segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

(crítica - disco) Mortuário - Necrofilia/Propaganda (2003 [2005]; n0-Age; Brasil)




Influenciado pelo aspecto sombrio do IML de Niterói, livros de medicina legal e a velha escola do Industrial, o Mortuário alcançou o status de cult depois de ter uma de suas músicas inclusas na coletânea Nyrkki & Kyrpä II, do selo finlandês Filth and Violence. Quanto à possibilidade de um futuro lançamento, Lucas Pires descarta:  "Deixa pra lá, não seria a mesma coisa, foi tudo muito intenso." Intensidade é uma boa palavra para descrever sua música. Lançado originalmente em 2003 em formato cassette e relançado em 2005 pelo net-label n0-age, Necrofilia/Propaganda é uma compilação de experimentos sonoros, ruídos e depoimentos chocantes retirados de programas de rádio e jornalismo policial, tudo processado e destruído com efeitos. Lucas Pires experimentou enterrar fitas cassete para obter um novo aspecto sonoro através da decomposição; em outras, fez intervenções com grampos ou imãs. Perdeu muitas delas, outras tiveram um resultado satisfatório e podem ser ouvidas ao longo do álbum.

Necrofilia/Propaganda é um registro persistente, lembrando as primeiras fitas do Atrax Morgue. Até onde eu sei, um dos primeiros registros do gênero death-industrial feito no Brasil. Em alguns momentos soa como uma única peça, um painel de referências para um album futuro ou a trilha sonora de um filme de terror, mais preocupado com o experimentalismo e com a construção de um ambiente sufocante, apreensivo e de pura maldade do que com a música em si.

A primeira música, "Vaginismo", consiste em um um único ruído gerado em um teclado, processado e reproduzido em forma de loop. "Primeiro Delírio" traz o audio de uma reportagem sobre Chico Picadinho (retirado diretamente de um VHS), processado com efeitos. "Domínio Sexual" foi gravada com um teclado Roland xp60 e com um Pro-Fex pro vocal. É a única música do álbum que possui uma letra, escrita em parceria com Mario Brandalise. "Psicopatia" traz um depoimento retirado de um programa de rádio, em que um homem narra sua trajetória de vida, do vício em drogas à religião. O Roland xp60 ganha um aspecto persistente em "Post-Mortem", já "Scum", segundo Lucas Pires, tem influência de Black Metal. Mesmo se tratando de uma brincadeira, o sintetizador lembra uma guitarra embolada à lá Hellhammer. Por cima do synth, o audio de um programa religioso manipulado com efeitos. A última música, "Esgorjae", na verdade é uma sobra de "Primeiro Delírio", manipulada diretamente em um walkman, que Lucas Pires garante que usa até hoje. Mesmo se tratando de um álbum de atmosfera angustiante e difícil audição, Necrofilia/Propaganda é um divisor de águas da música industrial brasileira e uma peça fundamental na história da música experimental carioca.

Ouça Necrofilia/Propaganda na íntegra acessando: http://www.archive.org/details/n0epcd1205

Thiago Miazzo

Um comentário:

Ezio Fernandes disse...

Eu sou um " doido " por fita k7 , tenho muitas.... e muitas são preciosidades. È o caso deste trabalho do Mortuario , que possuo em fita . Fantastico !!!

Parabens , que apesar de ter passado deis anos , continua super contemporanea.

Ezio / Zoyd Discos