quarta-feira, 28 de março de 2012

(crítica – disco) Chicago Underground Duo – Age of Energy (2012; Northern Spy Records, EUA)


























Não é de hoje que admiramos o trabalho de Rob Mazurek, assim como não raro o seguimos através de seus projetos menos evidentes. Um deles, seu excepcional álbum solo Calma Gente, prenunciava a tendência abrasileirada que se consolidou no último trabalho com o São Paulo Underground, Três Cabeças Loucuras. Antes, porém, Calma Gente manifestava alguns contornos que me chamaram a atenção para a extrema habilidade do instrumentista em soar lírico quando improvisa até mesmo de forma agressiva – naqueles ataques de fôlego em que se percebe a acentuação gutural do trumpetista. Que misteriosa capacidade é essa que possibilita a Rob Mazurek improvisar com um traço indefectível de lirismo?

Ambientado na música brasileira, Mazurek se volta para um de seus projetos mais curiosos: o Chicago Underground Duo, em parceria com o baterista Chad Taylor (Marc Ribot Trio, Side A, Digital Primitives). Basta recordar o último disco da dupla, o enigmático Boca Negra, para compreender o que estou afirmando. Com efeito, trata-se um dos grupos de improvisação mais interessantes à disposição na praça, não porque são hiper-virtuosos, velozes ou esporrentos, mas porque exploram brilhantemente uma sucessão avassaladora de solos, temas e climas, contextualizados por uma estratégia de concepção que conjuga abstração e composição no seio das formas do jazzísticas do fin de siècle

Economizando nos overdubs, o duo se desdobra para compor faixas acentuadamente diferentes umas das outras, tanto em relação aos seis álbuns lançados até agora, como internamente a esses álbuns. Assim, Age of Energy não espanta somente porque se inicia com uma faixa de quase vinte minutos, mas porque “Winds Sweeping Pines” traz uma mistura arretada de trip-hop, Coltrane, Hermeto Pascoal e o som da mbira de Taylor. Ao longo das três fases da música – o trip hop com viradas de bateria jazzística, a ambient com teclados graves à la Conrad Schnitzler e o “hermetismo pascoal”, reprisado em “Moon Debris”, somente na versão digital – o ouvinte toma contato com a tensão essencial do improviso: entre o sentido da forma e a exploração do acaso, com benefícios para ambas as partes.

“It's Alright” é prova da habilidade do duo em criar formas variadas unificadas por um mesmo espírito. Como se não possuísse um destino ou sentido prévio, a faixa parece apontar para um caminho infinito: brumas eletroacústicas encobrem o solo penetrante de Mazurek, durante dez minutos que mobilizam a atenção. Na sequência, mais uma faixa improvável, a belíssima “Castle In Your Heart”, baseada na shona, música tradicional do Zimbabue. Improvável não pela procedência ou pela textura, composta por vibrafone e trumpete, mas pela simplicidade das escalas, melodias e harmonias. Destoando do conjunto total, “Age of Energy” encerra o trabalho alternando os tempos 21/8 e 12/8, provocando no ouvinte a sensação de constante instabilidade.

Ainda assim, perdura o gosto de Mazurek por um timbre que permite conjugar o aspecto caótico das viradas de bateria com um desenho melódico evocativo e emocionante. Em apresentações, perdura este aspecto generoso, mesmo quando o bicho pega na improvisação e todos os seus parceiros estão “descendo a mão”, como se diz na expressão dos músicos. Mazurek insere ora uma bela melodia, ora um clima, ora um bilhete de Miles Davis… tudo com o aspecto que vos digo: experimental, free, mas irremediavelmente lírico. A notável confluência com Chad Taylor – e com seus demais parceiros – ressalta esse aspecto, e com Age of Energy não é diferente: apesar de gravado em 2009, o trabalho permanece atual, testemunhando a perspectiva privilegiada de sua música. 

Bernardo Oliveira

Ouça amostras das faixas.

Nenhum comentário: