terça-feira, 10 de janeiro de 2012

(crítica - disco) Hadaka No Rallizes – ’77 Live (1991 [1977], Rivista Inc., Japão)

Hadaka No Rallizes: the acid dawn of the Rising Sun – I
A garage hermétique transpsicodélica do arquipélago do Sol Nascente é uma cornucópia aparentemente infindável de deleite e perplexidade para os cultores do psych rock em seu estágio mais extremo e esmerilhante de desorientação sônica. Formações tais como Fushitsusha, Taj Mahal Travellers, Flower Travellin’ Band, High Rise, AMT, Musica Transonic, Mainliner, Boris, etc. são sublimes exercícios de puro delírio sem quaisquer concessões e recuos, explorando com máxima audácia todos os desvãos da psicodelia, da plácida hipnose dos devaneios de folk psicoativo até colossais maremotos elétricos transbordantes de white noise e brutalismo percussivo. E na raiz de todo este estraçalhamento psíquico de garagem, influenciando de forma decisiva a siderurgia sonora japonesa ulterior, está a mitológica banda que iremos abordar numa trinca de resenhas: Hadaka No Rallizes/Les Rallizes Dénudés.

Como todo lost classic que se preza, não seria possível falar em HNR sem referir sua acidentada trajetória. Pois muito bem: a banda formou-se em novembro de 1967 na Universidade de Kioto, tendo como eixo criativo e existencial precípuo a críptica e mefistofélica figura de Takashi Mizutani, um misantropo nosferatu neogótico envolto em eterno couro preto e óculos escuros impenetráveis. Entre 1968-69 o grupo tocou bastante ao vivo, mormente em festivais universitários, happenings políticos e também em parceria com uma trupe local de teatro avant garde, tornando-se conhecido pelos teores excruciantemente altos de microfonia e distorção de suas maciças jams psicosônicas. Desde o começo Mizutani e sua gang estavam intimamente ligados à esquerda revolucionária japonesa, tendo participado de numerosas demonstrações estudantis contra a Guerra do Vietnã e da ocupação da Univ. de Kioto em 1969, em protesto contra a presença militar imperialista dos EUA no arquipélago japonês. Em 1970, um dos integrantes da formação original, o baixista Moriyasu Wakabayashi, seria preso em virtude de sua participação no chamado ‘incidente Yodo-Go’, quando membros do movimento guerrilheiro Sekigun (Exército Vermelho Japonês) seqüestraram um avião comercial e o desviaram para a Coréia Popular. Mizutani também estava envolvido com o Sekigun, de modo que os concertos de seu grupo em larga medida logo se tornariam eventos clandestinos; conta-se que num deles, por exemplo, a banda tocou numa escola secundária, distribuindo para a platéia de estudantes cópias mimeografadas de textos de Hegel, Lenin, Che Guevara, Cervantes, Nietzsche e Ed Sanders.

Malgrado o Hadaka No Rallizes tenha continuado a apresentar-se com regularidade no decorrer das décadas de 70 e 80, nenhum registro fonográfico seria lançado neste longo período, e as sessões de gravação em estúdio tampouco foram algo freqüente na rotina do grupo. Em 1991, quando quase ninguém mais sequer lembrava de sua existência, o grupo, numa inesperada reviravolta, criou um selo (Sixe) e lançou 3 álbuns simultaneamente: '67-'69 Studio and Live, Mizutani – Les Rallizes Dénudés e '77 Live, todos em limitadíssimas edições que logo se tornariam raridade e passariam a ser disputadas a tapas e preços exorbitantes por legiões de ansiosos arquivistas do underground. A banda voltaria à obscuridade após este surpreendente surto de atividade, encerrando definitivamente suas atividades em 1996.



Dos três álbuns oficiais lançados em 91 (pois há toneladas de bootlegs em vinil, CD e CD-R, sobretudo nos últimos cinco anos), '77 Live é indubitavelmente o melhor, apresentando o HNR em seu habitat natural, o palco, quando a banda escancarava as portas de percepção em tonitruantes workouts de noise rock demencial, com patente destaque para o gerador hellraiser de alucinações psicodélicas seriais em que Mizutani converte sua guitarra elétrica, em fascinante contraste com o tom old fashion e alicerçado nas tradições de rock singing de seus vocais; e se nas gravações de estúdio os camaradas costumavam praticar um acid / psych rock relativamente ‘estruturado’, ao vivo a coisa realmente muda de figura, e como...! Imaginai, pois, um Velvet Underground marciano com transtorno de personalidade borderline, integrado por pinheads viciados em benzedrina e munidos de instrumentos de enésima categoria, tocando uma interminável “Sister Ray” dentro de um pântano radioativo, com o som saindo por uma vitrolinha mono defeituosa mas amplificada por 1000 PA’s, e tereis uma vaga idéia do que vós encontrareis pela frente neste álbum...

Alfredo RR Sousa


Ouça "Enter the Mirror"

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