terça-feira, 3 de janeiro de 2012

(crítica – disco) Mainliner – Mellow Out (1996; Charnel Music, EUA [Japão])

Rock ON / Stone IN / Freak OUT!

Confusão, exagero e indulgência.Tais seriam, não seria desarrazoado supor, os aspectos mais evidentes num primeiro contato com as walpúrgicas emanações de maximum overdrive ultimate carnage fuzz noise destruction da psicodelia hellraiser nipônica; e malgrado as propriedades supracitadas decerto façam parte da garage hermétique das Ilhas do Sol Nascente, um olhar mais atento poderá desvelar duas características deveras insuspeitas a princípio, mas igualmente importantes nesta brutal alquimia: 1) uma obsessiva demanda pela pureza formal, depurando radicalmente o rock'n'roll de seus elementos circunstanciais e/ou contingentes, no intuito de atingir seu âmago mais primevo e catártico; 2) o ostinato rigore (apud Da Vinci / Valéry) com que tal intento é perseguido.

A estréia do Mainliner, imaculado power trio da maçonaria psico-sônica japonesa, inner sanctum supino da descerebração elétrica nos confins do cosmic inferno, urdido pelos notórios Asahito Nanjo (High Rise) e Makoto Kawabata (AMT), é porventura o álbum onde os excelsos desígnios acima esboçados logram atingir sua mais consumada realização estética. Mellow Out (1995) é, portanto, o mais blasfemo grimoire, o luciferino Graal de toda uma insigne linhagem, iniciada pelos míticos Hadaka no Rallizes, e dedicada às lides da obliteração sônica via muralhas rutilantes de ruído terminal e maremotos percussivos. Há também que louvar a determinação e coragem necessárias à criação de uma obra como essa, cuja espartana, monocromática unidimensionalidade, não permite o recurso a quaisquer expedientes diversionários de aliciamento, tal como sói ocorrer mesmo com os mais temerários argonautas do delírio übber-rockist: o que temos aqui, sem disfarces, adornos ou estratégias de sedução, é toda a selvageria primordial do rock'n'roll, desde o primeiro uivo lancinante de shoutin' blues a trovejar nos algodoais do deep south, concentrada / sublimada em inolvidáveis 35 minutos de êxtase psych.

"Cockamamie", breve descarga de desvario protopunk à la Stooges, é sem dúvida um belo cartão de visita, mas funciona apenas como prelúdio aos inclementes exercícios de devastação psicodélica in extremis que completam o álbum.

"Black Sky" é, a meu ver, a mais irretocável demonstração do genial modus operandi da banda: a pulsação hipnótica instaurada por Nanjo (baixo elétrico) e Hajime Koizumi (bateria) proporciona ao ouvinte uma conveniente ilusão de continuidade rítmica, enquanto Kawabata (guitarra elétrica) paulatinamente vai conjurando suas brumas de feedback púrpura... e então, de súbito, tudo se desmancha numa inaudita tempestade de white noise sulfuroso, avalanche abstrata de ruído desenhando espirais de caos eletromagnético; o pulso rítmico adrede erigido então retorna, mas o ouvinte já não mais consegue se sentir 'amparado'... e com toda razão, diga-se de passagem, posto que os minutos finais da peça irão precipitá-lo, sem dó nem piedade, no vero báratro tonitruante de uma supernova de esmerilhação guitarrística em search & destroy full hate mode ON.



"M", por seu turno, é Albert Ayler meets High Rise in the land of sonic evisceration. Assim sendo, muito embora a estrutura forjada por Black Sky seja mantida, temos o trio num registro mais jammin', com a bateria de Koizumi abrindo os trabalhos em compasso free antes de estabilizar o compasso; em seguida, Nanjo entra em cena, novamente tentando nos mesmerizar com a densa hipnose de seu baixo e vocal reverberantes; e a Kawabata cabe, uma vez mais, dilacerar a fugaz promessa de devaneio opiáceo oferecida por seus confrades, dessa feita com rajadas e mais rajadas de wah wah's alucinados em combustão instantânea. A duras penas, Nanjo e Koizumi restabelecem o beat inicial, numa derradeira quimera de 'normalidade' musical, que será, enfim, pulverizada pela feroz motosserra lisérgica de Kawabata, implacável lança-chamas sonoro em razzias sucessivas de microfonia over the top, bem como através d’um aterrador terremoto de fuzz bass desencadeado por Nanjo.

Chapeau, meus caros confrades, e uma última observação: Mellow Out é "só para raros, só para loucos" (apud Hermann Hesse), 'teatro do Lobo da Estepe' larger than life para acidheads irrecuperáveis, vagando através dos labirintos siderais do alheamento transpsicodélico. Isto posto, sentencio: que os 'normais' mantenham distância!

Alfredo RR Sousa
Ouça "M"

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