quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

(entrevista) Sobre a Máquina


Já percebeu como a cidade é tão barulhenta que, mesmo ouvindo música com fones de ouvido, alguns sons conseguem chegar até nós? Sempre os mais irritantes: buzinas, freadas, o som do motor de um ônibus que passa zunindo a poucos metros de sua cabeça, aviões, marretas, britadeiras. Algumas vezes, o ruído externo combina perfeitamente com a música, gerando um ambiente ainda mais rico em possibilidades. Misturando a sonoridade hostil de uma metrópole com drone, industrial das antigas, dark ambient e uma boa dose de experimentalismo, o Sobre a Máquina (formado por Cadu Tenório, Emygdio Costa e Ricardo Gameiro) tem três discos lançados: Decompor em 2010, o elogiado Areia e o quase-novo ep  Anomia, ambos de 2011.

Sábado (21) é um dia especial para a banda, que além de fazer o primeiro show fora de sua 
cidade natal, também lançará um box com a trilogia completa. Nesse dia, o grupo se apresentará na Casa do Mancha junto com os parceiros do Chinese Cookie Poets e o saxofonista Alexander Zhemchuzhnikov. Em um bate-papo via Skype, Cadu e eu falamos sobre a trajetória da banda, os obstáculos, a influência da metrópole no processo de criação, performances ao vivo e a apresentação em São Paulo.


Thiago Miazzo

Ouça abaixo o EP Anomia lançado em dezembro, e o clipe homônimo com direção de Betina Monteiro.





Não dá pra falar a respeito do Sobre a Máquina sem falar um pouco de seus projetos anteriores, né? Quando comparamos o Sobre a Máquina com as primeiras gravações do Ceticências, por exemplo, a diferença é monstruosa, seja na técnica ou na qualidade de gravação. Da gravação com microfone de pc até o home studio, como foi essa trajetória?

Então, foi um processo meio lento mas ao mesmo tempo natural. Eu não tinha posse de porra nenhuma, tinha um computador fudido e queria gravar as paradas lá pra 2004, e tinha que ser do jeito que dava. Aquela coisa que a gente herdou da cultura punk, do it yourself, e a gente gravava essas coisas, tanto eu quanto você, com microfone de PC. Uma galera na mesma época resolveu fazer a mesma coisa. Mas com o passar do tempo não dá vasão mais, a gente vai procurando meios de evoluir. Com o tempo comecei a me interessar um pouco mais em qualidade de som, timbragem. Isso ficou mais evidente quando eu conheci o Emygdio e o Ricardo e rolou essa idéia. A gente toca, trabalha no mesmo lugar, tem essa proximidade diária, por que a gente não junta a grana de todo mundo e monta um estudio? Maneiro, vamos fazer isso! Ai a gente começou a comprar as paradas, devagar assim, mês a mês, uma porcentagem do salário é pra isso. No espaço de um ano, a qualidade de gravação evoluiu pra caralho.

Quando você me mostrou as primeiras demos do que seria o Sobre a Máquina, eu lembro que era uma rasgação de seda fudida do Neubauten e outros nomes do early industrial. E foi uma surpresa ouvir o Decompor, e uma surpresa ainda maior quando chegamos ao Areia ou o  Anomia. Fale um pouco a respeito desse processo, das demos até o  Anomia.

Nas demos, comecei a experimentar as idéias das percussões, e no início a gente ainda captava com os microfones médios, não tão bons quanto os que a gente usa agora. Enfim, eu tava experimentando, nunca tinha feito isso, sei lá, gravar com um ventilador tentando não colocar o vento do ventilador na frente da parada, testar vários métodos de gravar as mesmas coisas, daí surgiram as demos. Eu gravava num shure meia-boca e botava os pedais de efeito, não sabia como fazer isso, foi na vibe de ir aprendendo gravando. No fim das gravações do Decompor a gente já tinha um condensador legal, um microfone bom, já tinha pego as manhas de colocar uma ambiência maneira e os efeitos certos pras sucatas.

Então o Decompor foi o disco do aprendizado, o disco que vocês começaram a gravar de um jeito e terminaram de outro?

Foi mais ou menos isso. A gente levou essa idéia de aprendizado pra banda. Esse processo da trilogia, enfim, foi um grande aprendizado. Tanto é que você nota a diferença de mixagem de um disco pro outro, sendo que os três discos foram todos gravados no espaço de pouco mais de um ano.

Certa vez, você se queixou dos problemas que o Sobre a Máquina enfrentava pra realizar apresentações ao vivo, especialmente pela dificuldade com a passagem de som, né. Quais são as principais dificuldades?

No Decompor, cada música tinha 30 canais ou mais, a gente tinha pensado: como a gente vai fazer isso ao vivo? O que a gente vai fazer? A gente vai tentar reproduzir idêntico o que seria impossível – ou a gente vai adaptar tudo e criar uma experiência totalmente nova pro cara que ouviu o cd e pro cara que tá vendo o show ter outra experiência? E a gente decidiu tentar reproduzir de uma forma quase igual ao cd, ele seguiria a idéia do cd, então pra fazer isso a gente teria que fazer com programações extensivas da batida, de tudo, que faria com que a gente tivesse que tocar clicado, metronomicamente. Nesses 30 ou 40 canais, eles teriam que ser mixados na PA do show. Uma coisa sai um pouco de um lado, outra coisa do outro, e isso era uma dificuldade muito grande em questão da bateria se comportar diferente dos monitores do estúdio, do que se comportava na PA. Botaríamos uma guitarra com um Big Muff distorcido e isso cobriria a bateria. Esse tipo de problema. Junto disso teriam as percussões microfonadas, e tudo isso tem que aparecer no show. Nada poderia ficar sei lá, suprimido, porque senão ia ficar feio,  se uma coisa ficasse alta demais ia foder tudo, essa era a grande dificuldade. Nos primeiros shows a gente cismou de tentar fazer perfeito porque, sei lá, eram os primeiros, e era bem complexo. Com o tempo a gente foi pegando a manha e percebendo que, pro ao vivo, era importante agregar mais gente. Tanto é que os primeiros shows a gente fez em trio mesmo. 



Os caras do Inverness bodearam de usar programação ao vivo justamente por causa desse trampo todo. Antes eles trabalhavam muito com programação, mas o que acontece, é o que você tava falando do metrônomo, qualquer erro da banda fode tudo. O Sobre a Máquina pensa em abandonar as partes programadas, ou limitar ao máximo o uso?

Hoje em dia a gente tá limitando bem, pelo menos nos shows atuais. Esse show em São Paulo vai ser o primeiro que a gente vai tentar dividir a coisa, pelo menos um terço do show vai ser com programação e os outros dois terços não. Mas programação no sentido de que a parte eletrônica tá se resumindo mais à idéia de timbragem. A gente usa uma placa de som de 16 canais nos shows, nessa placa a gente liga tanto a guitarra do Emygdio, as vezes o baixo, os meus teclados e os microfones e dentro disso a gente coloca efeitos dos mais variados que a gente consegue moldar ao vivo no próprio computador. Agora, as baterias, que são o que complica mais pela questão existencial do metronomo, agora que a gente tá tocando com um baterista de verdade a gente deixou só pra algumas músicas, tipo  Anomia Anomia provavelmente a gente vai tocar com programação porque a gente não desenvolveu de fazer aquele clima com ela sem aquela bateria. Acho que se entrasse bateria orgânica na  Anomia ia foder tudo,  porque não ia ser tão seco. Essa a gente vai ter que tocar na programação. Já as outras vão ser tocadas de forma bem diferente.

Entendi. Agora falando um pouquinho sobre a tour em São Paulo. Essa tour já tá pra rolar faz muito tempo, né? Desde a época do Sertão Agrário tem a propósta de vir pra cá, ou em algum festival da Sinewave ou em outros festivais. Mas somente agora, em 2012, rolou de marcar uma data. Como foi a negociação com a Casa do Mancha?

Tem um cara, um dos produtores do início do Quint Avant, o Filipe Giraknob que toca no Supercordas e tal, se mudou pra São Paulo e foi trabalhar no Mancha. A negociação foi por um intermédio dele.

O primeiro disco, Decompor, assim como o próprio nome da banda, remete ao cotidiano em uma metrópole. Jornadas de trabalho, trânsito, insatisfação, barulho, ausência de perspectiva. Tudo que envolve o dia-a-dia de qualquer pessoa que mora em uma cidade como Rio de Janeiro ou São  Paulo. Fale um pouquinho sobre o nome da banda, a proposta do Decompor, da trilogia em si, que parece que é muito ligada a questões como trabalho, cotidiano, até mesmo uma certa frustração.

Sim, tem tudo a ver com isso. No caso, a densidade do Decompor ela vem de um momento bem tenso que eu tava vivendo em relação à vida. O Sertão Agrário tinha acabado, não consegui passar no meu segundo vestibular, alguns outros ciclos da vida estavam bem desgastados, tive que arrumar outro emprego. Minhas influências sonoras naquela época já eram outra parada, (diferente) do que eu fazia musicalmente antes disso. E eu resolvi começar a gravar algumas coisas como desabafo. As idéias vinham na rotina, principalmente na rotina de ônibus. Eu passava bastante tempo dentro do ônibus naquela época, o verão que eu comecei a trabalhar foi um verão muito ensolarado, e eu ia pro trabalho com todo mundo indo pra praia, engarrafamento fudido, muito sol, muito calor, muito stress...

Que delicia!

É (risos), isso me inspirou bastante sim. A idéia de repetição. O próprio disco, se você parar pra reparar, começa como um mergulho. Os primeiros segundos são como se a gente tivesse mergulhando na letargia completa, e quando mergulha o disco é isso. É um monte de coisa sendo colocada pra fora, e eu resolvi pegar essa questão do limite do homem para com o seu meio, principalmente voltado pra repetição e pro trabalho. Tanto é que o disco é bem repetitivo. Muita gente não entendeu ele direito, né.

Agora, a trilogia, ou o ciclo, composto pelo Decompor, pelo Areia e pelo  Anomia. Encerrou-se como vocês gostariam?

Então, ela não foi programada como trilogia. Como eu falei, o Decompor começou a ser formado naquele momento de crise existencial. Depois dessa tristeza do Decompor, acho que eu não conseguiria ir mais baixo do que eu fui. Então, o processo natural era subir, eu estava vivendo um momento melhor. Eu acho que a idéia do Areia foi a questão de olhar pela janela do ônibus, ver que tem coisas bonitas apesar dos pesares. Acho que por isso ele é um disco mais ensolarado como as pessoas dizem. Mas não é propositalmente ensolarado, não acho nem que ele deva ser considerado ensolarado, no sentido de que ele é bem pesado também e tem suas críticas. Até pelo lance da garça da capa. Ela nasceu por conta de uns córregos que eu passo a caminho do trabalho. Dentro daqueles lagos pretos cheios de lixo e dejetos que fedem pra caralho tem sempre umas garças imóveis.



Que loucura! Aqui em São Paulo são as capivaras que dão rolê nos córregos!

Aqui não rola capivara, são garças, cara, muitas garças! E elas são muito bonitas, eu não consigo conceber o porque delas estarem ali, imóveis, equilibradas numa pata só.

No meio do lodo e da bosta.

No meio do lodo e da bosta, e elas ali, branquinhas. E o  Anomia também se fez necessário porque ainda faltavam alguns passos, faltava alguma coisa. Uma coisa entrando em conflito com a outra. E a ideia da criança brincando com os dois bichos, é meio que o que o homem acaba fazendo inconsequentemente com tudo, essa coisa deteriorante que a gente vê no dia-a-dia. Os córregos cheios, as obras fodendo cada vez mais o trânsito, poluição pra caralho que você mal consegue respirar e a gente tá lá, as engrenagens continuam. Terminou o ciclo de uma forma que todas as ideias que eu tive desde o início elas finalmente cessaram. Terminei o que eu queria dizer desde que eu gravei o Decompor. Tanto nos conceitos quanto sonoramente falando, o  Anomia representa, sei lá, a face mais...(pausa)... É como se a estranheza do Decompor fosse diluindo na água, eu considero o  Anomia como se fosse a pastilha de Redoxon completamente derretida, sacou? Não restou mais nada. A gente chegou, dentro do nosso som, dentro da nossa proposta, à parte mais harmoniosa que a gente poderia chegar. Tanto é que é o ápice do que eu considero "pop" em questão do Sobre a Máquina. E óbvio que a gente precisava fazer isso, porque eu preciso descer novamente no próximo disco. Então o  Anomia foi um passo necessário, é a desculpa que a gente tem pra foder com tudo de novo.

E a recepção do  Anomia? Como estão sendo as críticas? Quais são os planos? Pretende lançar em formato físico? Dá pra lançar num 7".

Seria maneiro, foda é que vinil é meio caro. Ainda não saquei a manha de prensar na gringa, não sei como a gente faria isso. Daí, a nossa parte em lançamento físico até agora foi toda em CD-R. A gente trampa uma arte física que fica muito boa, a gente gasta, de certa forma, uma graninha com isso mas eu considero muito importante. A gente fez uma versão do Areia bem bonitinha, foram 25 cópias no total, se eu não me engano, e todas elas foram entregues no show de lançamento do próprio Areia. Ficou lindo, mas era CD-R.  Não tinha label, a gente queimou os CD's com as masters em qualidade wav foda. A mesma coisa vai rolar na tour em São Paulo. A gente tá fazendo boxes com a trilogia inteira. Dentro da parada vai ter um envelope pra cada disco, uma cartelinha com as infos de cada um, mas novamente vai ser CD-R (risos).

Cara, pra finalizar, fala um pouquinho sobre os projetos paralelos. Os projetos do Emygdio, do Gameiro, os seus projetos. Fala um pouquinho do que tá rolando, o que pessoal tá produzindo fora do Sobre a Máquina.

Então, o Gameiro tá tocando com o Cicero, né? Canções de Apartamento, disco do ano em todos os lugares (risos). O Cicero chamou ele pra fazer os noises que rolam dentro da música, ou seja, o Gameiro faz meio que uma intervenção Sobreamaquinista no som do Cicero. Ele tem a banda antiga dele que tá meio parada, o Duques, tem um power trio de Stoner Rock com a galera do Stereomob (Gabriel Feitosa e Lucas Alves), que é justamente a galera que vai tocar com a gente em São Paulo. O Emygdio tem um projeto chamado Fabrica, um projeto de música Brasileira mesmo. Ele é um músico muito bom, ele toca tudo praticamente. É um lance que, se rolar, vai rolar um barulhinho porque é um lance bem produzido, enfim, um projeto de música brasileira que tá gravando o disco agora. Tinha o Eremita né, um projeto dele que eu ia tocar também, uma coisa meio tristona, a gente tem alguns projetos juntos. E tem também um projeto que a gente tinha de fazer uma parada meio Chillwave, meio Soul, onde eu cantava em falsete. A gente chegou a gravar uma música dessa parada, mas a gente não mixou e não levou pra frente. Enfim, eu e o Emygdio, quando a gente se reune é uma música por noite. É isso, os projetos da galera. Os meus você já conhece, tenho com você o RAPE! e o Sempremaio, e aquele outro que eu tô projetando meio Power Electronics que é o Victim, e porra, tem uma parada solo que eu faço com vocal mela-cueca, já tem até uma música gravada e eu pretendo lançar um disco esse ano também. Fora que a gente também faz trilhas pra algumas paradas. Eu e o Emygdio queremos trabalhar com isso mesmo, já conseguimos dois trampos. Uma mini-série sobre skatistas, um comercial, no momento os projetos são esses.


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