terça-feira, 22 de maio de 2012

(crítica - disco) Aaron Dilloway – Modern Jester (2012; Hanson, EUA)


























Aaron Dilloway é um músico norte-americano envolvido em um número incontável de side-projects e colaborações, mais conhecido por ter feito parte do grupo Wolf Eyes. Em 2005, Dilloway deixou a banda e mudou-se para o Nepal, onde continuou produzindo experimentos voltados para o field recording e a non-music. Alguns trabalhos dessa fase são um tanto excêntricos, como a trilogia Radio Nepal, composta por gravações aleatórias de rádios locais, sem intervenções ou qualquer tipo de manipulação. Além de seus projetos musicais, o artista também é dono da Hanson Records que, além de lançar trabalhos de artistas como Kevin Drumm, Emeralds, Hair Police e Prurient, lança seus próprios trabalhos, entre eles o Modern Jester.

É importante saber que Modern Jester foi lançado pela primeira vez em 2008, nos formatos cassette e CD-R, mas não se trata de um simples re-release. Apenas a faixa "Eight Cut Scars (For Robert Turman)" foi mantida, tudo mais é diferente. O Modern Jester em questão, lançado esse ano em vinil duplo, é fruto de três anos de trabalho e, segundo Dilloway, traz mensagens subliminares ao longo de todas as faixas do disco. Trata-se de um trabalho calcado na tape music, mas que flerta com todas as possibilidades que estão ao alcance da sua proposta.

A sonoridade hostil das fitas manipuladas e as frequências mais agudas podem assustar em uma primeira audição, mas não tanto quanto a desconfortável sensação de insegurança, o sentir-se vulnerável e não fazer a mínima idéia do que está acontecendo exatamente e o que mais está por vir. "Tremors", por exemplo, vem acompanhada de uma nauseante sensação de instabilidade, muito próxima daquele medo que a gente sente quando pisa em falso em um degrau. Tal instabilidade é ainda mais perceptível quando a audição vem acompanhada de um (bom) par de fones de ouvido. Enquanto um lado do fone mantem o foco no mesmo loop, o outro lado emite uma sonoridade indecifrável, beirando a cacofonia. 

Ao longo da já citada "Eight Cut Scars", a estrutura sônica vai ganhando novas formas em um ritmo lento, progressivo, dando ao ouvinte o tempo necessário para reconhecer a melodia e acompanhar suas mudanças. Seu formato hostil e seus momentos de precisão matemática soam como um reflexo torto das bandas limpinhas de math rock da década passada. Os quase 19 minutos de "Body Chaos" arrastam o ouvinte para um universo cheio de cliques, fitas zoadas, máquinas a vapor, sons de latidos processados (uma técnica que já havia sido explorada à exaustão por Jordi Valls, um dos pioneiros da música industrial e o cabeça do Vagina Dentata Organ), além de outras peripécias oriundas da field recording e do harsh noise. 

Uma experiência confusa, repleta de passagens opressoras e momentos de um vertiginoso acúmulo de informação, mas que possui o incrível poder de envolver o ouvinte até o fim, nem que seja apenas pela curiosidade de conhecer o final de tão complexa obra. É assim o Modern Jester: ao mesmo tempo que cativa, desgasta.

Thiago Miazzo

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