sexta-feira, 11 de maio de 2012

Minicrônicas Discográficas #19





















Depois de um Viradão Paulista repleto de pérolas do passado, um Sónar dedicado a desvendar estéticas do futuro. Será? De um lado, uma seleção de artistas que, aparentemente, prefiguram atualizações de uma determinada perspectiva da música do passado, e, supostamente, se afastam do turbilhão contemporâneo para entrar para a história: Mcoy Tyner, Ebo Taylor, Tony Allen, Titãs, Suicidal Tendencies, apresentados em conjunto, soam como um amálgama consideravelmente pós-nacional, no qual as identidades sonoras são entrecortadas por uma consciência cultural ampliada pela mescla de cultura digital e cultura online.

De outro, os artistas uptodate do Sónar, prontos a demonstrar os caminhos possíveis de novas estéticas e formas de trabalhar com o som, igualmente beneficiados pelas condições técnicas e culturais do presente: KTL, Four Tet, Rustie, Flying Lotus, entre outros, representariam algumas das formas sonoras de um futuro ao mesmo tempo longínquo e aterradoramente presente; indicariam, portanto, uma incômoda sobreposição de todos os tempos possíveis. Mas será que é possível de fato traçar o panorama sonoro destes dois eventos de acordo com a régua estreita da relação entre passado, presente e futuro?

Me parece que a música de Ebo Taylor, Mcoy Tyner, Kraftwerk, Gang do Eletro, KTL, Rustie, Takara, etc, não sendo propriamente “atemporais”, são perfeitamente assimiláveis como estéticas que alimentarão o futuro, independente dos descaminhos e interpretações gerados por um período em que o "grande mercado", integrado e organizado, ditava as regras. Isso porque quem fornece a medida justa e adequada para sondar a importância desses artistas não é mais o “Tempo” nem o “jornalismo” — ambos tomados, cada um a seu modo, como entidade metafísica autônoma —, mas nós mesmos, os indivíduos que escutam, processam, assimilam, obtém prazer e gosto pela vida com esses artistas, através desses artistas…

Ps.: Leiam aqui a entrevista que fiz com Stephen O’Malley, líder do Sunn O))), a respeito da sua colaboração com Peter Rehberg, o KTL. Assista ao Sónar ao vivo pela web, saiba como aqui.


KTL — V (2012; eMego, Áustria [EUA/Reino Unido])
Stephen O’Malley e Peter Rehberg chegam ao quinto álbum elevando a experimentação do KTL a um outro patamar. A aparência uniforme dos trabalhos anteiores, dá lugar a uma diversidade interna inesperada, fruto da ramificação das experiências e trabalhos nos quais a dupla se envolveu desde o último trabalho, de 2009. “Phil 2”, por exemplo, conta com arranjos do compositor e produtor islandês Jóhann Johanson, executado pela Filarmônica da Cidade de Praga, conduzida por Richard Hein. Já a dramática (e escatológica) “Last Spring: A Prequel”, é produto do trabalho de Rehberg e O’Malley com a coreógrafa e diretora de teatro Gisèle Vienne. De uma forma geral, V é mais um relato de navegação, uma narrativa em progresso, do que propriamente um álbum fechado e definido.


Four Tet – “Ocaras” e “Jupiter” (2012; [radiorip/soundcloud], Reino Unido)
Prestes a chegar ao Brasil, o prolífico Kieran Hebden liberou/deixou vazar/ deu mole/vazou/ duas faixas novinhas. Não bastasse a colaboração incrível com Burial, “Nova”, Hebden soltou dois petardos. O primeiro, “Ocoras”, é um techno minimalista, conta com os habituais timbres invulgares e uma batida que alterna prodigiosamente a marcação do tempo, vazou no programa de Gilles Peterson, BBC Radio 6. 



Uma introdução “komische”, seguida da batucada techno de primeira linha, e uma coda frenética marcam “Jupiter”, cuja textura percussiva é, mais uma vez o grande atrativo. 



Squarepusher – Ufabulum & Enstrobia (2012; Warp Records, Reino Unido)
Não nos iludamos: o Squarepusher mais radical e interessante é o primeiro, aquele de Feed Me Weird Things e Hard Normal Daddy. Trabalhos como Hello Everything e Just a Souvenir não só demonstram uma estranha guinada ao universo musical stricto sensu, como também exibem um narcisismo instrumental que… Bem, meio chato... Mas Ufabulum traz algumas faixas que não só estimulam os fãs do passado a visitarem sua apresentação no dia 12, como também conta com faixas muito interessantes como “The Metallurgist”, “303 Scopem Hard”, “Ecstatic Shock” e a interessante “Dark Steering”, cujo clipe o leitor pode assistir abaixo.

Bernardo Oliveira




Escarlatina Obsessiva – The Organ Grinder Song (2012; Zorch Factory Records, Brasil)
O duo originário de São Tomé das Letras lança o seu quinto disco, The Organ Grinder Song, o mais maduro e atmosférico de sua discografia. Com suas raízes no post-punk e no gótico, a dupla não abre mão de outros instrumentos pouco convencionais ao estilo, como o sax e o acordeão.




Girlfriends – Over Me (1989 Tape Version) (2012; Young Girl Tapes)
Com uma levada funkeada e inspirado no chill e no house europeu, o Girlfriends faz parte do cast da Young Girl Tapes, selo português que também conta com o excelente ∆'glr. Enfim, vale uma conferida, não só pelo Girlfriends, mas por todas as faixas inclusas no Soundcloud da Young Girl Tapes.
Ouça: http://soundcloud.com/younggirlstapes/girlfriends-over-me-1989-tape



Mediafired - The Pathway Through Whatever  (2011[2012]; Beer On The Rug, EUA)
The Pathway Through Whatever reune os álbuns e-rado / Shit´s Cold / Roam As You Are, originalmente lançado em 2011 pela Exo Tapes em formato cassette em uma edição limitada de 32. Musicalmente, o Mediafired explora a temática da colagem, usando e abusando de loops e alteração de pitch. Não se espante se, no meio do disco, você reconhecer a melodia daquela baladinha manjada do Van Halen (quem encontrar o loop ganha um doce). Relançado em formato digital pela Beer on the Rug.
Ouça: http://beerontherug.bandcamp.com/album/the-pathway-through-whatever

Thiago Miazzo

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