terça-feira, 1 de maio de 2012

(crítica - disco) Bambara Mystic Soul: The Raw Sound of Burkina Faso 1974-1979 (2011; Analog Africa, Alemanha)


























No final de 2011, a Analog Africa, o selo do pesquisador, colecionador e DJ alemão com nome mezzo indiano, Samy Ben Redjeb, lançou mais uma coletânea de raridades musicais africanas. O “elo perdido” da vez fica em Burkina Faso, ex-Alto Volta desde 1984, circunvizinhado por Mali, Níger, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim. Já de saída, conclui-se que, partindo do princípio de que o período compreendido pela presente compilação vai de 1974 a 79, todos os músicos que se apresentam no álbum atendiam, então, pela condição de alto voltenses. A prospecção dos compactos de 45 RPM realizadas por Redjeb rendeu descobertas preciosíssimas. A seleção é particularmente muito feliz, e, fora de dúvida, traz o protagonismo do famoso artista local Amadou Ballaké, que já havia dado o ar da graça em outras coletâneas produzidas não exatamente sob esse critério nacional, mas sempre sob o da referência ao continente a que Burkina Faso, “A Terra dos Homens Íntegros”, pertence.

Levando em conta a sua localização cartográfica, Burkina Faso parece ser mesmo dotada de uma confluência cultural incontestável. E uma obra como Bambara Mystic Soul não parece querer provar o contrário. (Bambara é o idioma preponderante no Mali, e tem parentesco direto com o dioula, falado “oficialmente” em Burkina Faso.) Nela, tradições musicais já assumidamente híbridas de outras “nacionalidades” africanas são automaticamente audíveis. Hibridismo que é tomado por “modernidade”, segundo a capacidade de entendimento de muitos – ainda. O conceito de fronteiricidade aparenta definir, em parte, o perfil do repertório da presente coletânea. “Em parte” porque até países que não tangenciam Burkina Faso no mapa parecem contribuir com a sua formação sonora (e, por reciprocidade, supõe-se que sejam agraciados com a mesma generosidade). Daí, ecos de bandas e artistas africanos do período sejam notados sem muito esforço, o que só reforça a ideia de que o câmbio entre os mesmos foi complexo, fora das reduções do esquematismo evolucionista que ainda teima em ditar regras até entre quem se julga apto a – criticamente – julgar música. E, claro, que se retome a tese meio gasta, aqui, mas necessária: quase sempre sob a égide da deflagração do funk, fenômeno de ruptura rítmica cujos efeitos orientam a indústria musical até hoje (reserve-se o direito de julgar se para o Bem ou para o Mal, já que não é, definitivamente, o que está em questão aqui).

Mas ainda não é possível fugir do tema...

Em meados dos anos 1960, James Brown e os J.B.’s não teriam como imaginar a longevidade do ritmo que criaram  como um meio de conferir, naquele momento, ainda mais peso e agressividade ao soul já consideravelmente sincopado que executavam. As diversas derivações que o funk assumiu ao longo do tempo são o testemunho dessa longevidade. Afirmar isso não é corroborar, agora, o evolucionismo musical desqualificado linhas acima, mas reconhecer que o movimento contínuo de apropriação e reapropriação que a dinâmica da música negra não se cansa de promover é muito mais evidente do que se suspeita. Ou seja: ter em mãos Bambara Mystic Soul é uma rara oportunidade de constatar a permanência do que se produziu num país historicamente à margem dos circuitos de difusão e consumo da grande indústria cultural. Apesar do potencial de diálogo amplo e frutífero que o seu repertório já apresentava com o seu tempo – e, claro, com o nosso –, talvez estejamos mesmo agora no terreno da atemporalidade, apesar de certa arbitrariedade crítica que este conceito encerra.

Amadou Ballaké, nosso homem em Ouagadougou, comparece em seis faixas: quatro com a clássica Orchestre Super Volta, e duas com os Les 5 Consuls. O conjunto Afro-soul System, com “Tink Tank” e “Oye Ka Bara Kignan”, de Ballaké, à frente da Super Volta, fornecem a prova da irmandade atávica entre os ritmos locais com o então relativamente recente black soul. E não seria de estranhar que “Love, Music and Dance”, com a sua levada disco funk, figurasse no repertório da beninense Orchestre Poly-Rythmo. E, curiosamente, já que falamos em voodoo funk, não é equivocado dizer que “Katougou”, de Traoré Seydou Richard e seus Les Vaudou Du Flamboyant, traz certo acento islamizado no vocal do seu homem de frente, apesar do nome que ostenta a sua banda de apoio. Curiosamente, o sato e o sakpata, ritmos vodu que fornecem a matéria-prima para a fusão com o funk e outros gêneros que a Poly-Rythmo promove, parecem não ser (salvo engano – afinal, a incerteza é quase regra na nossa contribuição à pauta africana do Matéria) as batidas que conduzem esta composição em particular.

Ainda sobre Ballaké, não é difícil perceber o quanto “Renouveau”, executada conjuntamente com os seus Les 5 Consuls, é a mais atmosférica de todas as faixas presentes na coletânea. Como admite no encarte, Redjeb demonstrou espanto ao descobrir que a sua letra trata do projeto reformista de fundação do “governo de Renouveau”, em fevereiro de 1974, quando ele julgava que o seu conteúdo poderia estar mais relacionado a uma viagem espacial do seu autor a bordo de um Sputnik de cuja janela vislumbrasse o planeta Terra – uma imagem pertinente, sem dúvida. O fraseado da guitarra de “Tond Yabramba”, de Sandwidi Pierre e sua Orchestre Harmoine Voltaïque, remete às trilhas dos clássicos westerns de Sergio Leone assinadas por Ennio Morricone. Confessadamente inspirado no trabalho de cordas da surf music norte-americana, na linha dos Ventures e dos Shadows, Morricone criou uma ambiência sonora não exatamente desértica, mas sugestiva de ermo sob sol escaldante. E que se tornou referência para o gênero, a partir da visualização das extensas pradarias que servem de cenário para a “Trilogia dos Dólares”, protagonizada pelo personagem inominado de Clint Eastwood. É curiosa a relação entre essa fabricada paisagem sonora praiana e a outra, árida, cuja amplidão recortada por canyons passaria a “abrigar” um estilo tão próximo na levada e na reverberação das guitarras.

Ousamos dizer que essa mesma ambiência aparenta, mesmo que inconscientemente, ser resgatada por uma composição que é, por princípio e definição, um objeto da cultura de Burkina Faso, país subsaariano, mas repleto de desertos ao norte. (E que, como já se disse aqui, situado no centro de tantos encontros geográficos e culturais da costa ocidental africana.) Portanto, “Tond Yabramba” talvez seja a segunda canção mais atmosférica do álbum. “Zambo Zambo”, de Mamo Lagbema, e “Sie Koumgolo”, de Coulibaly Tidiani, remetem ao som das clássicas orquestras guineenses Bembeya Jazz Orchestra e Balla Et Ses Balladins. Mangue Konde, secundado aqui pela banda Le Super Mandé em “Kabendo”, com a sua estrutura meio de soukous congolês, é um artista pop que merece uma coletânea dedicada exclusivamente ao seu talento. E a presença desta faixa específica na coletânea é só mais uma confirmação disso. 

Bambara Mystic Soul é uma peça inestimável de prospecção musical, seleção de repertório e pesquisa – no sentido mais extenso do termo (vide o encarte). A tendência atual de selos como a Analog Africa em realizar compilações com estes recortes de nacionalidade e de período musical merece toda a atenção disponível (OK, o conceito de nacionalidade é cultural e historicamente complexo no contexto africano, mas este não é o espaço para se discutir isso a fundo). É de se lamentar que essa música não tenha tido o seu valor reconhecido, como já se disse, num circuito mais amplo de difusão, para fora do seu espectro de origem. E, também que, para sanar isso, os esforços de Samy Ben Redjeb tenham sido tão tardios. Mas não por sua culpa. Outro que o precedesse na mesma tarefa também estaria inevitavelmente condenado ao êxito. É que só hoje podemos avaliar o preço que foi não ter havido antes, neste mesmo solo precioso, semelhante garimpagem.

Lucio Branco

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