quarta-feira, 21 de março de 2012

(crítica - disco) Chinese Cookie Poets – Worm Love (2012; Sinewave, Brasil)

























Tornou-se consensual a noção de que o improviso em música seguiria um percurso natural, ao sabor de uma boiada desembestada, de uma tromba d’água, de uma avalanche intensa, inexorável. Porém, um olhar mais detido revela que o improviso é sempre mediado por uma qualidade da percepção que corresponde mais ao controle do que ao laissez aller… Quem frequenta os discos de improvisação, seja que tipo de improvisação for (jazz, partido alto, mbalax ou até mesmo o famigerado "free-improv", etc), sabe que esta prática requer o domínio prévio de uma ou mais linguagens determinadas, além da capacidade de ajustar as sonoridades a uma concepção própria. Se, como afirma Derek Bailey, a improvisação aponta para a “natureza da performance musical”, é justamente a mão de ferro da concepção, pessoal e intransferível, que faz dela uma manifestação de interesse.

O grupo carioca Chinese Cookie Poets, que já foi entrevistado pelo Matéria, chega ao primeiro álbum operando de forma peculiar sobre esta premissa. Valendo-se de uma estratégia de improvisação que ilumina justamente o aspecto obscuro do improviso (o controle), Worm Love confirma que o CCP tem cacife de sobra para entrar na alta roda da improvisação contemporânea. O método consiste em dois movimentos básicos: registro de quarenta minutos de improvisação livre e sem esteios; edição criativa que fermenta e altera o material gravado. De um lado, o material bruto (o improviso); do outro, o editor-criador, que com ferramentas de corta-e-cola (de)recompõe esteticamente o material.





Worm Love é, portanto, resultado desse método em nada inédito – já foi utilizado por Peter Evans, Jim O’Rourke, Keiji Haino etc. Mas o que suscita o suprassumo da arte não é exatamente o método, mas o resultado. O que há, portanto, de particular neste trabalho? Além dos maneirismos instrumentais inspirados, vale ressaltar o trabalho com os ritmos, talhado a partir do processo de manipulação digital. Se do ponto de vista da timbragem, o CCP se inscreve na linhagem do post-rock, em termos de concepção trata-se de um trio que parece seguir seu próprio caminho.

Já no clipe de “En La Mano del Payaso”, uma das faixas mais representativas do conceito geral, revelava-se parte de um método de elaboração comparável ao da edição de imagens. Da mesma forma que a edição cria espasmos corporais a partir das imagens das pessoas dançando, as variações rítimicas, harmonias, melodias e ruídos instrumentais retiradas do longo improviso são redesenhadas de modo a produzir espasmos análogos aos que ocorrem no vídeo. O procedimento chega ao ápice na suíte “Three Worms”, sobretudo na terceira parte, “Ziran”, mas é perceptível por todo o disco.

Trata-se de um trabalho relativamente curto (vinte e poucos minutos), mas que adquire densidade conforme o grupo desembolsa seu amplo repertório de possibilidades: a desconjuntada “Plastic Love”, “Discipline and Manners” (com participação de Arto Lindsay, uma das referências do grupo) e o pontilhismo radical de “Free The Monkey”. Claro, há que se notar as influências diretas: Haino, Zu, John Zorn, Fantômas, Boredoms. Mas já há algum tempo, o Chinese Cookie Poets vem se destacando não somente no cenário carioca, mas dentre os artistas mais interessantes quando o assunto é música livre, improvisada ou não. Em relação ao grupo, Worm Love não funciona exatamente como um divisor de águas, mas como a consolidação de um trabalho que, pelo visto, ainda pode render grandes momentos aos admiradores da música experimental.

Bernardo Oliveira

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