quarta-feira, 14 de março de 2012

(crítica – disco) Mats Gustafsson, Paal Nilssen-Love, Mesele Asmamaw – Baro 101 (2012; Terp Records, Holanda [Suécia/Noruega/Etiopia])


























É difícil mesurar o que há de mais interessante nesta sessão de improvisação, ocorrida há cerca de dois anos num quarto de hotel em Addis Abeba. A começar pelo fato de que Baro 101 é produto direto da longeva colaboração entre os roqueiros holandeses do The Ex com artistas etíopes, documentada pela dupla Terrie Ex e Andy Moor na edição de março da revista Wire. Desde 2002, o grupo mantém um trabalho consistente de colaboração e divulgação da música e da cultura etíopes, uma das mais ricas e antigas da África Oriental. Contabilizando as proezas decorrentes destas viagens, podemos citar a aparição para o ocidente de artistas como Zerfu Demissie, Jimmy Mohammed e Getatchew Mekuria (com quem o The Ex gravou em 2007 o sensacional Moa Anbessa), ou ainda os lançamentos do selo Terp, dirigido por Terrie, dentre os quais vale destacar a coletânea Ililta – New Ethiopian Dance Music, testemunha da atualidade desconcertante da música etíope, para além de seu expoente mais conhecido, Mulatu Astatke. 

Baro 101, nome e número do hotel onde ocorreu a gravação, conta com o sax barítono do sueco Mats Gustafsson e a bateria de Paal Nilssen-Love, dois instrumentistas que, junto a Han Bennink, Anne-James Chaton, entre outros, foram convidados pelo The Ex a participar da combinação de happening, concerto e workshop promovidos pelo grupo em Addis Abeba. O etíope Mesele Asmamaw completa o trio com o krar, instrumento tradicional, comum na Etiópia e na Eritreia, espécie de lira com 5 ou 6 cordas, que geralmente soa como uma kora um pouco mais grave. E aqui se inicia a segunda parte da descrição do aspecto mais interessante do álbum, que vem a ser a adaptação inteligente que Asmamaw fez em seu instrumento. Ao lado de dois improvisadores à moda europeia, ávidos por explorar não só os timbres convencionais, como também a própria materialidade de seus respectivos instrumentos, Asmamaw desenvolveu uma série de timbragens pouco comuns e as aplicou conforme o clima e o andamento do improviso. Assim, pode-se perceber ao longo dos mais de quarenta minutos de música, uma sucessão de momentos nos quais a interação entre bateria, sax barítono e krar soa imprevisível e, sobretudo, intrigante.

Em cada uma das duas sessões, os instrumentistas se valem de um arsenal de técnicas e artifícios com o intuito de potencializar o trabalho em trio. A percussão multifária de Nilssen-Love raramente executa um andamento regular, optando por seguir as tramas e espamos tecidos pelo sax e o krar. Gustafsson, como sempre, explora até mesmo o ruído das chaves do saxofone, roçando a nota para atingir um timbre rouco, ora deitando sequências minimalistas, ora aproveitando os picos de fôlego para extrair sons semelhantes a um espirro. Asmamaw se ambienta perfeitamente neste contexto, usando a krar de forma tradicional ou brincando com sua afinação, com seus diversos dedilhados e acordes, e, aparentemente, aplicando efeitos – como dos 3’ aos 5’ da primeira parte, e aos 5’ da segunda, onde o krar parece se transformar em um contrabaixo. Não há créditos para o canto surpreendente que irrompe aos 10’ da segunda faixa, mas presumo que seja improviso do próprio Asmamaw. 

Coeso, porém abstrato, executado de forma enérgica, mas ao mesmo tempo delicada, pródigo em sua exploração do timbre e fluente: Baro 101 transmite ao ouvinte a sensação de que foi gravado em um ambiente de vibrante sintonia entre os três instrumentistas. Trata-se, portanto, não de uma homenagem deferente, mas de um trabalho imbuído da mesma curiosidade e abertura ao diálogo que caracteriza não somente o trabalho dos músicos em questão, como também o projeto (ou o processo?) The Ex-Etiópia como um todo. 

Bernardo Oliveira

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