sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #5










The Rita / Bone Awl (2006; Klaxon Records; Canadá/EUA]
Lembra daquelas séries de televisão japonesas estreladas por super-heróis? Invariavelmente, eles enfrentavam monstros gigantescos em lutas que botavam Tóquio abaixo. O encontro entre o black metal primitivo do Bone Awl e a muralha harsh noise construída pelo The Rita tem um efeito igualmente devastador. As duas bandas alternam-se na ordem das músicas da fitinha, e é bem difícil conseguir distinguir uma da outra devido à sonoridade embolada da gravação, tornando a melodia e as mudanças no andamento da música praticamente imperceptíveis. O resultado é uma sonoridade hostil que combina perfeitamente com a proposta musical de ambas as bandas. Tanta sujeira resultou em uma série de críticas por parte de alguns fãs do Bone Awl, que se referem ao split como “a ovelha negra” da discografia da banda. Não se trata de um lançamento típico da carreira do Bone Awl, muito menos de um material que eu recomendaria para um fã tradicional de black metal, mas o inegável entrosamento entre as bandas e a maneira como as músicas se completam fazem desse split tão injustiçado um dos melhores da discografia de ambas as bandas.

Ouça aqui.

Horrid Cross - Demo III [2010; Irradiated Corpse, EUA]
“Bathory só existiu pro Horrid Cross existir um dia”. Foi exatamente assim que um camarada descreveu uma das bandas mais porcas da cena black metal dos ultimos anos. Exageros à parte, o Horrid Cross faz um raw black metal com os dois pés no lo-fi, e o melhor de tudo, em formato Cassette. Demo III traz duas músicas: VII/VIII e IX. Uma coisa que eu admiro no Horrid Cross é o fato de não fazer A MÍNIMA IDEIA de qual é a temática lírica da banda, já que os títulos dos álbuns e suas respectivas músicas são números, e as letras são impossíveis de encontrar. Quando a música começa, você percebe que não se fala de nada que não seja morte, dor, depressão, ódio, anti-cristianismo ou perversão sexual, e que já não se sente mais tão perdido. É uma boa pedida pra quem curte o INRI do Sarcófago, as primeiras demos do Ildjarn e essa nova geração do black metal estadunidense, fissurada em gravações de péssima qualidade, capas xerocadas de gosto duvidoso e lançamentos restritos aos formatos vinil e cassette.

Ouça aqui.

Maria Minerva – Cabaret Cixous [2011; Not Not Fun, EUA]
Depois da tape Tallinn at Dawn e do 12” Noble Savage, foi a vez de Cabaret Cixous, o aguardado debut de Maria Minerva, ter seu lançamento no mês de agosto, pelo selo Not Not Fun. Cabaret Cixous soa como a mais bela música pop, encharcada em reverb e delay, revestida com a mais grossa camada de sujeira. Ao mesmo tempo em que se utiliza de timbres agradáveis de teclado e um vocal adocicado de menina, o álbum é gravado de uma maneira propositalmente tosca, utilizando-se de referências da música eletrônica do comecinho dos anos 80 e uma estética lo-fi viajada. Comparo a música feita por Maria Minerva a limpar as orelhas com um cotonete: ao mesmo tempo em que a haste é revestida em algodão, provoca aflição e um certo desconforto quando penetra o ouvido. Resumindo, é um disco delicioso e igualmente desafiador, mais uma bela surpresa no catálogo da Not Not Fun. Se você não for aquele cara que enfia a lingua na tomada e só escuta harsh noise ou aquele mala que só gosta de álbuns com uma gravação impecável, na boa, ouça as faixas “These Days”, “Pirate's Tale”, “Luvcool”, “Honey Honey” e “Ruff Trade”. Essa é Maria Minerva, meu atual xodozinho e uma das mais gratas surpresas de 2011.

Ouça "Luvcool"

Thiago Miazzo



Jards Macalé – Jards (2011; Biscoito Fino, Brasil)
Assim que soube da existência de um álbum novo de Jards Macalé – através do blog La Cumbuca – corri na intenção pura e simples de escutar o que o autor faria após as incursões experimentais de Macao, lançado em 2008. Encontrei um DVD com direção de Érik Rocha, e a regravação de clássicos do seu e de outros repertórios, com arranjos de Cristóvão Bastos e participação de Frejat, Luiz Melodia, Elton Medeiros, Ava Rocha, entre outros. Não tenho como negar uma ponta de decepção ao tomar conhecimento da empreitada (esperava novas composições), mas este sentimento foi devidamente dissolvido pela caixa de fósforo indefectível do grande Elton Medeiros, e pelo violão sujo e suingado de Macalé, na interpretação de “Juízo Final”, que abre o disco. “Negra Melodia” (com a participação de Luiz Melodia) e “Revendo Amigos”, transformada em um baião vigoroso, foram traduzidas para uma roupagem mais convencional, que felizmente não prejudicaram a força das canções. Mas fica a impressão de que se trata mais de um disco celebratório – como Cauby! Cauby!, como Uma Palavra – do que um disco de carreira propriamente.


Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra, Toumani Diabaté – A Curva da Cintura (2011; Especial MTV, Brasil/Mali)
Gravado no estúdio de Toumani Diabaté, em Bamako, A Curva da Cintura é, antes de mais nada, resultado do trabalho de uma dupla de compositores. Dito isto, e liberando o disco de ter que responder pelo que ele não é – um disco de “world music” ou de música do Mali –, vale ressaltar as canções e a forma como a kora e os demais instrumentos malineses foram utilizados. Mesmo que não me apeteça a fase “lúdica” de Arnaldo Antunes, há de se convir que em seus vinte e tantos anos de carreira como compositor, ele consolidou um estilo cancioneiro peculiar, perceptível no mantra “Cara” ou no heavy metal existencial “Um Senhor”. Característica inversa se pode apontar em Scandurra, compositor cujo estilo varia conforme seus interesses sonoros, e pode ser observado no lirismo derramado de “Coração de mãe”. Os arabescos melódicos executados por Diabaté casaram perfeitamente com a guitarra de Scandurra, também dada a reviravoltas velozes e uma certa malícia rítmica, que funcionou não somente com a kora, mas também com o n’gon, o balafon, entre outros instrumentos malineses.


Felipe Cordeiro – Kitsch Pop Cult (2011, Ná Music, Brasil)
Com previsão para lançamento em 2012, o primeiro disco do cantor e compositor paraense Felipe Cordeiro promete ser uma espécie de “atualização” da pletora rítimica paraense. Porém, antes que se possa encerrar o álbum em interpretações desse tipo, a saber, que sugerem a incorporação marota dos elementos “centrais” – a música eletrônica, o new wave, o Brock dos anos 80 – aos elementos “primitivos”, representados pelos ritmos paraenses – tecnobrega, carimbó, lambada –, vale afirmar que tal ingenuidade passou longe daqui. A começar pelo título, Kitsch Pop Cult, uma junção quase alegórica de palavras que já viraram piada no léxico sulista, mas que adquirem um  incontornável teor irônico com a entonação adotada por Cordeiro. Algumas canções, como o tecnobrega turbinado “Conversa Fora”, esboçam lampejos concretistas (“Não ponha rancor pra dentro/Só jogue conversa fora”), enquanto outras funcionam como auto-ironia, em “Dias quentes” (“Acho que vejo deus, acho que vi um indigente, um índio, um ciberpunk, um Gandhi indecente”) ou “Historinha” (“Que história é essa minha, que não passa, nem chega, não começa, nem termina…”). Ah sim, e a produção é do André Abujamra.

Bernardo Oliveira

Nenhum comentário: