quinta-feira, 16 de agosto de 2012

(crítica – disco) Liars: WIXIW (2012, Mute, EUA)


























Estive escutando este disco pelos últimos dois meses, e observo que não foram poucas as vezes em que me flagrei em dúvida, ligeiramente desorientado em mais uma encruzilhada armada por um dos trios mais doidivanas do rock mundial. Quem acompanha a carreira do Liars sabe do que estou falando. Como eles manipulam com tanta liberdade a roupagem de suas canções tortas e permanecem “Liars” do início ao fim? Vejam o caso de WIXIW (pronuncia-se “wish you”): seus integrantes confirmam de bom grado que “soa como um cruzamento entre os álbuns Amnesiac e In Rainbows”. O site NPR chegou a afirmar que se trata “do melhor disco do Radiohead desde Kid A. Excessos à parte, não há como discordar da semelhança com o Radiohead, sobretudo diante do clangor etéreo de “The Exact Colour Of Doubt”, de uma balada como “Ill Valley Prodigies” ou do eletrorock sombrio e cadenciado de “Flood to Flood”…

Tamanha declaração de amor a um grupo tão paradigmático soa para mim como mais uma desconcertante ironia. A julgar pela sequência de álbuns que preenche uma década inteira, de They Threw Us All… (2002) até o incompreendido Sisterworld (2010), a sonoridade do Liars serpenteia uma identidade fundada paradoxalmente na atitude irônica diante de qualquer clausura identitária. Agora eles reaparecem investindo em apostas obscuras: título e capa pictóricos, enigmáticos; sintetizadores e sequencers ligados a todo vapor; guitarras e percussões outrora direcionadas a explodir em jams largadas, se apresentam agora com discrição; um minimalismo cancioneiro que favorece o timbre anasalado de Angus Andrew (comparável ao de Beck e Thurston Moore); e, enfim, a incorporação de altas doses de referências colhidas não só do Radiohead da fase mais experimental, mas também dos sintetizadores de Chris and Cosey, do Portishead de Third (notadamente na faixa título) e, tal como no anti-hit “Housecloud”, transbordando sobre o cadinho da música convencional através do techno “Brats” — cujo clipe é das coisas mais bizarras que surgiram esse ano.

Contudo, mesmo os passos em direção a uma sonoridade mais convencional causam estranhamento. Não só pelo deslocamento do contexto (do rock à experimentação ao techno…), como também pela obtenção, nessas bases, de uma sintonia improvável entre canção e arranjo. Tal combinação permite entrever o que há de singular na presença do Liars no cenário mundial do rock. Afinal, eles não mentem, eles são os Liars! Mentirosos natos cujo trabalho ilude ouvintes incautos, sobretudo aqueles em busca da confirmação de uma identidade sonora que, em todo caso, nunca virá. 

Bernardo Oliveira 

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