quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

(crítica – disco) São Paulo Underground – Três Cabeças Loucuras (2011; Cuneiform Records, EUA [Brasil])

Barulho, melodias, improvisos, combinação de sonoridades, levação de som espontâneo reajustada pelo computador, mais barulho... A música do São Paulo Underground sempre transitou por esses caminhos, mas de uma forma diferente a cada álbum. Porém, diante de Três Cabeças Loucuras, se consolida a certeza de que este é um grupo que não se deixará guiar por nada que não seja o interesse em explorar sua música. E isso tanto do ponto de vista da pesquisa, quanto da inovação, do ímpeto, da minúcia na execução e da fluência, que fazem de Três Cabeças Loucuras um dos melhores discos do ano passado.

O primeiro álbum, Sauna: Um, Dois, Três, trazia o espírito de improvisação abstrata, característico da cena de Chicago dos anos 90, representado pelo trumpete versátil de Rob Mazurek, ao passo que as densas camadas de timbres acústicos e eletrônicos ficava a cargo de Maurício Takara. Com a chegada de Richard Ribeiro e Guilherme Granado, ambos oriundos do Hurtmold – o primeiro responsável pelo projeto Porto – a paleta sonora não se ampliou somente, mas abriu ainda mais espaço para a intervenção do improviso e do noise. Desta relação nasceu um dos melhores discos de 2008, The Principles of Intrusive Relationship, talvez o disco mais poderoso do quarteto.

Com Três Cabeças Loucuras ocorre o mesmo, mas há que se notar um acréscimo de interesse naquilo que podemos chamar de “música brasileira”, mais particularmente, a música instrumental brasileira. Não que as características anteriores não estejam presentes, pelo contrário. Mas o novo enfoque é nítido e significativo, sobretudo através da composição dos temas e das estruturas de arranjo, que remetem ao trabalho de Egberto, Hermeto, Moacir Santos e toda uma linhagem de artistas que elaboraram uma linguagem própria de composição e arranjo, transitando no terreno do jazz, da bossa, da música latina, do samba, do baião e dos chamados “ritmos regionais”.

Porém, ao mesmo tempo, observa-se a inserção de elementos, concentrados basicamente nas timbragens e nas texturas (sons eletrônicos, basicamente), que reposicionam este legado em uma outra esfera. Não se trata de inserções ingênuas, ou de fachada, com o intuito leviano de conferir “modernidade” ao som. Não. Trata-se de um trabalho minucioso de composição e arranjo que aposta ora em melodias tristes e evocativas – geralmente em escala menor melódica, como na abertura, “Jagoda’s Dream” ou na estridência ácida de “Rio Negro”; ora em temas robustos, como na salsa “Carambola” e na polirritmia de “Six Six Eight”.

Se a música contemporânea se guia, de fato, por uma “retromania” necessariamente positiva, que justifica a cornucópia nostálgica de John Maus e Peaking Lights, então me parece razoável supor que o São Paulo Underground (assim como Letieres Leite, Guizado e Satanique Samba Trio), não busque exatamente reviver a música daqueles autores, nem copiá-la. Assim como a música de Baden Powell e Edu Lobo revém no álbum do Metá Metá, ressoa em Três Cabeças Loucuras o interesse em retomar alguns dos argumentos menos favorecidos do jazz e da música instrumental brasileira, conferindo-lhe outras cores e um rumo tão saudável quanto incerto.

Bernardo Oliveira
Assista aos vídeos.
Ouça o "acid" candombe, “Pomboral”

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