sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #6

Ekundayo




Novos álbuns

Novos álbuns permanecem grandes acontecimentos, a despeito do descrédito galopante em relação à sobrevida deste formato no mundo pós-digital. Não se pode negar que sua estrutura linear e fechada, permite ao autor concentrar uma “estória”, ou até mesmo um conceito – o que pouco tem a ver com a ideia de “álbum conceitual”, às vezes aplicado a um trabalho narrativo, como as óperas-rock… Apesar do desprestígio, tem-se a nítida impressão de que através do “álbum” acessa-se o conteúdo mais fundamental da obra de um autor. Embora nem sempre corresponda à verdade, esse raciocínio me parece válido 

Algumas das faixas mais interessantes do ano passado foram lançadas em Eps e 12”, como as duas edições de Waldgeschichten de Pole (resenhado nas Minicrônicas #3), e o primeiro volume da série de singles que Cameron Stallones (Sun Araw) e M. Geddes Gengras produziram na Jamaica, sob a alcunha Duppy Gun Productions (resenhado aqui). Isto se torna a cada dia mais natural, a saber: o formato não define necessariamente a proposta estética de um artista, mas pode acompanhar a multiplicação de intenções, dinâmica compatível com a mentalidade curiosa e estilhaçada dos artistas contemporâneos. 

Stefan Betke

Ainda assim, os álbuns permanecem como uma possibilidade discursiva e expositiva apropriada para alguns trabalhos. Por exemplo, o multi-colaborativo Ekundayo (resenhado aqui), lançado final do ano passado, ou ainda a parceria entre Wilson Moreira e o grupo percussivo Baticun, resenhada no Matéria esta semana: bons exemplos de que a continuidade linear do álbum permite a alguns autores um espaço mais adequado para delinear suas “estórias”, percursos e até mesmo seu “pensamento musical”.

Ainda, as listas de 2011…
Estive à cata de listas genéricas ou periféricas e constatei com alguma tristeza que o samba não teve atenção nem da grande mídia, muito menos das mídias digitais, blogs, redes sociais, etc. Não tive acesso a nenhum recenseamento sequer que cobrisse o ano deste que é considerado o gênero brasileiro por excelência, oficial e oficiosamente. Falta, sem dúvida, interesse em escrever, pesquisar e agitar o chamado “mundo do samba” para além das casas da Lapa, da proliferação dos “crooners” e dos comerciais de fim de ano da Globo… 

Por outro lado, recebi do meu amigo Marcelo Mac, que trabalha com a equipe da festa Eu Amo Baile Funk, uma listagem que vale a pena repassar aos leitores. Trata-se de uma seleção das 20 faixas e dos 20 artistas que marcaram o mundo funk carioca durante o ano passado. Solta o rap, DJ:

Dioguinho, Avassaladores



DJ Cabide

E mais 20 DJs: DJ Grandmaster Raphael, DJ Sany PitBull, DJ Marlboro, DJ Anderson, DJ Cabide, DJ Marcinho, DJ Géllo, DJ Caçador, DJ Sandrinho, DJ Fabinho NeuroSampler, DJ Fú, DJ Glauber, DJ Mp4, DJ Fabinho Las Vegas, DJ Jf, DJ Phábyo Do Castelo.

Não custa lembrar que no início do ano passado, escrevi um texto sobre o mundo funk carioca 2011, para a FACT. Nesse link.

Por resenhar
2011 nos deixou alguns álbuns por resenhar, entre eles o Recanto de Gal Costa, Satanique Samba Trio e Eliane Radigue. Enquanto isso, 2012 corre solto com Siba e sua guitarra em Avante. Aprecio demais o trabalho do Siba, mas ainda não entrei na onda do disco. No entanto, duas faixas já se destacam não somente em relação ao disco, mas ao cenário inicial de 2012: a faixa-título, galope arretado, misturando guitarras distorcidas e vibrafones, e “Qasida”, que sintetiza prodigiosamente células rítmicas do maracatu e do afrobeat. As canções persistem na transliteração coloquial de gêneros pernambucanos considerados “folclóricos” ou cerimoniais, sem perder o humor e o punch. Ao lado da (re)volta delirante de Lindstrøm com Six Cups of Rebel e do ex-Seefeel, Mark Van Hoen, com The Revenant Diary, parece o lançamento mais interessante de 2012 – até o presente momento.

Bernardo Oliveira


Geography of Hell – Sarajevo 1992 (2011; Lust Vessel, EUA)
Geography of Hell é um projeto que teve seu primeiro cassette lançado em 2008 pela Hospital Productions. Como a tape não trazia o nome ou qualquer informação a respeito do(s) integrante(s), muita gente pensou que se tratava de mais um projeto de Dominick Fernow. Até hoje ninguém sabe quem é o cara, mas não é o Don. Sarajevo 1992 é a terceira tape e foi lançada entre os meses de novembro e dezembro pelo selo Lust Vessel. Assim como as tapes anteriores (Dresden 1945, referente ao bombardeio de Dresden e Tchernobyl 1986, referente ao famoso acidente nuclear), Sarajevo 1992 é um álbum conceitual em torno do Cerco de Sarajevo que ocorreu durante a Guerra da Bósnia. Musicalmente, Sarajevo 1992 é um pouco diferente das tapes anteriores, fugindo daquele lance harsh noise/power electronics, mostrando um som mais focado no experimentalismo e no uso de sintetizadores e ruído ambiente, uma característica marcante nos projetos lançados pela Lust Vessel. Mesmo assim, não é um album fácil de ouvir, e arrisco dizer que é o mais indigesto dos três lançamentos do GOH. Sarajevo 1992 teve seu lançamento limitado a 100 cópias e veio com um booklet de 8 páginas xerocadas em formato A5. Eu não vi, mas dizem que é lindão. Poucos dias depois do lançamento, corri na página da Lust Vessel pra garantir a minha cópia, mas já havia esgotado. :~


Deep Magic – Lucid Thought (2011; Preservation, EUA)
Um dos milhares de motivos que me fizeram optar por não dirigir é a minha total ausência de foco. Sou um cara desligado, o tipo de cara que sente vontade de ouvir uma música e imediatamente desencana do trânsito e direciona toda a sua atenção para o sonzinho do carro, clicando furiosamente no forward em busca da tal música. Pelo bem dos pedestres, escolhi não dirigir. Lucid Thoughts é um disco que poucas pessoas podem ouvir dirigindo sem acabar enfiando o carro na traseira de um caminhão em algum farol vermelho. É aquele típico CD que você escuta quando não tem mais nenhum compromisso marcado e pode esticar o corpo e dizer: “Até amanhã, eu não vou esquentar a cabeça com absolutamente nada”. E então você relaxa e chega a esquecer em alguns momentos que a música está rolando. O Deep Magic faz um drone com pitadas de psych folk, vem da Califórnia e tem como único membro Alex Gray, que também toca no Sun Araw e já trabalhou com o Pocahaunted e com o Black Eagle Child.

Assista a um vídeo com o Deep Magic (Soundcloud)

Alberich – Psychology of Love (2011; Hospital Productions, EUA)
Kris Lapke trabalhou duro nos ultimos cinco anos, mas isso é uma coisa que pouca gente sabe. Apesar de ter lançado uma caralhada de tapes sob a alcunha Alberich, Kris parecia estar fadado aos bastidores, sendo mais conhecido por seu trabalho com produção e engenharia de som para nomes como Kevin Drumm e Dominick Fernow. Psychology of Love é muito mais do que um debut LP, é o trabalho que arrancou Kris Lapke de trás da cortina e o jogou debaixo do holofote. Nesse primeiro vinil, lançado pela Hospital Productions, o Alberich aposta em texturas eletrônicas e batidas pesadas. O resultado é um disco truculento com beats pouco musicais, mas que dão um norte para a música. Pra quem não está familiarizado com power electronics, Psychology of Love é um bom começo. Mais fácil de ouvir do que a maioria dos artistas do gênero, e ainda assim, distante do noise mais apurado dos artistas citados.

Ouça Alberich, “Umbala”

Thiago Miazzo

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Haswell & Hecker – Kanal GENDYN (2011; eMego, Áustria [Alemanha, Reino Unido])
Estamos diante de artistas que demandam um interesse específico do ouvinte. Em suas respectivas carreiras individuais, o trabalho do inglês Russel Haswell e do alemão Florian Hecker investe em uma ampla pesquisa (estética, técnica, científica) acerca dos limites do som e dos dispositivos sonoros, mesmo que eventualmente essa pesquisa aluda à música de forma muito particular. Junto com Haswell, Hecker forma o Haswell & Hecker, que lançou dois álbuns, Blackest Ever Black (Electroacoustic UPIC Recordings), de 2007 e UPIC Warp Tracks’, de 2008, sem contar com releituras de Popol Vuh e Voice Crack. O presente trabalho demanda o mesmo preparo do ouvinte: trata-se da trilha-sonora para Kanal Video, peça audiovisual de 92, dirigido pelos artistas suíços Peter Fischli e David Weiss. Incorporando elementos dos procedimentos estocásticos de Iannis Xenakis, a dupla elaborou a trilha sonora em tempo real, o que resultou, como não poderia deixar de ser, em uma jornada desconcertante pelos meandros inegociáveis do noise.

Ouça Haswell & Hecker, Diffusion Session #20

Mombu – Mombu (2011; Subsound Records, Itália)
Manipulação astuta dos estalidos de vinil servindo de base para a voz de uma mulher, que balbucia palavras em italiano: “Intro 253”, a composição inicial, intriga. Mas o que é Mombu? Trata-se de uma dupla formada pelo saxofonista Luca Mai, do trio free italiano ZU, e pelo baterista do Neo, Antonio Zitarelli, que já tocou com Otomo Yoshihide, entre outros. A música já foi classificada sob uma infinidade rótulo, que vão dos convencionais free jazz e free form, até neologismos como “afrogrindcore”. No entanto, o que se escuta aqui é uma profusão de temas e convenções, costurados vigorosamente por ritmos africanos (em “Regla de Ocha”), faixas polirrítmicas (a tendência do álbum, especialmente em “Stutterer Ancestor”), funk (“Orichas”) e até metal (em “Mombu Storm” e “The Harpoon's Ritual”). Para quem espera a habitual adstringência do Zu, vale notar que muitos momentos deste disco transparecem versatilidade, por vezes de forma mais acessível… O que evidentemente não significa que a dupla facilite as coisas para o ouvinte. 

Ouça Mombu, “Orichas”

Venetian Snares – Affectionate (2012; s/g, Canadá)
Apesar do nome, Aaron Funk toca tudo quanto é instrumento, manipula todo tipo de aparelhagem eletrônica, transita por todos os gêneros da mesma eletrônica, principalmente aqueles nascidos na curva dos 90 para a década de dez. Esteve de alguma forma ligado à IDM, essa sigla estúpida que, em outras palavras, significa: “artista que experimenta com apetrechos eletrônicos para além das pistas de dança”. Também se envolveu com o drum’and’bass e suas ramificações imprevisíveis como o breakcore e o drill’n’bass. Contemporâneo de Matt Elliott e Richad D. James, Funk é um colaborador assíduo do selo de Mike Paradinas, Planet Mu, para o qual produziu o inacreditável Cubist Reggae em 2011. Este ano, lançou Affectionate, mais uma preciosa contribuição para o legado da indeterminação sonora do século XXI. Indeterminação que ocasiona, antes de mais nada, desorientação e deleite. “Chordate”, por exemplo, conduz o ouvinte por uma planície sonora regular, que revolve aos poucos, desprendendo-se em milhares de bleeps, alguns glitches discretos, e uma estrutura percussiva até mesmo nos aspectos melódicos. 

Ouça Venetian Snares, “Chordate”

Bernardo Oliveira

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