quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

(crítica - disco) El Rego Et Ses Commandos – El Rego (2011; Daptone Records/Voodoo Funk , EUA [Benin])

Iniciamos a presente resenha com um tema já exaustivamente explorado na nossa contribuição ao Matéria. Resumindo: a música do beninense El Rego é exemplar da influência exercida pelo funk sobre boa parte do que se compôs e executou na costa ocidental africana dos anos 1960/70. Artista que conheceu a fama em seu país nesse período, soube como poucos assimilar a dicção rítmica criada por James Brown e o J.B.’s às batidas sincopadas do sato e da sakpata, ritmos locais que conduzem os rituais vodu. O vodu é a religião oficial do Benin, nação que conta com um contingente muito considerável de retornados – muitos deles oriundos de um Brasil imediatamente pós-abolição da escravatura. Nos percursos de ida e regresso do circuito África-Américas – mais propriamente, neste elo Brasil-Benin –, as trocas foram muitas. E, evidentemente, não deixaram de se reproduzir.

A carreira de Monsieur Theophile Do Rego, natural da capital Porto Novo, é praticamente contemporânea da transição do seu país da condição de colônia francesa, o ancestral Reino de Daomé, à República de Daomé, em 1960. E, a partir de 1975, à República Popular do Benin, que então passaria a adotar o socialismo como regime de governo. Também contemporâneo e patrício da (finalmente hoje) celebrada Tout Poussant Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou (assim como dos legendários Gnonnas Pedro, Honoré Avolonto e Antoine Dougbé), El Rego tem boa parte da sua produção resgatada pelas prospecções realizadas tanto por selos como o alemão Analog Africa, como pelo também alemão DJ e colecionador Frank Gossner, ou Voodoo Frank, ativo na noite de Nova York e responsável pelo blog Voodoo Funk, que documenta seu périplo pelo ocidente africano (principalmente Nigéria, Gana, Togo e, claro, Benin) numa busca incessante por compactos e LPs de afrobeat e afrosoulfunky. E é nesta última seara, em boa parte, que se situa a presente coletânea, intitulada simplesmente El Rego.

“Se Na Min”, faixa que divide com “Gbeti Madjro” – clássico absoluto da Poly-Rythmo – a condição de a mais agressiva da melhor coletânea afromusical recente (e, como não é de se surpreender, também lançada pela Analog Africa), African Scream Contest: Raw & Psychedelic Afro Sounds From Benin & Togo 70s, de 2008, El Rego Et Ses Commandos (banda que o acompanhava à época), chamou muito a atenção pelos grunhidos e berros guturais à James Brown. Uma “histeria” vocal não exatamente reproduzida como uma simples e calculada emulação, mas como uma adaptação de um estilo particular à linguagem própria das tradições sonoras beninenses. E, claro, sempre como o resultado do cruzamento entre as modalidades rítmicas de ambas as culturas musicais: a “original” (africana) e a “crioula” (da diáspora negra – no caso, situada nos Estados Unidos). A provar isso, eis aqui mais um dado que salta à primeira audição de “Se Na Min”: a função rítmica do teclado, executado nervosamente, como é marca desta estética de (re) apropriação do funk. Mas não seria esta apenas a única composição de El Rego que se revelaria a um público renovado, potencialmente mais amplo, fora do contexto d’África dos 1970. Em 2009, sairia pela mesma Analog Africa, Legends of Benin, compilação fundamental que conta com quatro faixas de sua autoria, sempre secundado pelos Commandos, parceiros fiéis da empreitada funky da sua carreira. (A saber: “Se Na Min” também está na versão em vinil de El Rego como um compacto bônus em 45 RPM.)

Numa versão antiga do – outrora disponível no youtube – avant trailer do documentário em fase de produção Take Me Away Fast, que registra Frank Gossner através do Ocidente original profundo, El Rego aparecia como o depoente mais incrédulo e desesperançado dentre todos os músicos veteranos que, agora, como ele, desfrutam de certo reconhecimento tardio no exterior. Em determinado momento da sua entrevista, inclusive, não aparenta ficar muito convencido de que as músicas que compôs e gravou naquele período possam embalar tanto assim as pistas comandadas por Voodoo Frank, o referido alter ego discotecário do seu interlocutor, Frank Gossner, que o intera disso, grato.

E, como não poderia ser muito diferente, é sob a direção de Gossner que, finalmente, em outubro deste ano, a norte-americana Daptone Records decide lançar parte da produção do final dos 1960 e início dos 70 de El Rego. El Rego traz material parcialmente conhecido pelos ouvintes das outras coletâneas anteriormente mencionadas e, também, faixas “novas” cuja recepção na atualidade, fatalmente, alcança uma fatia bem mais extensa de público do que aquela da época do seu lançamento em compactos. Obviamente, refiro-me ao seu acesso franqueado pela internet.

A audição de El Rego começa com “Feeling You Got”, já presente em Legends of Benin com o seu acordeon fazendo a vez da guitarra que tradicionalmente segura a levada funky e a sua linha de baixo econômica e tensa. Trata-se da única composição em inglês do álbum (as restantes são em francês ou em fon). Nela, El Rego já apresenta o padrão das faixas seguintes: a releitura pessoal dos trejeitos vocais à Brown. “Zon Dede”, cujo reduzido set percussivo e breve uso do efeito do pedal wah wah na guitarra só a tornam ainda mais interessante. Para os ouvidos viciados em folclore, “E Nan Mian Nuku”, que também integra o repertório de Legends of Benin (sabemos que a produção de El Rego não é exatamente limitada – então, por que tanta repetição de faixas nessas coletâneas?), deve soar como um registro mais autorizado do que se reivindica como a suposta e legítima “essência” da música nacional em questão. (Não nada é gratuito perceber certo parentesco com os pontos executados nos rituais das religiões afrobrasileiras e afrocubanas.) “Djobime” e “Cholera” apresentam a mesma estrutura polirrítmica da acelerada e mencionada “Gbeti Madjro”, que, no seu “atropelo” vocal e instrumental, prova que o tempo da música africana é diferente daquele com que estamos mais familiarizados. (Mas seria necessário dizer isso aqui?) O mesmo teclado nervoso que responde pela marcação rítmica de “Se Na Min” está em “Dis-Moi Oui” e “Achuta” como testemunho dessa assimilação ímpar da gramática funk – uma personalíssima assinatura de estilo. “Hessa” é de longe a canção de maior apelo pop do disco – e me parece que isso deva ter efeito mesmo em todos os quadrantes do globo: El Rego, no seu depoimento a Frank Gossner, diz que ela foi um estrondoso hit local, em 1965. “Do Do Baya” apresenta ecos “afrolatinos”, uma tendência forte na época. Rumba e salsa eram gêneros populares em muitos países africanos e, segundo a tradição das trocas culturais, assumiram formas nativas expressivas como, por exemplo, o soukous congolês e o highlife ganês. E “Ke Amon-Gbetchea”, que fecha o álbum, é um rhythm and blues de andamento lento que não deixa dúvida quanto à versatilidade daquele que é mais lembrado como o “Benin's Godfather of Funk”. 

El Rego é uma valiosa peça sonora que, mais que recortar parte da obra de um músico que desfrutou de invulgar popularidade no seu país por um certo período de tempo, promove, com o seu lançamento, a rara oportunidade de se reparar a injustiça da sua inexistência num circuito cultural mais amplo. E não é à toa que Frank Gossner tenha adotado o nome artístico que ostenta. Ao produzir esta coletânea, ele ajuda a lançar luz sobre o DNA vodu do funk.

Lucio Branco

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