quinta-feira, 10 de maio de 2012

(crítica - disco) Cluster – Zuckerzeit (1974[1995], Polydor K.K., Alemanha [Japão])


























Antes de gastar o tempo de vocês com palavras que não resultarão em música, peço desculpas pelo desleixo da estréia. Em semana de Sonár, mudanças e céu claro, fica bem mais difícil pensar em qualquer coisa legítima para se dizer sobre um grande disco.

A ida à 5a Feira de Discos de Vinil do Rio de Janeiro, que ocorreu no Instituto Metodista Bennett no último domingo (uma verdadeira reunião entre o amor profundo à música e um mercado supervalorizado — as "belas" contradições liberais...), me fez querer escrever sobre algum dos achados do dia. Na falta de tempo e de um toca-discos montado em casa, resolvi ficar mesmo com um clássico pessoal que, na minha modesta opinião, é um dos discos que mais definiu sua época além de apontar diversos caminhos para a música do presente (em um momento em que a noção de sucessividade talvez já não seja a linha narrativa principal).

O álbum é Zuckerzeit (ou em português “tempo de açúcar” — um nome altamente irônico), lançado em 1974 pelo Cluster, duo alemão formado por Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius — nesse registro operando basicamente como um quarteto, com as participações fundamentais de Michael Rohter (do Neu!) e do engenheiro de som Conrad Plank. O nome já introduz o que há por vir: o tempo que se derrete e melodias mais grudentas do que aquelas presentes nos trabalhos anteriores do conjunto. Isto não significa uma menor densidade: o caminho aparentemente simples acaba por se tornar um grande labirinto.

De cara somos assaltados pela majestosa “Hollywood”. A presença de Rohter é inegável — a batida “motorik” (batida reta que é uma das principais características do "krautrock" clássico — batida que se assemelha a um motor), timbres mais brilhantes e estrutura melódica aparente. No entanto, definitivamente não estamos no mesmo território do Neu! ou de qualquer outra banda desse período do "krautrock". O que começa reto se torna, discretamente, uma curva. O ponto de partida é a simples sequência cíclica Bb-Db-Ab-B-Db-Eb, a qual se somam diversas variáveis, nenhuma completamente estável ou com a mesma divisão rítmica. Esse será o principal método do disco, apesar da diversidade de faixas. O grande êxito do Cluster, que ainda se mostra uma bela lição, é mostrar que o uso do loop e do sequencer não precisa sobrepujar completamente o interplay: o álbum ainda soa como o trabalho de uma banda, no sentido mais próprio do termo.

A próxima faixa é “Caramel”, uma música ainda mais direta. Espécie de precursora das explorações acid do brilhante Richard D. James (quando ouvimos uma faixa como “Breath March”, do compacto Analord 4, fica quase impossível não lembrar de “Caramel”), apresenta toda força do grupo. Uma faixa de potência pura, marcado pelo contraste entre uma linha de baixo hipnótica e uma linha de "solo" vacilante. Em menos de 3 minutos, ela marca de tal forma que poderia durar quase eternamente em uma louca pista de dança, sem entediar os presentes. O pulso diminui, se mesclando com o experimento pré-glitch de “Rote Riki”. Os sintetizadores modulares tomam a dianteira, construindo esta bela paisagem sonora difícil de descrever. Não é exatamente como a chamada "estética do defeito" do glitch, mas uma bela apologia à inexatidão dos sistemas modulares e seus sons infinitos. Música concreta sem academicismo e conectada ao mundo, sem ignorar as contradições e ruínas do entorno alemão.

“Rosa” trabalha também com a idéia de paisagem, no entanto, se aproxima desta de forma totalmente diversa. Uma paisagem nostálgica e melódica, para deixar Daniel Lopatin envergonhado de fazer música. Sequências em modulação de tom em conjuntos com linhas em deslize e atacadas correndo paralelas. Domínio completo das técnicas de síntese aplicadas no fazer musical.

Daqui para frente, para não se tornar completamente supérfluo, prefiro não seguir descrevendo música por música mas comentar aspectos também importantes que ainda não foram explicitados (ah desleixo! — mas é mesmo melhor ouvir do que ouvir falar). É só a partir deste momento do disco que as guitarras invadem o som. Não da forma típica, mas também de uma forma clarividente. Em “Caramba”, elas entram para confundir a sequência dançante, próxima até da usina sonora do Kraftwerk, trazendo de forma condensada a mentalidade anárquica do Cluster. Sons de guitarra desafinados dominando a sequência básica da faixa levando progressivamente até o fim. Em “James”, a guitarra se torna o fundamento. Temos um Cluster completamente diferente, trabalhando com os restos do blues primordial como vieram a fazer depois Marc Ribot, Bill Frisell e o Earth na fase mais recente. Frases são sobrepostas em loop até se esgotarem. Isso não significa uma descaracterização — tudo é muito bem integrado no álbum, que segue, após esse curto apocalipse, com a doce batida reta de “Marzipan”.

Essa viagem, capaz de amenizar qualquer dia excessivamente quente ou atarefado, termina com “Heiße Lippen”, outro na qual Roedelius recapítula a viagem de “Hollywood”, para terminar com um brevíssimo sample de uma banda de exército ("não esqueçamos do nosso tempo" parece dizer esse curtíssimo som).

Esse álbum, tão fundamental por apresentar brilhantemente diversas facetas do "krautrock" sem perder seu fluxo e brilho único, deu origem ao Harmonia, grupo formado pelos responsáveis pelo Zuckerzeit (com Michael Rohter assumindo a liderança). Zuckerzeit continua sendo fundamental e ainda aponta caminhos para serem trilhados e deturpados devidamente. Um belo álbum para se ouvir com calma e descascar aos poucos.

Sávio de Queiroz

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