do que esperar de The Non Alliant I, um disco de Power Electronics que te dá medo de sair de casa, que te faz conferir cinco vezes se a porta está trancada antes de dormir, um disco que te deixa com receio de conhecer novas pessoas.

Vatican Shadow – Washington Buries Al-Qaeda Leader at Sea  (2011; Hospital Productions, EUA)
O ano de 2011 foi produtivo para Dominick Fernow – só com o Vatican Shadow foram lançados seis álbuns, entre eles o excelente Washington Buries Al-Qaeda Leader at Sea. O álbum – dividido em três fitas cassettes - tem cara de documentário e apresenta um Minimal Synth com pitadas de Dark Ambient, apostando em sintetizadores sombrios e passagens hipnóticas, acompanhados por uma bateria minimal.

Cold Body Radiation – Deer Twilight (2011; Dusktone, Holanda)
Pouco se sabe a respeito do misterioso M., único membro do Cold Body Radiation, exceto o fato de ser originário da Holanda e fazer música com uma forte inspiração nos últimos trabalhos do Alcest, Les Discrets e toda a cena francesa envolvida com o chamado Post-Black Metal. Deer Twilight, o segundo álbum do CBR, mistura a atmosfera flutuante típica do Post-Rock, a parede de ruídos e os vocais borrados do Shoegaze, flertando sutilmente com o Black Metal ao longo das sete faixas do disco.

Bernardo Oliveira e Thiago Miazzo

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