quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

(crítica - disco) Satanique Samba Trio – Bad Trip Simulator #1 (2011; s/g, Brasil)



Imagine-se entrando numa daquelas feiras que se espraiaram pelo Brasil a reboque do prolongado êxodo nordestino. Entre milhões de barracas cobertas de penduricalhos, carne seca, manteiga de garrafa, tapioca… Em meio a uma imensidão de vendedores, bebuns, comensais, bailarinos, dondocas, todos alegremente fundidos na mistura de todas as coisas e de todos os sons: baião, forró, brega, calipso, pagode, em alto e bom som, tudo ao mesmo tempo agora. Você prossegue em meio à algazarra, sem lenço e sem destino, numa emboscada de sensações. Lá pelas tantas, o andar trôpego, você esbarra com o John Zorn, acompanhado do Naked City. Diz ele que vai fazer um som com o Hermeto, ali, na próxima barraquinha…

Assim é a música do brasiliense Satanique Samba Trio: uma torrente de acontecimentos, sensações e percepções que buscam desesperadamente mobilizar a atenção do ouvinte. Atenção para o “desesperadamente”: apesar de emanar o calor da feira, trata-se de um trabalho orientado para a construção de um desequilíbrio programado, resultado do rigor das composições de Munha, arranjador, instrumentista e produtor. Assim, entre o EP Misantropicália (2004), Sangrou (2007) e Bad Trip Simulator #2 (2010) não há diferenças substanciais do ponto de vista do conceito, pois o que difere um disco do outro é a economia de inclusão dos gêneros, estilos e sonoridades com os quais o Satanique trabalha. Nesse sentido, pode-se dizer que a cruzada continua.

Bad Trip Simulator #1, terceiro álbum do grupo, é menos explícito que os primeiros, mas confirma o interesse do Satanique em volatilizar os clichês da música instrumental, particularmente aquela que se dedica aos gêneros nacionais. Jogando com seus limites timbrísticos e formais, vai por um caminho diferente de outros grupos instrumentais brasileiros da atualidade, como o São Paulo Underground, o Chinese Cookie Poets e o Burro Morto. Estes abraçam prontamente a influência do rock, do noise, do free-improv americano e inglês, enquanto o Satanique opera a partir do esfacelamento das células rítmicas do samba, dos ritmos regionais e da bossa-jazz. Sua música, portanto, vai de encontro amiúde com o legado da música brasileira instrumental, na intenção de desembaraçá-la dos clichês e armadilhas em que ela mesma se colocou.

Para tanto, o grupo aposta na descontinuidade das composições e arranjos, no excesso absurdo de convenções e, sobretudo, na experimentação com os timbres, obtida muitas vezes pela captação das partes incomuns dos intrumentos – nesse sentido, reparem principalmente na intrigante “We Have Obitum”. O caráter fragmentário da música se exprime na sucessão de variações em “SPLATTER GORE FINESSE”, nas texturas sinistras de “E.F.M-M in concert”, no suingue interrompido de “Afro-Sinistro”, nas cinco badtriptronics – troça com as frippertronics de Robert Fripp –, e na concentração do arranjo de “Banzo Bonanza”. Uma sucessão de faixas que, goste-se ou não, destoa de tudo o que se faz em música instrumental hoje no Brasil.

Desta vez, porém, uma tonalidade mais viva percorre todo o trabalho, devido à valorização de temas e melodia – como em “–” e na maior faixa do disco, “Diabolyn (original remix)”. Em outros momentos, o Satanique deixa transparecer uma frieza na execução e na articulação dos diversos temas – ideia com a qual não concordo propriamente, mas vá lá, estamos falando de instrumentistas virtuosos... Ora, nota-se claramente que a condução impassível das faixas justifica-se, pois opera em favor da “profissão de fé” do grupo: não permitir, nem sequer por um minuto, que o ouvinte se acomode diante da música.

Bernardo Oliveira

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