sexta-feira, 8 de junho de 2012

(crítica - disco) Stephen O’Malley & Steve Noble – St. Francis Duo (2012; Bo’Weavil, Reino Unido [EUA])

























A consolidação de Stephen O’Malley como um dos artistas decisivos deste ano não decorre somente dos três grandes lançamentos que ele protagonizou até então, a saber: V, o último do KTL; Nazoranai, com Keiji Haino e Oren Ambarchi, ainda no prelo; e este acachapante St. Francis Duo, lançado em abril deste ano pelo selo Bo’Weavil. Quem esteve mês passado no concerto fenomenal que o KTL fez no Sónar São Paulo, há de concordar que foi um dos melhores momentos do festival, e, com certeza, um dos mais impressionantes realizados no Brasil este ano. À primeira vista, é comum reconhecer no trabalho de O’Malley apenas seu traço aparente, qual seja, o poderio sônico e os altos volumes. Contudo, sua performance serviu para mostrar que por trás da névoa barulhenta e sombria, revelam-se artifícios e procedimentos técnicos que, por fim, favorecem a construção de um ambiente preeminentemente catártico — como se pode conferir de forma mais completa através do Sunn O))).

Integrante de grupos e projetos que redesenharam a confluência do metal com a música improvisada e o drone, tais como Khanate, Sunn O))) e Æthenor, a música de O’Malley sempre se caracterizou pela fina sintonia entre duas características aparentemente antagônicas: arrojo na concepção, desenvoltura na execução. Assim, antes do poderio sônico, antes mesmo do “barulho” e da abstração modal com a qual pretende estimular os elementos arcaicos da sua música, o artista trabalha sobre cada nota, cada timbre e acorde com o cuidado digno de um artesão. É no detalhe, no apuro técnico e conceitual, no arranjo meticuloso das formas, e não na mera aglomeração de acordes distorcidos, que se deposita o arcabouço conceitual de suas improvisações. De modo que não seria exagero afirmar que do encontro entre O’Malley e o lendário Steve Noble, dois mestres do detalhe, espera-se nada menos do que a expressão imponderável da singularidade.

Reconhecido por atuar na seara da improvisação, particularmente ligado à cena inglesa e à personalidade desbravadora de Derek Bailey, Noble carrega na bagagem uma ampla experiência na arte do improviso, obtida a partir da gravação de álbuns como Out of The Past e And (com Bailey e Pat Thomas), mas também na interação com Paul Dunmall e Alex Ward — com quem se apresenta em São Paulo no próximo dia 23. Em quatro faixas com duração média entre 18 e 20 minutos, O’Malley e Noble prolongaram o entrosamento expresso no último disco do Æthenor, En Form For Blå. Bastaram duas apresentações em Londres, no Cafe Oto, em agosto de 2010, para fazer de St Francis Duo mais um dos grandes momentos deste ano envolvendo o nome de Stephen O’Malley.



Como estamos diante de duas sessões distintas, uma comparação do ponto de vista da estrutura me parece inútil, já que esta se encontra submetida à dinâmica da improvisação, mas vale destacar o ímpeto e a inspiração. Neste caso, opto pelo segundo improviso em ambos os dias. No “Side B” ressalto tanto o pulso firme com o qual a dupla conduz a instrumentação na seara dos baixos volumes — aproximadamente dos quatro minutos até por volta do décimo primeiro —, como também pela admirável opção timbrística de O’Malley, que usou a guitarra sem distorção na maioria do tempo, explorando acordes graves e encorpados. No segundo dia, que em termos gerais me soou melhor sob os aspectos técnicos e criativos, o “Side D” traz uma improvisação descontínua, repleta de meandros e surpresas até mesmo em seus momentos mais indigestos — como se pode conferir a partir do sexto minuto, em meio aos escombros da batalha entre os pratos da bateria e os ruídos abstratos da guitarra distorcida. Este aspecto se deve não somente à maior variação na guitarra de O'Malley, mas em uma atitude rítimica mais agressiva de Noble, cujo desenvolvimento culmina na catarse que anuncia o fim do disco. 

Mas em que consiste o brilhantismo deste trabalho? Ora, logo nos primeiros segundos da faixa intitulada simplesmente como “Side A”, o indício claro de uma tensão que irá percorrer toda a sua duração: ao invés da habitual massaroca densa e compacta, a alternância de climas, texturas e diálogos entre os dois instrumentistas. Porém, o entrosamento se dá mais pela diferenciação do que pela afinidade do método. Enquanto Noble busca a diversidade de timbres à moda de Derek Bailey, explorando seu instrumentos para além das convenções —usando seus tambores como poucos, mas também batendo nas ferragens, jogando os pratos uns contras os outros, roçando as peles e os pratos com baquetas de madeira, feltro, e até de ferro! —, O’Malley desempenha o papel do construtor paciente, explorando as repetições e circunscrevendo um território harmônico consistente de onde retira suas intervenções. E, no entanto, há que se ressaltar a riqueza do diálogo, pois se a diversidade de Noble indica o caminho, O’Malley dispõe a todo instante de argumentos eficazes para segui-lo. Denso ou rebuscado, noisy ou silencioso, St. Francis Duo é, no mínimo, o valioso registro desta relação de complementaridade que percorre todo o disco.

Bernardo Oliveira

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