sexta-feira, 16 de março de 2012

Minicrônicas Discográficas #14

John Zorn



THE MAN ACROSS THE STREETS



IG88 – A Loom And Not Me (2012; Nueva Forma, EUA)
O IG88 é um dos artistas emergentes do net-label IDMF, especializado em música eletrônica. Branden Clark veio acompanhado dos vocalistas Jenni Potts e Bed of Stars em seu novo disco A Loom And Not Me, lançado pelo selo Nueva Forma. É um disco bem grooveado, com beats precisos alternando entre passagens lineares e quebradas, linhas gordas de baixo, subs, enfim, um disco de cozinha pesada que contrasta com os synths leves, flutuantes. Influenciado por uma gama de estilos, passando pelo glitch, o IDM e o post-dubstep, o IG88 tem potencial para agradar a grande parte dos ouvintes de música eletrônica atual.

Ouça A Loom And Not Me, na íntegra


Crisne – Albedo (2012; Phantasma Disques, Itália)
Mais um excelente item no catálogo da Phantasma Disques. Crisne é o projeto solo de Francesca Marongiu, que também participa do duo drone Achiteuthis Rex, mas é no debut Albedo que a artista desenvolve todo o seu potencial, explorando timbres, passagens noise, bons vocais e drum machines bem sacadas. É um disco equilibrado, não é atmosférico o bastante pra te deixar de bode, tampouco se trata de um disco dançante, daqueles que você ouve batendo os dedos na mesa do computador, acompanhando o ritmo da música.




Zola Jesus  In Your Nature (2012; Sacred Bones Records, EUA)
O compacto 7" lançado pela Sacred Bones documenta o encontro entre Zola Jesus e o cineasta/músico David Lynch. A versão original de "In Your Nature", lançada no álbum Conatus, de 2011, ganhou um remix de beat simples, synths "droneados" e guitarras marcando a cabeça das notas, muito distante da esquisitice esperada do diretor de Eraserhead.

Ouça a versão de David Lynch para a música "In Your Nature"

Thiago Miazzo





John Zorn – Naked City (1989; Nonesuch, EUA)
Assim que “Batman” começa, o ouvinte é fuzilado por uma saraivada rock’n’roll em tom paródico, que se transforma em um daqueles filmes de terror para nervos de aço. Na sequência, a música tema de “The Sicilian Clan”, composição original de Ennio Morricone, reforça o clima cinematográfico. Grindcore, jazz, rock’n’roll, sem escalas, editado como cenas de um filme sem pé nem cabeça. Trilhas, cortes, pedaços de imagem, sangue espirrando na tela, florestas e cabarés… Instabilidade pop em obras-primas como “You Will Be Shot” ou “Latin Quarter”. A partir de “Igneous Ejaculator” até “Speedball”, Naked City transfigura-se em uma avalanche grindcore repleta de convenções instrumentais ultra-rápidas, com duração média de 30 segundos. A participação de Yamatsuka Eye, do Boredoms, assola impiedosamente os ouvidos do pobre indivíduo que se arrisca a escutar seus gritos insanos. Dos primeiros títulos da longa discografia de John Zorn, talvez seja o mais influente e decisivo em relação a seu trabalho posterior, particularmente no que diz respeito a seus métodos de composição extremamente fragmentários e abertos ao improviso. Um disco irregular (no melhor dos sentidos), maluco, empolgante e, acima de tudo, magistral.


Masada  – Vav (1996; DIW Records, Japão [EUA])
Sem desmerecer William Parker, Wadada Leo Smith, Matthew Shipp e outros grandes músicos, pensadores e criadores inscritos na seara do jazz – do tipo de improvisação pertencente à desconfiguração criativa do legado do jazz norte-americano. Porém, tomando como horizonte os últimos vinte anos, posso afirmar que não conheço nada parecido com o quarteto Masada. A respeito dessa empreitada, Zorn declarou: “A idéia do Masada é produzir um tipo de música judaica radical, uma nova música judaica, que não é a tradicional, em um arranjo diferente, mas a música para os judeus de hoje. A idéia é colocar Ornette Coleman e as escalas judaicas juntas.” Signos judaicos ornamentando as capas, linhas melódicas que remetem à música judaica tradicional, um songbook com mais de 500 temas, distribuídos por uma série de álbuns batizados com as letras do alfabeto judaico. Música vibrante, ágil e, novamente, fortemente imagética, que se exprime atraves de álbuns como Alef, Hei, Beit, entre outros. Mas escolhi o sexto volume por conta de uma peculiaridade digna de nota. Batizado Vav ou simplesmente Masada 6, pode ser considerado o trabalho menos estranho do grupo, mas é tambem aquele que, dialogando abertamente com o bepop e deixando de lado os experimentos timbrísticos radicais, abre uma perspectiva inestimável para um gênero que, tendo atingido seu auge nos anos 60, sofria de um decréscimo considerável de seu capacidade de resposta criativa. Vav representa um respiro profundo do bepob, um post-bebop, mas que se impõe pela vivacidade. Sente o drama escutando trechos de “Mikreh” e “Debir”.


John Zorn – Enigmata (2011; Tzadik, EUA)
Composto e “conduzido” por John Zorn, Enigmata é obra também de dois mestres das cordas, ambos ligados a diversos trabalhos do próprio Zorn. Me refiro Trevor Dunn (Moonchild/Mr. Bungle/ Masada), “esmerilhando” no baixo de cinco cordas  que por vezes simula uma escavadeira, com uma distorção pesada e marcante; e Marc Ribot, tocando sua guitarra com a habitual destreza e sensibilidade para “notas certas fora de lugar”. Uma certa monotonia propiciada pela timbragem praticamente invariável dos instrumentos (somente “Enigma Eight” conta com timbres límpidos), é compensada pelas variações propostas pela composição e não compromete o jogo de cena. Pela terceira vez remeto a música de Zorn às imagens, mas no caso desta cena específica, concebida e dirigida pela objetividade libertária de seu gênio, os dois personagens encenam um drama falso. Se não é possível de forma alguma falar em melancolia, mas, precisamente, de seu oposto, evito no entanto me referir a sentimentos de alegria. Trata-se de uma música grave, austera e, ao mesmo tempo irreverente na forma como insinua pausas, ruídos, dinâmicas de ritmo… Enigmata é, como promete o título, mistério, pesquisa e experimentação, mas é também, como escreveu o saudoso Wando, é “fogo e paixão”.

Bernardo Oliveira

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