quinta-feira, 8 de março de 2012

(crítica - EP) Steinvord – Steinvord EP (2012; Rephlex, Reino Unido)


























As especulações ainda percorrem a internet, particularmente entre os interessados em música eletrônica experimental: quem é Steinvord? A julgar pela aparência desconcertante de sua música, uma nova alcunha para Richard D. James (Aphex Twin/AFX)? Ou a continuidade do The Tuss, seu último projeto relevante? O drum’n’bass veloz e experimental, destilado em faixas antológicas como “Milkman”, “Laughable Butane Bob” e “vordhosbn”, é objeto de um culto silencioso, mas que até então restava no baú de antiguidades de boa parte da eletrônica anglo-saxã. Havia tambem a possibilidade de Steinvord representar um retorno promissor de Tom Jenkinson, aka Squarepusher, aos arabescos rítmicos característicos do drill’n’bass da década de 90, hipótese que parece ter sido descartada, mas que reitera a suspeita de que se trata de um trabalho digno de atenção.

Enquanto o mistério da identidade de Steinvord prossegue, somando-se a tantos outros (Eleh, Zomby), a Rephlex editou seu primeiro lançamento oficial. E trata-se de material finíssimo, como há tempos não se vê na seara da chamada IDM. Vale lembrar que, a despeito de uma pá de contrasensos, esta sigla definiu um rico campo de possibilidades instaurado durante o período de ouro da eletrônica inglesa. Se hoje muitos dos bleeps e clicks habitam até produções consideradas mainstream, isso se deve à “batalha sem quartel” travada por alguns artistas como Richard D. James, Matt Elliot, Tom Jenkinson, The Orb, Autechre, entre outros. 



Reza a lenda que Steinvord é, desde 2009, membro do MySpace, divulgando seu trabalho com indisfarçável inclinação lo-fi e uma virulência digna de seus mestres. Afirma que mora em Barcelona, tem 18 anos e faz música com seu “fuckin’ computer”. Dificilmente o aficcionado pelo IDM dos 90 não se renderiam ao brilho reminiscente que percorre todas as cinco faixas do EP. No entanto, aposto minhas fichas que não foi exatamente este o fator que enfeitiçou o mundo virtual, mas uma combinação de anonimato (espécie de virtude que, em tempos “occupy”, penetra com facilidade no imaginário da rede) com a reabilitação do IDM, que chega aos vinte anos com uma bela silhueta, comparável a de outros movimentos como o krautrock e a dubmania. Diante do trabalho de Steinvord nos deparamos com uma profusão de viradas de bateria e baixo, timbrada por sonoridades cruas, saturadas, comparáveis às mixagens toscas propostas pelo produtor londrino Ekoplekz. O aspecto "orgânico" das composições se deve à combinação caótica de batidas, vozes carregadas de efeitos, sons de máquinas industriais, motores ligados e uma chiadeira noise que o afasta definitivamente da timbragem em voga, pautada mais nos sintetizadores germânicos e nas batidas dançantes do que em uma experimentação autêntica.

Logo no início, ambientando o ouvinte no clima soturno que percorrerá todo o EP, “Backyard” exibe o cartão de visitas, com seus acordes sinistros e batidas frenéticas. Depois, as várias partes de “Maelstrom”, que vão de um dubstep lentíssimo ao drum’n’bass agressivo, já fornecem os subsídios necessários para que o ouvinte perceba que, apesar da pouca idade, Steinvord construiu uma identidade sonora própria, estabelecida sobre o desequilíbrio do andamento, dos timbre e do aspecto sonoro em geral. Se faixas como “Iyff Acid e1” e “Cyg X-1” trazem uma lembrança viva do trabalho que Richard James desenvolveu na década de 90, convém assumir que não há via simples de lidar com esta tensão. Se a alguns pode soar como imitação, vale contrapor uma característica que confere estilo ao trabalho de Steinvord. Parafraseando o filósofo Gilles Deleuze, não se trata de uma imitação, mas da constituição de um “campo de intensidades”, uma “onda de vibrações” que antes de rememorar, retorce impiedosamente a experiência e a memória. 

Bernardo Oliveira

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