quinta-feira, 3 de maio de 2012

(crítica - disco) Fenn O’Berg – In Hell (2012; Editions Mego, Áustria [EUA/Reino Unido])


























Imagine uma experiência musical comparada a uma viagem de trem. Pouco importa a procedência daquilo que é visto pela janela, se são florestas, cidades ou propagandas. As paisagens se sucedem conforme o trem se movimenta, a transitoriedade dos objetos formam cores, marcas, plantas, formas borradas pela velocidade ou mais ou menos definidas pela desaceleração. Alternando ambientes sinistros e reflexivos, mas também incorrendo em experimentação de primeira ordem, há algo em In Hell que dá suporte para a imaginação delirar. Música não para os ouvidos ou para satisfazer o apetite por canções, mas para fornecer subsídios para este vasto campo que é a imaginação.

Ora, o que se pode esperar de um trio de música improvisada formado pelo compositor e guitarrista austríaco Christian Fennesz, pelo multiinstrumentista e faz-tudo Jim O’Rourke e pelo experimentador inglês Peter Rehberg (mais conhecido como Pita)? Desde 1998 na ativa, primeiramente batizados com seus respectivos sobrenomes, o Fenn O’Berg chega ao quarto álbum de carreira apostando precisamente no mesmo formato: música improvisada sobre elementos pré-gravados, elaborada exclusivamente com o auxílio de laptops turbinados. In Hell traz, mais uma vez, a improvisação e a saturação, mas isto é apenas o conceito.

Registrando a turnê de In Stereo no Japão em 2010 (Oita, Hiroshima, Fukuoka, Kyoto e Nagoya), In Hell se distancia e se aproxima simultaneamente da dobradinha The Magic Sound of Fenn O’Berg (1999) e Return of Fenn O’Berg (2002), reunidos em 2009 com sob o título Magic & Touch. Sendo a primeira experiência de estúdio do grupo – gravado no GOK Studio, que serviu de base a uma série relevante de artistas e projetos japoneses, como o Ruins, Otomo Yoshihide, Merzbow, entre outros – In Stereo se situa evidentemente em outro campo sonoro. Se a princípio, o contraste é evidente entre este e o díptico inaugural, pode-se dizer que In Hell se encontra em um registro intermediário, açambarcandoo tanto a “digitaria” descompromissada e voluptuosa dos dois primeiros, como também as texturas silenciosas que sustentam muitos dos grandes momentos de In Stereo.

Trata-se, portanto, de uma experiência conciliadora, próxima a um universo “musical” no sentido pejorativo do termo? (Sim, “pejorativo”, pois quando nos habituamos a um artista que explora as bordas do som, dificilmente deixamos de interpretar sua guinada às melodias e harmonias como acatamento…). Pelo contrário: “Christian Rocks” e “Vampires Of Hondori” se aproximam do vandalismo dos primeiros discos, ao passo que o espaçamento ambient, com toques substanciais da guitarra saturada de Fennesz, dá forma e sentido à “Omuta Elegy”, “Concrete Onions” e “It Came From Nagoya”. Percebe-se a exploração propriamente artística de uma gama de sons híbridos e variados, compostos por sequência harmônicas, melodias esparsas, field recordings, ferro-velho digital, noise, trechos de faixas pré-gravadas, patterns, objetos despencando pelo chão e toda a sorte de sons estranhos que se possa imaginar.



Pode-se atribuir um caráter experimental às cinco faixas, mas me parece igualmente necessário afirmar que essa experiência é transmissível ao ouvinte. Antes de mais nada, In Hell é, como afirma o título, um convite para visitar o inferno, mas o inferno como a metáfora da impossibilidade, do desconhecido e do imprevisível ("O inferno são os outros..."). Mais do que isso: sem que este mesmo ouvinte se abandone ao delírio e à imaginação, todo o trabalho profundamente desafiador contido em In Hell vai por água abaixo. Eis uma obra que carece da vossa cumplicidade, sob pena de restar incompreendida nas labirínticas prateleiras do gosto contemporâneo.

Bernardo Oliveira

Nenhum comentário: