quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

(crítica - disco) Hadaka No Rallizes – Cradle Saloon '78 (2006 [1978]; Univive, Japão)



Hadaka No Rallizes: the acid dawn of the Rising Sun – II

Uma das características mais assombrosas do Les Rallizes Dénudés é sua aparentemente infinita capacidade de retrabalhar um repertório que, se calhar, não vai além de 3 dezenas de composições ao longo quase 30 anos de carreira. Como se “Conjecturas de Poincaré” fossem, cada tema é um espaço tridimensional cujos contornos a um só tempo podem ser retraídos até um núcleo primordial e desdobrados em múltiplas formas, indo e vindo em blocos sonoros que não perdem a identidade mesmo quando submetidas às mais intensas curvaturas e tensões.

Assim sendo, por intermédio do modus operandi acima mencionado, Takashi Mizutani e sua lograram, pois, resumir / reciclar / sublimar / expandir toda o multitentacular universo das lides psicodélicas, levando à máxima perfeição um mister em que os filhos do Sol Nascente se revelam particularmente eficazes: o reprocessamento criativo de tradições culturais alienígenas. Destarte, Les Rallizes Dénudés poderia ser descrito como usina nuclear de sons, onde foram precipitados como combustíveis todo o krautrock de matriz psicodélica (Guru Guru, Ash Ra Tempel, Amon Düül II, Brainticket, Cosmic Jokers, etc.); ‘artefactos’ desarvorados da cena psych européia dos anos 60-70 (Le Stelle di Mario Schifano, Parson Sound, Älgarnas Trädgård, Alrune Rod, Povl Dissing, etc.); os titãs transatlânticos da psicodelia estadunidense (de nomes notórios como Blue Cheer e Jimi Hendrix a monstruosidades terminais como Father Yod, Anal Magic & Rev. Dwight Frizzell, Cromagnon, etc.); anomalias britânicas da estirpe de Hapshash & The Coloured Coat, Deviants, etc., entre outros. Considerada toda essa assombrosa plêiade de influências, tentem agora imaginar tudo isso levado às últimas conseqüências da desmesura sônica intergalática, em formulações que variam desde delicadas elegias de corte folk-psicoativo a descomunais maelstrons elétricos encharcados de avassaladoras microfonias guitarrísticas over the top, hipnose percussiva e vozes mal-assombradas ecoando no espaço sideral... can you dig it…?

A esse respeito, a audição de um álbum como Cradle Saloon ‘78 (que registra um concerto levado a cabo em Tóquio no dia 1 de dezembro de 1978) é uma experiência surpreendente até mesmo para os mais 'escolados' apreciadores da banda; “Night of the Assassins”, por exemplo, é desacelerada até se converter num oceano viscoso de microfonia terminal em compasso de bad trip de heroína; “Strong Out Deeper Than the Night”, por seu turno, ganha sobretons góticos, transformando-se n'algo muito mais soturno e inquietante que a versão 'tradicional' presente em Heavier Than a Death in the Family; “Blues”, em duas encarnações, acrescenta generosas doses de propulsão motorik à tempestade elétrica freeform de “Smokin' Cigarrete Blues”; o grande 'cavalo de batalha' da banda, “The Last One”, também em duas versões, cada qual com cerca de 40 minutos de duração, abandona as últimas paragens conhecidas para precipitar-se numa ignota e ominosa nebulosa de caos, um massacre ultra/mega/hiper/meta/transpsicodélico, descomunal, ciclópico e rigorosamente insano, trovejando ininterruptamente em full power flat out noise terror atack mode ON e submergindo o ouvinte num oceano magmático de distorção sônica oriundo do próprio Inferno. Trata-se, confrades, de ultraviolência sônico/sadomasoquista em aterrorizantes espasmos de crueldade e, em última instância, fascista... é, quiçá esta seja exatamente a metáfora mais adequada: caso Heinrich Himmler, Reinhard Heydrich, Karl Maria Wiligut e Julius Evola fossem fanáticos por rock’n’roll e viciados em heroína, “The Last One” decerto seria o grimório sonoro que urdiriam ao cabo de uma delirante jornada embalada por toneladas de brow sugar e sanguinolentos rituais neopaganistas.

Alfredo RR Sousa

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