sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #11

Eli Keszler manipulando a instalação "Cold Pin" 

Notas pré-carnavalescas


- Shows: Além da pá de shows que foram anunciados durante o mês de janeiro e fevereiro de 2012, podemos contar com o Masada de John Zorn, confirmado no Rio (Espaço Tom Jobim, 16/03, sexta-feira, dá uma olhada no Feicebuqui). Também confirmaram uma rapaziada nova (Bob Dylan, Crosby, Still & Nash, Joe Coker e Duran Duran), além de Japandroids, The Ting Tings, Morrisey, Arctic Monkeys, entre muitos outros – e lembrando novamente que ainda tem Sónar, Lolapalooza, etc.

- Hoje, eu e Marcelinho da Lua fazemos a penúltima participação na Rádio Oficial do Verão, com mais um Mundo da Lua. Desta vez, muito rock'n'soul com Rolling Stones, Curtis Mayfield e demais pepitas. Às 21h no dial.

- Para finalizar, três críticas das últimas semanas para três lançamentos bastante significativos, que foram para a FACT Magazine PT. São elas:  Ital, Hive MindKyoka, iSH DJ Rashad & DJ Spinn/RP Boo, Meet Tshetsha Boys.

Voltamos na sexta que vem. Bom carnaval a todos.




Boy Friend – Egyptian Wrinkle (2012; Hell, Yes! Records, EUA)
O Boy Friend foi um dos lances mais legais que surgiram em 2011, lançando uma série de EPs ao longo do ano. Formado por Christa Palazzolo (do projeto Sleep Over) e Sarah Brown, lançou no começo de fevereiro o debut LP Egyptian Wrinkle. Quem já conhece a proposta sonora do duo, já sabe o que esperar: doses massivas de sintetizadores, bateria minimal e slide-guitars de aspecto flutuante. Resumindo, chill-wave nebuloso com o pé no dream pop, acompanhado por cuidadosos arranjos vocais. Ouça "Bad Dreams" e a faixa -título no Bandcamp das meninas. 


Modern Witch – Unknown Domain (2011; Laser Palace Records, EUA)
Apostando em drum machines vintage e sintetizadores gelados, o som do Modern Witch oscila entre o darkwave e o electropunk, influências comuns na nova cena drag/witch house. Minimal ao extremo, algumas músicas dão a impressão de ser mais extensas do que realmente são. Essa estranha alteração na percepção do tempo provocada pela Modern Witch faz com que, em certos momentos, a gente se desligue por completo da música – dúvidas como "quanto tempo faz que esse som tá rolando?" são comuns ao longo do álbum. Não se trata de um minimalismo chato, e sim uma hipnótica repetição capaz de provocar confusão mental. O clima claustrofóbico de Unknown Domain ganha maior intensidade graças à gravação de aspecto lo-fi. Lançamento em formato CD-R, limitado a 100 cópias. Ouça as músicas "Not the Only One", "Dead Boyz" e "A Forest".


Cold Cave – Cherish the Light Years (2011; Matador, EUA)
Cold Cave é o nome do projeto liderado por Wesley Eisold que, desde 2005, bebe da fonte da música eletrônica produzida nos anos 80, passando por diversas referências que vão do noise ao darkwave. Cherish the Light Years, lançado em 2011, é um disco dançante, bem diferente do clima introspectivo de obras como "The Trees Grew Emotions and Died" e "Painted Nails". O ponto central do album é o goth-pop, lembrando os trabalhos do Depeche Mode, Siouxsie and the Banshees e New Order em faixas como "Catacomb" e "Confetti". Em outros momentos, remete ao experimentalismo pop do Cure da fase Kiss me, Kiss me, Kiss me, como se pode notar no uso inusitado de trompetes na faixa "Alchemy Around You".

Thiago Miazzo



Eli Keszler – Cold Pin (2011; Pan, Alemanha [EUA])
Com Steve Pyne, Eli Keszler responde pelo projeto Red Horse, resenhado em conjunto com o Cut Hands de William Bennett aqui no Matéria. Desta vez, Keszler apresenta Cold Pin, composição/instalação inusitada, criada pelo artista e multiinstrumentista americano. A maquinária consiste em 14 cordas de piano esticadas em alturas diferentes (de 1 a 7 metros), amarradas em uma parede curva de 15 x 40, ligadas a micro-controladores, pick-ups e cabos RCA. A harpa anômala é executada conforme o artista aciona os controladores. Não satisfeito, Keszler convidou alguns amigos para acompanhar a parafernália: Geoff Mullen (guitarra), Ashley Paul (clarinete e guitarra), Greg Kelley (trumpete), Reuben Son (“bassoon”) e Benjamin Nelson (violoncelo) improvisam minuciosas texturas, com os dois pés no pontilhismo abstrato, à semelhança do Limescale de Derek Bailey. Abaixo, o leitor pode conferir a empreitada:


eli keszler : cold pin from eli keszler on Vimeo.


Rene Hell – The Terminal Symphony (2011; Type, EUA)
Talvez este álbum não seja adequado para as Minicrônicas, pois lá se vai quase um ano desde seu lançamento. Trata-se do segundo álbum do prolífico músico americano Jeff Witscher sob o pseudônimo Rene Hell. Manipulando seus sintetizadores, sob uma série de pseudônimo e projetos, Witscher se tornou um dos representantes da tendência neo-synth que invadiu a seara da música eletrônica na última década. The Terminal Symphony, cuja capa traz uma imagem sugestiva, apresenta dez composições que primam pela variação contínua, desde a releitura da Komische music (“Baroque Ensemble Coda” e “Lighthouse Marvel” sobretudo), até tentativas de elaborar composições para cordas (na faixa de encerramento, “Adagio For String Portrait”), tudo soa saudavelmente pretensioso nesta “sinfonia” de um homem só.



Andrew Pekler – Sentimental Favourites (2011; Dekorder, Alemanha)
Outro trabalho caracterizado por uma minuciosa arqueologia sonora e reconstituição criativa. Desta vez, o alemão Andrew Pekler (que integrou o Groupshow, trio que incluía Hanno Leichtmann e Jan Jelinek), retoma elementos da música dos anos 60 e 70, na intenção de recriar o “esforço do easy listening que marcou o final dos anos 60, início dos anos 70, que fundiu o sofisticado pathos de composição de Burt Bacharach, Jimmy Webb ou The Carpenters com uma atenção pós-psicodélica aos detalhes sonoros.” Sacou? Não? Pois saiba que o resultado varia entre hipóteses ainda mais vagas: algo como se o misterioso produtor inglês Patten deixasse as batidas de lado para concentrar-se exclusivamente sobre as texturas harmônicas, ou se o ambient primordial de Brian Eno assumisse de verdade a influência dos sintetizadores alemães. 


Bernardo Oliveira

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