sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #7




Minicrônicas de São Sebastião, rápidas e rasteiras. Lembrando apenas que toda sexta-feira, às 21h, apresento o programa Mundo da Lua, junto com o DJ Marcelinho da Lua. Hoje teremos muito samba, drum’n’bass, dubstep, soukouss, funana, kuduro e mais. Na Rádio Rede Verão, 102.9 para o Rio. Visite a comunidade no Facebook para mais informações.

Bernardo Oliveira


The Caretaker – Patience (After Sebald) (2012; History Always Favours The Winners, Reino Unido)
No ano passado, Leyland James Kirby nos deixou entre perdidos e maravilhados com pelo menos cinco lançamentos de alto nível. Foram quatro álbuns como Leyland Kirby, três da série Intrigue & Stuff e Eager to Tear Apart the Stars, e um como The Caretaker, An Empty Bliss Beyond This World. Embora anunciados também para 2011, ficaram para este ano o quatro volume de Intrigue e a trilha sonora composta para o filme de Grant Gee, sobre o escritor alemão WG Sebald. Mais regular e bem menos acidentado que a geografia sonora dos álbuns de 2011, Patience traz a melancolia habitual, que se insinua através de andamentos lentíssimos e melodias cativantes, como em “Increasingly Absorbed in his Own World”.



Machinedrum – SXLND EP (2012; LuckyMe, Reino Unido [EUA])
Travis Stewart, mais conhecido pelo projeto Machinedrum, surpreendeu o mundo ano passado com a polirritmia (sic) frenética de Room(s), síntese particular de drum’n’bass, UK Garage, juke. No finzinho do ano, através do Sepalcure, lançou um disco que dividiu opiniões, classificado pejorativamente como “dubstep easy listening”. O que viria depois desses dois momentos opostos? Pois Stewart retorna com SXLND EP, editado pelo selo escocês LuckyMe. Trata-se de cinco faixas compostas para o Many Faces EP, de 2010, mas que ficaram de fora, devidamente reconstruídas para compor o EP. O resultado é irregular, e sem sombra de dúvida, passa ao largo de Room(s) e do incrível remix de “Put Some Red on it”, para Spoek Mathambo. Vale, no entanto, por duas boas faixas, “Van Vogue” e “DDD”, ambas diferenciadas do ponto de vista dos timbres (reparar bumbos e caixas) e da forma de organizar as repetições.

Ouça trechos do EP.

Franco – Guitar Hero (2011; Cantos Music/Pias, França [Congo])
Falecido há mais de vinte anos, François Luambo Luanzo Makiadi, ou simplesmente Franco, permanece como um precioso mistério, guardado a sete chaves por uma infinidade de motivos. Não vale a pena enumerá-los por aqui (fiz alguns comentários em nossa comunidade no Facebook), mas vale lembrar que, por quarenta anos, foi um dos nomes fundamentais da música congolesa moderna. Enfim, o que importa aqui é anunciar essa compilação, lançada há dois meses pelo selo francês Cantos. Em nove faixas, Franco exibe sua combinação de soukouss congolês com o funk e a música latina, permeada por admiráveis arpejos de guitarra. No entanto, vale reiterar a nota escrita pelo crítico francês Bertrand Lavaine, segundo a qual a rematerização, neste caso, atenuou o ataque dos instrumentos, e reduziu algumas faixas a um quarto da duração original, como em Très Impoli, que tinha 16 minutos na versão original. Imperdoável, mas ainda assim vale uma audição.

Baixe a versão americana do álbum Très Impoli.

Bernardo Oliveira



Iceage - New Brigade  (2011; Escho, Dinamarca)
A primeira vez que ouvi Iceage, não dei a mínima. A pouca idade dos integrantes e o fato de a Dinamarca (país de origem da banda) nunca ter sido um representante expressivo quando o assunto é punk/post-punk me deixaram ainda mais cismado. Em uma primeira (e desatenta) audição, o Iceage pode soar como quatro moleques pegando onda naquela coisa horrorosa que os críticos chamaram de post-punk revival, sem ter nada de novo a acrescentar. Ouvindo com atenção, percebe-se o quão rico é o leque de referências dessa molecada, passando pelo garage punk, o punk e o noise-rock. Falando desse jeito, o Iceage perde justamente o que tem de mais charmoso: simplicidade. New Brigade é um disco simples e, por isso, cativante. Com aproximadamente 25 minutos de duração, é um disco fácil de ouvir, espontâneo, rock de moleque. Guitarras sujonas, cozinha precisa e letras existenciais, retratando os conflitos da passagem para a vida adulta. Destaques: "White Rune", "New Brigade" e "Broken Bone".

Assista ao clipe de New Brigade.

Ous Mal & Bedroom Bear - Split Tape  (2011; Full of Nothing, Finlândia/Rússia)
Uma lindeza de split tape. De um lado, o finado Ous Mal exibe um de seus últimos trabalhos. São sete faixas cheias de sintetizadores, loops e guitarras em uma gravação repleta de buracos e oscilações. Parece que a fita passou os últimos anos enterrada e teve sua qualidade comprometida. Um belíssimo projeto originário da Finlândia, confira a faixa "Kaupunkeja".

Do outro lado, o russo Bedroom Bear, que só lançou coisa linda no ano passado. Quando fiz a lista dos vinte melhores de 2011, pensei em incluir o Woodwind Songs e acabei deixando-o de lado. No fundo, acho que fiquei com vergonha do nome. Apesar do nome inocente, o drone apresentado é extremamente cru, flertando em alguns momentos com o noise, em outros com a psicodelia, mas sempre mantendo o aspecto lo-fi.  Da barulhenta "Sun Glyph" até a viagem vertiginosa de "Down Curly The Sea", o Bedroom Bear pode assustar os ouvintes mais zen de drone e psychfolk. Tape limitada a 100 cópias.

Wind in Willows - Elephant Dreams (2011; Full of Nothing, Rússia)
Mais um projeto originário da Russia, mais um lançamento da Full of Nothing! Criado em 2011 por Anton Filatov, um estudante de física e astronomia que vive em uma floresta em Petrozavodsk, lançou três tapes (sendo duas split tapes) e um CD-R. Nada mal para um projeto com apenas um ano de existência, não é mesmo? Elephant Dreams traz duas (longas) músicas, "Sea of Tranquility" e a faixa-título,  que mais parecem ter sido gravadas em um quarto com um tecladinho de brinquedo. Repleto de viagens psicodélicas, atmosfera aconchegante e melodias precisas, uma das mais belas surpresas do ano de 2011. Quero ouvir, no mínimo, mais quatro lançamentos em 2012.


Thiago Miazzo
 

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