quinta-feira, 24 de maio de 2012

(crítica – disco) Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. – Son of a Bitches Brew (2012, Important, EUA [Japão])


























A música do Acid Mothers Temple pode espantar à primeira vista, em virtude da cacofonia aparentemente gratuita, do amontoado de camadas sonoras, do “bleep’n’blop” que traduz as intervenções eletrônicas — com o perdão do neologismo. Por outro lado, não são poucas as referências que incrementam o “harsh rock” psicodélico de Kawabata Makoto: Black Sabbath, King Crimson, Funkadelic, Pink Floyd, Gong… Vale ressaltar, porém, que estes artistas não servem exatamente como referência, no sentido de “modelo”, mas como matéria-prima para que Makoto e sua “família” — à moda de um Sun Ra supersônico — invistam com saudável irreverência sobre a música, a imagem e o arsenal simbólico que deu forma e sentido ao rock dos anos setenta. No caso do presente trabalho, Makoto se dedicou à (re)(des)construir clássicos da fase elétrica de Miles Davis, tais como On The Corner, Water Babies, Tribute to Jack Johnson e, é claro, Bitches Brew, resultando em uma incomparável cornucópia de ruídos e estridências.

Abrindo o disco, a faixa título: “Son of a Bitches Brew” é, evidentemente, uma releitura anárquica da célebre improvisação dirigida por Miles Davis no disco homônimo. Percebe-se o método do Acid Mothes Temple em funcionamento, ainda que a sensação geral seja de desamparo e um certo grau de “vandalismo”. O eixo harmônico até se preserva através do improviso do saxofone tenor, mas definha conforme emergem as inúmeras intervenções eletro-eletrônicas, dando a aparência de desorientação programada. Na sequência, a suposta combinação de uma suíte pinçada de On The Corner, “Helen Butte” e “Mr Freedom X” (que se transformam em “Helen Buddha, Miss Condom X”), na verdade contradiz o groove das originais com brumas e ruídos produzidos pelas guitarras e sintetizadores. Na sequência, dois tour de force, “Fellatioh's Dance Also Bitch's Blow” e “Water Babies Kill Kill Kill”, e, finalizando, três faixas menores, que ainda assim, reiteram o espírito excessivo, desregrado, porém rigoroso do coletivo — entre elas "Theme From Violence Jack Johnson", uma tentativa de descaracterizar a clássica homenagem do músico americano ao célebre boxeur

Assim, o que mais chama a atenção em Son of a Bitches Brew não são as fontes mesmas das quais ele retira sua inspiração, e que definem o padrão criativo e operacional do coletivo. Mas a forma de apropriação criada por Makoto no final da década de 90, baseada na desconfiguração alusiva dos modelos, destacando ironicamente seus traços distintivos, seja pela via do excesso de volume e densidade, seja pela justaposição de camadas sonoras. Em todo caso, Son of a Bitches Brew indica uma abertura do cenário de influências do grupo, o que pode sugerir surpresas ainda mais interessantes no futuro. 

Bernardo Oliveira

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