sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #8



Para surfar sobre as ondas das diversas culturas contemporâneas, convém acostumar-se ao paradoxo – afirmava o geógrafo baiano Milton Santos. Sob esse ponto de vista, não se pode negar o caráter mundial dos paradoxos do século XXI, pois além de compartilhados ampla e aceleradamente através da internet, indicam um futuro de conflitos culturais cada vez mais acirrados. A disputa pelo território, pelos recursos naturais, pela informação e pelas patentes constituirá o pano de fundo destes conflitos, trazendo ainda mais instabilidade para as relações internacionais. Algum pensador alemão teria dito: os grandes momentos da cultura são momentos de “grande corrupção”… O que virá pela frente? E o que a música tem a ver com isso?

Quando se afirma que a noção de propriedade intelectual se alterou com a internet, a tendência do debate é polarizar com os seguintes argumentos. De um lado, afirma-se plenamente a irreversibilidade das mudanças, mas esta visão se ressente da ausência de leis correlatas, e, sobretudo, de uma massa crítica independente, capaz de aprofundar e desenvolver as potencialidades da rede. De outro lado, reivindica-se a sobrevivência da indústria e o sustento do autor, contra a flexibilização da lei e as novas possibilidades comerciais. De um ponto de vista teórico, a questão incide sobre o âmbito legal, uns professando a mudança da lei, outros advogando em seu favor. Sim, e é mais do que necessário atender a esse aspecto. Mas não é à toa que os magistrados se reúnem em torno dos debates doutrinários, pois, como todos sabem, o mundo gira…

Se é crime violar a propriedade intelectual, teórica e historicamente este crime se sustenta sobre a noção de "casta social": aquele que detém a propriedade possui o direito e o privilégio da palavra, diferenciando-se nos debates sobre a "res publica”. Era assim na Grécia antiga, e também na América colonial. Porém, a hegemonia de uma determinada perspectiva do mundo se relativizou de forma dramática, e já não se sabe hoje se a letra fria do direito, com sua baixa aderência ao novo, é de fato apropriada para as questões que surgem com a velocidade da luz.

Mas o que salta aos olhos é o fato de que tanto Kim “Dotcom” Schmitz (fundador do Megaupload), como Julian Assange (fundador do Wikileaks), violaram, não a propriedade de outrem, se não que a mais injustificada grilagem, apropriação indébita de uma fortuna material, intelectual e política que não pertence a ninguém, a não ser aos indivíduos. Não pertence nem ao chamado “autor”, bode expiatório da grande indústria – como se não houvesse um abismo monumental entre o artista anônimo e a celebridade, cavado pela mesma indústria que reivindica cinicamente os dividendos de um “autor” abstrato e inexistente.


Se não pudermos mais compartilhar arquivos através dos sites de armazenamento, compartilharemos através do torrents. Se os torrents forem interceptados através de liminares internacionais, utilizaremos os P2Ps, e se eles por acaso saírem do ar, recorreremos aos emails ou mesmo às ruas, onde distribuiremos gratuitamente todo o patrimônio digital acumulado em uma década de compartilhamento. Esta não é uma declaração pessoal, nem um prognóstico, mas a afirmação de um estado de coisas. Pouco importa a paradoxal ofensiva cultural capitaneada por jornalistas anglo-saxões, que destilam seu conservadorismo camuflado através de teorias pretensamente sofisticadas, defensores de uma cultura audiófila que, sabe-se, não é a única. Extirpar o Megaupload da rede, gastar rios de dinheiro processando e prendendo seus fundadores – ao invés de investir em formas mais justas, inteligentes e eficazes de comércio – são atitudes previsíveis, espasmos agonizantes de um modelo que expirou, e cujo cadáver já começa a feder para além do tolerável…

"Livros, discos, vídeos à mancheia, e deixa que digam, que pensem, que falem": não seria esta a mais bela e generosa lição legada pela Tropicália? 


Esta semana, na FACT PT, escrevi sobre Six Cups os Rebel, novo álbum do produtor norueguês Lindstrøm, e sobre The Revenant Diary, registro criativo de Mark Van Hoen, produzido exclusivamente com equipamentos da década de 80. Pintaram faixas legais, como o remix do The Field para "Sweetie & Shag" do Battles, Azealia Banks (hmmm...) com produção de Machinedrum em "NEEDSUMLUV", Terror Danjah remixado brilhantemente por FaltyDL em "Zumpi Huntah", a instigante batucada digital de "F'Off", parceria do quarteto grime Wiley, Flowdan, Riko e Manga, a genial Georgia Anne Muldrow, produzida por Madlib em "Seeds" e o remix arretado de Markus Popp (aka Oval) para "Hello Mom", do Warren Suicide – Markus Popp que está com mais um disco daqueles na praça, OvalDNAEscutei “bons Bandcamp” e planejo algumas Minicrônicas só com edições digitais. Destaco três deles: Löis Lancaster relançando 20busK, de 2004; Gabriel Guerra, guitarrista no Dorgas, com o single Finalzinho Chegando; e Idiom Wind Single, primeiro single do Zamutto, projeto de Nick Zamutto, metade do The Books, que planeja três lançamentos até março deste ano. 

Bernardo Oliveira

Jandek - Where do you go From Here? (2011; Corwood Industries; EUA)
Jandek é um dos personagens mais misteriosos da música contemporânea. Originário de Houston, Texas, lançou, de 1978 até o presente, mais de 60 álbuns tocando um blues pouco convencional e de difícil audição. Ao longo de sua carreira, Jandek não cedeu qualquer informação bibliográfica e concedeu apenas duas entrevistas por telefone. Em 2004, fez a sua primeira apresentação pública, um show em Glasgow com Richard Youngs e Alex Neilson como músicos de apoio. Where do you go From Here?, lançado em 2011, traz doze faixas cheias de improviso e referências jazz. Bateria, piano, harmônica, guitarras carregadas de overdrive e a pouca presença de vocais fazem do álbum um registro diferente em meio à sua extensa discografia. Gosto de sua faceta mais conhecida, mais voltada pro violão e voz, mas não deixo de admirar seu interesse em explorar novas técnicas, instrumentos e qualquer coisa que torne sua música ainda mais rica e desafiadora. Não é um disco do Jandek pra ouvir de sopetão, não recomendo pra quem não conhece um pouco de sua carreira. Se você ainda não o conhece, você vai fazer o seguinte: Ouça os álbuns Ready for The House (1978), Your Turn to Fall (1983) e o Not Hunting for Meaning (2009), nessa ordem. Terminado o curso intensivo, ouça Where do you go From Here? e tire suas próprias conclusões.


Charles Manson - Horsefly  (2011; Parasitic Records; EUA)
Vamos deixar de lado o Charles Manson que conhecemos através da mídia e focarmos unicamente no artista. Desde a sua prisão em 1969, Manson produziu uma vasta discografia, ganhando fãs como Axl Rose (que regravou a música Look at Your Game, Girl no álbum de covers Spaghetti Incident) e Henry Rollins, que chegou a produzir um álbum do Manson nos anos 80 pra ser lançado pela SST Records (famosa gravadora estadunidense de hardcore/punk), devido à recusa do público e ameaças de morte, a SST cancelou o projeto e o disco nunca foi lançado. Oscilando entre o folk e o spoken word, Horseflytem dezesseis minutos de duração e foi gravada no interior de sua cela. É um registro intenso, sem cortes ou qualquer tipo de edição. Charles Manson e sua viola, just chillin'. A polêmica arte do compacto é de autoria de Zeena Schreck. A tiragem, óbvio, é limitadíssima: 100 cópias prensadas em vinil colorido, 900 cópias em vinil.

Ouça um trecho de Horsefly aqui.


Atari Teenage Riot - Is This Hyperreal?  (2011; Digital Hardcore Recordings (DHR); Alemanha)
O ano de 2011 marcou a volta de uma das mais influentes e barulhentas bandas da Alemanha, o Atari Teenage Riot. Desde 1999, quando o grupo encerrou suas atividades, Alec Empire e Nic Endo seguiram com suas carreiras solo (que nunca atingiram o grau de popularidade ou a genialidade dos trabalhos do ATR), e retornam acompanhados por um novo integrante, chamado CX KiDTRONiK em Is This Hyperral?. Comparada aos discos anteriores, a faceta eletrônica da banda ganhou um ar mais coeso, sem tantos flertes com o punk e o noise. Não é um disco pra pisar nas paredes, como é o caso do 60 Second Wipe Out, mas se tratando de um álbum-revival (coisa que a história já nos mostrou que raramente dá certo), é um ótimo disco. 

Ouça This is Hyperreal na íntegra.

Thiago Miazzo


Van Dyke Parks – Arrangements Volume 1 (2011; Bananastan, EUA [Canadá])
Quando o assunto é pop music, a carreira de Van Dyke Parks é sinônimo de originalidade. Barroco, psicodélico, mirabolante são alguns dos adjetivos utilizados para definir seu trabalho. O desconhecido Song Cycle, lançado em 67, é um daqueles discos que soam completamente diferente de tudo o que veio antes e depois, e isso até hoje. Além de compositor, cantor e ator, produziu Joanna Newsom, Keith Moon, Ry Cooder, Frank Black, The Byrds, Harry Nilsson, entre outros. Como letrista, trabalhou com Brian Wilson em Smile, mas abandonou o projeto alegando estar cansado de explicar as letras para Mike Love… Lançado em setembro do ano passado pelo Bananastan, o selo que edita seus originais, a compilação Arrangements Volume 1, selecionada pelo próprio Parks, cobre o que ele mesmo chama de “minhas primeiras aventuras de estúdio nos anos 60”. Seu método de arranjo se constitui por uma combinação discreta (!) da politonalidade de Charles Ives com canções folk e, é claro, pop music. Arrangements Volume 1 apresenta trabalhos com George Washington Brown, Sal Valentino, Arlo Guthrie, Dino Martin, Bonnie Raitt, The Mojo Men, Ry Cooder, Lowell George, Little Feat e para si próprio, especialmente na lindíssima “Come To The Sunshine”, de 66.


Vários Artistas – Movimento de Roda de Curimbó (2012; FGC Produções, Brasil)
No universo dos batuqueiros e dos Bois do Pará, o carimbó cumpre um papel semelhante ao do samba: é o combustível sonoro, o som dionisíaco… Personagens como Mestre Faustino, Mestre Tuite e Mestre Julião são fundamentais, responsáveis pela condução da folia, que, por sua vez, pode ser comparada às Escolas de Samba. Propriedade do músico paraense Fábio Cavalcante, a FGC Produções, residente em Santarém, reúne um repositório considerável de gravações do carimbó de pau-e-corda, como se costuma dizer. Comandado pelo também paraense Chico Malta, o Movimento de Roda de Curimbó é um grupo de “pau-e-corda” da vila de Alter-do-chão, em Santarém, formado pelos músicos Chico Malta, Helder Catraca, Jackson Rêgo, “Seu” Camargo, Hermes e Osmarino Freitas. Com participações especiais de Pio Lobato e de músicos locais, o sexteto privilegia as canções através de arranjos econômicos, porém eficientes. Destaque para Índio cumaruara e “Carimbó na Roça”, faixas em que se ouve a voz peculiar de Osmarino Freitas.

Ouça e baixe o disco e o catálogo da FGC aqui.


Gonjasufi – MU.ZZ.LE (2012; Warp, EUA)
Conheci a voz de Gonjasufi através de sua participação na faixa "Testament", do álbum Los Angeles, de Flying Lotus, e confesso que fiquei estarrecido. Aquilo soava como se o timbre manhoso de Billie Holiday encontrasse a aspereza de Lee Perry, um timbre arenoso, áspero, bêbado... Dois anos depois, sai A Sufi And A Killer, seu primeiro álbum solo, que confirmou o talento do cantor, e revelou o compositor. Com seu parceiro Gaslamp Killer, co-produziu boa parte do disco, inclusive uma das melhores músicas daquele ano, Kowboyz&Indians, o que de mais interessante a Brainfeeder produzira em 2010. Agora, GS retorna com o letárgico MU.ZZ.LE, mini-álbum com dez faixas, sendo que seis delas produzidas pelo próprio artista. E o resultado prolona o interesse: altas cargas canábicas, sujeira lo-fi, delírio dub, alguma melancolia e um suingue pesado. Além das tinturas psicodélicas tipicamente angelenas – aquela tonalidade “aquática”… 


Bernardo Oliveira

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