terça-feira, 3 de abril de 2012

(crítica - disco) Grimes – Visions (2012; 4AD, Canadá)


























O Grimes, formado por Claire Boucher, é uma das grandes apostas para o ano de 2012. Nos últimos três anos, a moça vem trabalhando intensamente em seu apartamento, lançando três discos, além de um split com o D'eon. O rótulo "post-internet", cunhado pela própria artista, define sua obra e toda uma geração de músicos que transformaram seus próprios quartos em home-studios e utilizam as redes sociais como uma ferramenta de divulgação. A música dessa geração é global, pois dialoga com ritmos e cenas das mais diversas regiões e é veloz, por acompanhar as últimas tendências e ter um prazo de validade mais curto do que há dez anos atrás (consequência do acúmulo de informações da era pós-internet), tornando difícil rotular essa música em um único gênero.

Em Visions, o quarto lançamento de sua carreira e o primeiro pela gravadora 4AD, a esquisitice e a atmosfera sombria dos discos anteriores aparecem mais diluídos, resultando em um trabalho mais convencional e inclinado para a música pop. Arrisco dizer que nesse álbum o Grimes encontrou o seu ponto de equilíbrio, dosando com precisão suas influências mais agressivas, como o post-industrial, com a estrutura e a carga melódica do pop. Um dos grandes momentos do álbum – a faixa "Oblivion" – é um exemplo, com linhas de synth em loop, bateria minimal e vocal adocicado. Essa faceta intencionalmente pop também pode ser notada na melodia grudenta de "Genesis" e em "Be a Body", cuja meiguice nem mesmo o beat pesado consegue apagar. Em outros momentos, seu som soa robótico, como na faixa "Circumambient", atingindo o ápice no quase-dubstep de "Eight", com direito a vocal com pitch alterado, como se tivesse inalado gás hélio. 

E por falar em vocal, as melodias criadas por Claire continuam sendo o ponto forte do Grimes, contando com um primor poucas vezes encontrado em um artista iniciante, com destaque para a performance arrepiante da faixa "Skin", que flerta com o R&B. "Nightmusic" conta com a participação do namorado Devon Welsh (mais conhecido como Majical Cloudz) e tem um jeitão gelado, uma aura dark que aos poucos toma conta de todo o ambiente gerando certo desconforto, grande parte causado pela linha vocal no reverse. No fim das contas, o desconforto acaba tornando-se uma marca registrada no pop torto do Grimes.

Thiago Miazzo

Assista ao vídeo oficial de "Oblivion" e ouça as faixas "Nightmusic" e "Skin".

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