quarta-feira, 27 de junho de 2012

(crítica - disco) The Ex – Joggers and Smoggers (1989; Ex Records, Holanda)


























No decorrer da década de 80, a banda holandesa The Ex costumava dar provas constantes de sua relevância, através de álbuns tão ou mais furiosos que Joggers and Smoggers. Surgido em 79 nas franjas do burburinho punk, influenciado sobremaneira pela siderurgia roqueira do Gang of Four, o grupo é hoje associado sem muitas reservas à escala evolutiva do punk rock, sedimentada sobre a marca estratégica do “pós-punk” — um guarda-chuva amplo que abrigava os meneios straight edge do Talking Heads, a lírica sombria de Bauhaus e Joy Division, o rock conturbado do Wire e The Pop Group, e até mesmo o eletrônico avant-garde do Throbbing Gristle, mas que, no entanto, fazia da No Wave um apêndice e simplesmente ignorava o The Ex... Então, como inscrevê-los nessa longa rampa que desliza do final dos anos 70 e que ganhou impulso até os nossos dias, pulverizando-se em um sem número de estilos, gêneros e possibilidades?

Penso não existir nem sequer a possibilidade de uma resposta plausível que se concentre em apenas um disco, como pode parecer minha pretensão ao analisar este álbum duplo decisivo na carreira do grupo. Mas o fato é que um olhar acurado sobre a discografia do Ex durante os 80 revela uma sucessão de excelentes trabalhos, que restam carentes de uma avaliação crítica adequada não só em língua portuguesa, mas eventualmente em inglês [1]. Me refiro a clássicos praticamente inauditos como Blueprints for a Blackout (84), o primeiro a indicar a vocação multidirecional do grupo, e sua radicalização em Pokkeherrie (85) e Aural Guerrilla (88). Estes discos indicam, para além do ideário punk, o gosto pela timbragem ruidosa, a concepção emaranhada das estruturas rítmicas, a inquieta variação de climas e todo um ambiente de experimentação que, associado à ideologia anarquista alardeada por seus integrantes, foi classificado com o título “anarco-punk”. Mas antes de aceitar passivamente esta classificação “oficial” — porque situada em relação a uma cena igualmente “oficial”, eminentemente anglosaxã — sou obrigado a concordar com a frase que consta na biografia oficial do grupo: “O The Ex tem desenvolvido ao longo dos anos um caldeirão de diferentes estilos musicais: noise, rock, jazz, improvisação e música étnica foram entrecruzando-se sob um único guarda-chuva: ‘Ex-music’.”

Partindo dessa premissa, o The Ex sempre buscou expandir sua paleta sonora, juntando-se para discos em colaboração com Tortoise, Sonic Youth, Tom Cora, entre outros. Esta inclinação adquiriu ainda mais força quando, em 2001, Terri e Andy foram para Addis Abeba, Etiópia, dando início a um aventureiro processo de renovação da sonoridade do grupo, constituído solidamente a partir da amizade com músicos etíopes. Nesta viagem, uniram-se particularmente com o saxofonista Gétatchèw Mèkurya, com quem lançaram em 2006 o atordoante Moa Anbessa (ouça "Ethiopia Hagere"). Mais de dez anos depois, contabiliza-se o saldo positivo desta incursão: algumas turnês, workshops e a relativa popularização de nomes até então obscuros, como Mulatu Astatke e Mahmoud Ahmed. Nada mal para um grupo anarco-punk, que por décadas manifestou preocupações sociais nas letras e na postura, sem prejuízo para estratégias de posicionamento e elaboração estética dignas da maior atenção. 

Hoje, após uma infinidade de formações, que incluíram, dentre outros o baixista Massimo Pupilo e o baterista Han Bennink, o Ex se estabilizou com Terrie Ex na guitarra barítona, Arnold de Boer nos vocais, Andy Moor nas guitarras e guitarra barítona e Katherina Bornefeld na bateria. Mas no final da década de 80, à época de Joggers and Smoggers, apenas Terrie e Katrin faziam parte do Ex, completando-se com a presença do membro fundador G.W. Sok nos vocais e Luc no baixo. Para Joggers and Smoggers, a banda convidou nada mais nada menos do que Lee Ranaldo e Thurston Moore, do Sonic Youth, o coletivo anarco-punk Dog Faced Hermans de Glasgow, o célebre coletivo holandês Instant Composers Pool, assim como vários músicos populares de tradições europeias e do Oriente Médio. Gravado em Amsterdam no ADM Koeienverhuurbedrijf e produzido por Dolf Planteijdt, Joggers and Smoggers lida de forma equilibrada com a tensão que caracteriza qualquer esforço criativo prolongado, o que permite compará-lo a grandes álbuns duplos que fizeram história (penso, sobretudo, em Double Nickels on the dime, do Minueten). Nas 34 faixas que perfazem a hora e meia de audição, o ouvinte se depara com uma obra robusta e coesa, mas que, ao mesmo tempo, emite uma abundância de sonoridades que, arrisco dizer, não houve igual na seara do rock durante a década de 80.

Da introdução silenciosa “Humm (The Full House Mumble)” até a estranha cançoneta “Upstairs With Picasso”, o The Ex passeia por uma infinidade de possibilidades: anomalias extraídas do punk rock, temperadas com lo-fi, noise, improviso e instrumentos estranhos tais como "gaiola", extintor percutido com o martelo, bambus, colheres, "fios", "vidro", castanholas, chocalhos, cabaças e miuçalhas afins. Dessa vertente, cito “Pigs and Scales”, “To Be Clear” (entrecortada por guitarradas quase percussivas, à la DNA), “Burst! Crack! Split!” (one-minute rock, no qual o slap de um dos dois contrabaixos compete com o toque da caixa), e o trio implacável formado por “Nosey Parker”, “Kachun-K Pschûh” e “The Early Bird's Worm”. Faixas inclassificáveis como “Watch the Driver” e o suingue bêbado de “Got Everything?”, com Ab Baars no saxophone e Wolter Wierbos no trombone, contrastam com a voz comovente e patética do poeta e escritor Dorpsoudste de Jong em “Waarom Niet”.

O rock dos anos 50 é revisto por uma lente cínica que desconstrói o arranjo de metais comuns nas grande orquestra, em  “Shopping Street” e “Brickbat”. As “sonicyouthianas” “Tightly Stretched”, com Lee Ranaldo e “Gentlemen” com Thurston Moore constituem atrativos à parte, com destaque para o intermezzo exclusivamente percussivo da primeira. As experiências com as sonoridades orientais marcam presença com o violão arabizante de Dolf em “Morning Star”, a guitarra distorcida sobre o canto búlgaro no drone “Invitation to the Dance” (com Jeroen de Groot na gaita de fole) e as escalas orientais de “Ask the Prisoner”, executadas por Doan Gurkensalat — que toca um instrumento de corda de origem turca e iraniana chamado saz. Nesta mesma seara, vale notar o canto gutural climático de “Hieronymus”, um contraponto perfeito à voz melíflua da violinista Gabi Kenderesi em “Greetings from Urbania”.

Assim, se considerarmos a lapidar autodefinição que consta no site do grupo como uma espécie de atestado de intenções, convém destacar Joggers and Smoggers, primeiramente, como um marco responsável pela liberação do eixo criativo do grupo; depois, como a suma e o espírito de tudo o que o The Ex fez durante todos os 32 anos de carreira. Vejam, não se trata de eleger o melhor entre os mais de 40 trabalhos produzidos pelo grupo, entre discos de carreira, registros ao vivo, inúmeras colaborações, cassetes, etc, o que me parece uma tarefa impossível. Mas de ressaltar as qualidades que fazem com que Joggers and Smoggers se estabeleça como o marco representativo daquilo que é fundamental e característico no The Ex: a apropriação criativa do discurso punk, transformado em uma música desprovida de prerrogativas mercadológicas — em outras palavras, liberada do jugo da canção (ainda que possa lhe cortejar eventualmente...) A importância de Joggers and Smoggers reside, assim, no fato de ter servido simultaneamente de epílogo para o momento “punk”, e prólogo para novos capítulos desta formidável miríade sonora conhecida como “Ex Music”.

Bernardo Oliveira

[1] Rip It UpTotally Wired e Retromania, por exemplo, são três estudos/série de entrevistas assinados por Simon Reynolds, que envolvem diretamente o pós-punk, mas que não possuem nem sequer uma referência ao The Ex.

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