sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #9


A originalidade dos indisciplinados
“Como quase tudo isso são defeitos, devemos convir que somos um caso feio, tamanhas seriam as carências de que padecemos. Seria assim? Temo muito que não. Muito pior para nós teria sido, talvez, e Sérgio o reconhece, o contrário de nossos defeitos, tais como, o servilismo, a humildade, a rigidez, o espírito de ordem, o sentido de dever, o gosto pela rotina, a gravidade, a sisudez. Elas bem poderiam nos ser ainda mais nefastas porque nos teriam tirado a criatividade do aventureiro, a adaptabilidade de quem não é rígido mas flexível, a vitalidade de quem enfrenta, ousado, azares e fortunas, a originalidade dos indisciplinados." [Darcy Ribeiro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, p. 51]




No final do ano passado, saiu pelo selo alemão Shitkatapult um dos discos mais inusitados dos últimos tempos – ao lado da sinfonia de 1-Bit de Tristan Perich. Trata-se de OvalDNA, último rebento da imaginação metódica e delirante de Markus Popp, que assina seus trabalhos como Oval e Microstoria. O pacote, que inclui CD, DVD e livreto assinado por David Toop, faz valer uma antiga promessa de Popp, que consiste em disponibilizar arquivos de seus trabalhos para livre manipulação do ouvinte. Questões estéticas de lado – tratadas em texto para a FACT Magazine – vale notar que em tempos de capitalismo obscurantista, a atitude de Popp transcende a generosidade: é política mesmo.




Hoje no programa Mundo da Lua, eu e o DJ Marcelinho da Lua apresentaremos um programa inteiramente dedicado a alguns selos que fizeram e ainda fazem a história da música. Stax/Volt, Fania, Stones Throw, Joe Gibbs Music, Copacabana e Equipe compreendem mais de 50 anos de música original, revelando artistas como Otis Redding, Isaac Hayes, Jonnhy Pacheco, Celia Cruz, J Dilla, Madlib, Elza Soares, Oswaldo Nunes, Noriel Vilela, Mighty Diamond, Black Uhuru, entre outros. A partir das 21h na Rádio Verão, 102.9 no seu dial, também na internet.



Earth – Angels of Darkness, Demons of Light I (2011; Southern Lord, EUA)
Com mais de vinte anos de existência, o Earth (liderado por Dylan Carlson) nasceu em Seattle em meio à explosão do grunge. Em 1991, enquanto o mundo inteiro estava ocupado demais ouvindo o Nevermind ou o Black Album – ou ainda os chatíssimos Use Your Illusion 1 & 2 –, o Earth lançou seu primeiro álbum, um EP chamado Extra-Capsular Extraction. Contando com a participação de Kurt Cobain nos vocais, o Earth apresentou ao mundo um doom metal minimalista nunca antes explorado que, muitos anos depois, ganharia o nome de drone-doom e seria citado como influência por bandas do quilate de Sunn O))), Boris e Melvins. Ao longo de sua carreira, a banda deixou de lado as influências de Doom Metal, abrindo espaço para novos instrumentos e referências. Angels of Darkness, Demons of Light I, lançado em 2011 pela Southern Lord Records, traz fortes influências de post-rock e country/folk, somado ao até então inédito uso do violoncelo na música da banda. A estrutura minimalista permanece, mas de maneira alguma isso deve ser encarado como algo negativo, os riffs principais e suas variações não tornam a audição enjoativa. Ouça as excelentes "Old Black" e "Descent to the Zenith" e tire suas próprias conclusões. A saber: Angels of Darkness, Demons of Light II tem data de lançamento marcada para o dia 14 desse mês.


SBTRKT – SBTRKT (2011; Young Turks, Reino Unido)
O DJ Aaron Jerome meteu uma máscara africana na cara e resolveu fazer música pop com elementos bass culture, pegando uma carona nessa onda do post-dubstep. Apesar disso, o dubstep é apenas uma das tantas vertentes encontradas nesse disco. Partindo do uk garage e do 2 step, o álbum segue uma louca viagem em que cada música ganha seu próprio jeito, de modo que nenhuma se parece com a outra. Em momentos como "Hold on", o disco faz referências ao R'n'B mais tristonho, sem medo de soar pop. Já "Sanctuary" tem timbres mais sujos e influências de miami bass e old school rave. SBTRKT, lançado em 2011, tem como um de seus pontos mais fortes o baixo, sempre preciso, em alguns momentos grooveado e que não se limita ao woobwoobwoobwoob de algumas músicas do estilo.


Jesu – Ascension (2011; Caldo Verde Recordings, Reino Unido)
Aos 13 anos de idade, Justin Broadrick fundou o Final e, ainda na adolescência, tocou guitarra no primeiro (e histórico) disco do Napalm Death. Anos depois, fundou o Godflesh e, mais uma vez, deixou seu nome marcado definitivamente após o lançamento do influente Streetcleaner em 1989. Pouco tempo depois de o Godflesh anunciar o seu fim, Justin Broadrick criou o Jesu, projeto que desde 2004 tem lançado uma quantidade significativa de albuns, Eps, splits e remixes. Ao longo de sua carreira, a banda manteve o foco no post-metal, enquanto a agressividade dos primeiros albuns deu lugar a um clima introspectivo, flertando com a música eletrônica, o shoegaze e o post-rock. Ascension é o quarto disco de estudio e um dos mais fáceis de digerir. Não tem o aspecto claustrofóbico e hostil de outrora, mas conserva o aspecto triste – uma constante em toda a sua discografia. Só Jesu expulsa a felicidade das pessoas. Destaques: "Black Lies" e "King of Kings".

Thiago Miazzo




Zammuto – Idiom Wind (2012; Make Mine, Reino Unido [EUA])
Com o aparente encerramento das atividades do The Books, Nick Zammuto partiu para uma nova empreitada. Trata-se do quarteto batizado oportunamente como Zammuto, e que debutou este ano com o single Idiom Wind, composto por três faixas: “Idiom Wind”, “F U C-3PO” e “Weird Ceiling”. Logo na faixa-título, a senha: “we can put a name on it, but it’s not the real name”. Com este trabalho, Zammuto sustenta o interesse na dimensão de jogo e no aspecto fragmentário de poesia sonora que marcaram os melhores trabalhos do Books. O tom de aleatoriedade programada se mantém, na maioria das vezes através de estruturas de composição que se valem da apropriação irônica de variadas formas de manifestação musical: canção, sampler de discos inusitados, música sequenciada, música concreta, etc. A faixa mais interessante é a delirante “Weird Ceilling”, cujo formato, embora não fuja à comparação com o Books, indica um caminho mais “musical” em sentido estrito, com sua estrutura de arranjo que se vale de guitarras e percussões. O mesmo se pode dizer do refrão folk-rock de “F U C-3PO”. Sem dúvida, um (re)começo promissor.


Distal – Eel (2012; Seclusiasis, Reino Unido)
Os americanos estão botando a mão na massa quando o assunto é música eletrônica de matriz inglesa, particularmente ligada ao dubstep e suas ramificações. Com o aparecimento do juke/footwork de Chicago, esta apropriação se tornou ainda mais particular, o que para os ouvintes é motivo de comemoração. Ao lado de Machinedrum e FaltyDL, Michael Rathburn, mais conhecido como Distal, vem se destacando como um dos produtores mais originais do ramo. Eel é o tipo de EP que de tão interessante acaba por superar os remixes que o completam – realizados por BD1982, DS1, Thrills e pelo próprio Travis Stewart aka Machinedrum. Valendo-se do peso das percussões e de repetições massivas, o EP conta com três faixas: a batucada tribal em “Eel”, o funky serra elétrica de “Kurgan” e o juke obsessivo “Hut”. Hibridismo radical, timbragens enérgicas e rascantes, fazem de Eel o EP mais instigante deste início de ano.

Ouça algumas faixas antigas assinadas por Distal.


Vários Artistas – Pop Ambient 2012 (2012; Kompakt, Alemanha)
Desde 2001, o alemão Kompakt, situado em Colônia, lança esta compilação de faixas, contemplando os lançamentos ambient ligados ao selo. Capitaneado por três nomes importantes da cena eletrônica germânica dos últimos 20 anos (Wolfgang Voigt, Michael Mayer e Jürgen Paape), o Kompakt tem moral para tanto: é um dos prepostos fundamentais quando o assunto é música eletrônica de caráter experimental, casa de artistas como The Field, Orb, Pantha Du Prince, Gui Boratto, Superpitcher, entre outros. Este ano a compilação gira em torno de uma novidade digna de nota: “Manifesto” pertence ao novo projeto de Jörg Burger e Wolfgang Voigt, que antes formavam a dupla Burger & Voigt, rebatizado como Mohn. A faixa soa como a manipulação das modulações de um acorde de solto, realizado por guitarra elétrica distorcida. O resultado é sombrio e vale acompanhar os próximos passos de Voigt e Burger. Abaixo, o player da Kompakt.



Bernardo Oliveira 

Nenhum comentário: